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Fernando Lopes - Iscas Politicrônicas -

O Rio de Janeiro continua lindo Gil, e complicado; mais do que isso, espantoso. Não dá pra entender a razão pela qual os fluminenses elegem gente (latu sensu, ófi córsi) como Anthony Garotinho, sua esposa Rosinha, Sérgio Cabral e outros desse naipe. A bola da vez (no mau sentido) é o notório Marcelo Crivella, eleito prefeito dos cariocas.

Sim, claro… nós paulistas não podemos apontar o dedo sujo; afinal, elegemos Paulo Maluf, Fleury Filho, Fernando Haddad e outros da classe dos imperdoáveis sem explicação plausível.

Mas os fluminenses (principalmente os cariocas) parecem insistir nessa mania de rolar morro abaixo (no bom e no mau sentido) através de administrações variando do sofrível ao inaceitável. Com um agravante: Alguns dos mencionados se acreditam bafejados por Deus, arautos do Senhor, uma espécie de caixa postal (e também registradora) dos Céus. Nós paulistas, ao menos, somos vítimas de meros amantes declarados do vil metal. Até agora. Os praianos dirigentes vizinhos querem também arregimentar a fé dos populares, numa versão tupiniquim da estratégia Hearts & Minds utilizada pelos americanos na guerra do Vietnã – se bem que no caso de Garotinho & Cia eles acrescentaram fé, bolsos e carteiras ao rol de vitórias a alcançar perante o inimigo otário – opa, digo, eleitores. Isso simplesmente não pode continuar. Não dá mais. Religião não é política – ou ao menos não deveria ser. A César o que é de César, como deixou claro o grande Sábio.

Crivella partiu pro regaço: Sem medo de ser feliz, foi gravado prometendo (e cometendo) favores especiais a colegas pastores de sua religião, igreja e base eleitoral garantindo passe livre para furar a fila dos doentes à espera de cirurgia na cidade do Rio (entre outros absurdos), para que todos se locupletassem com a gratidão que inevitavelmente viria dos pobres coitados tangidos como gado por essa gente. O áudio vazou, graças a Deus (ou ao diabo, segundo Crivella) e pudemos conhecer a real face desse senhor que utiliza qualquer tipo de manobra arrivista. Muito corretamente, a oposição municipal encurralou o santo pecador em seu milagre da multiplicação de cirurgias, e Crivella está por um triz de ser impichado do cargo de prefeito. Exatamente como Michel Temer fez no Congresso, está tentando fugir da justiça humana (afinal, afirma ter o monopólio da divina) distribuindo cargos e favores para os oportunistas de plantão (com trocadilho para um certo plantonista do judiciário) na tentativa de manter-se no cargo. A tática não é nova, mas costuma funcionar, para indignação dos honestos.

Falando nessa rara e estreita fatia dos honestos, mantenho há anos boa amizade com um xará e colega do Rio, carioca da gema; como ele não deixa de lembrar, com toda a razão, a cidade é uma das mais lindas do mundo – mas a feiúra moral de seus governantes está desmentindo até a Natureza. A que ponto chegamos, xará. Vocês não merecem, nem nós, nem ninguém.

Antes que os apressadinhos de sempre se manifestem, ninguém está pregando sublevação religiosa, ou modernas Cruzadas, volta da Inquisição, intolerância a algum tipo de crença, muito menos outra Noite de São Bartolomeu (se não conhecer, deixe de ser preguicento e localize no Google). Mas é inacreditável que se utilize qualquer religião para justificar imundícies praticadas por políticos injustificáveis. Trata-se de uma – medianamente – nova ideologia disfarçada, na qual Deus deixa de ter qualquer participação, apesar dos veementes álibis contrários. Que o digam os milhares de cariocas prejudicados, morrendo nas filas à espera de uma cirurgia renal, oftalmológica, ortopédica ou outra qualquer. Justiça para eles. Humana, terrena, mundana, comum, dos homens, mas Justiça, não ilusões metafísicas gerando óbolos polpudos e votos.

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