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Henrique Szklo -

Uma matéria que tem sido discutida exaustivamente é o destino da humanidade, levando-se em consideração que as novas gerações não acumulam conhecimento, apenas têm acesso à informação. Não se aprofundam em nada e navegam apenas na superfície da web. O evento da internet e particularmente dos motores de busca como o Google – com o auxílio luxuoso da Wikipédia – faz com que pensemos se há mesmo sentido gastarmos tempo e neurônios acumulando informações em nosso limitado HD orgânico. As informações estão tão acessíveis e numa quantidade tão abundante, que a nossa memória está sendo poupada e transferida para as nuvens. Literalmente. A internet é a nova biblioteca de Constantinopla. A diferença é que democratizou. Quase todo mundo têm acesso.

Não há hoje uma conversa que não esteja ancorada em buscas frenéticas por informações complementares. Ou até mesmo para se dirimir alguma dúvida que surge. Mas não só as conversas são regadas a wikis dos mais diversos calibres. Qualquer evento que testemunhamos pode despertar uma curiosidade insuportável e nos levar imediatamente aos nossos fones espertos em busca de iluminação. Uma coceirinha na ponta dos dedos. Estava assistindo a final do US Open, por exemplo, e quis saber a nacionalidade da mulher do Djokovic. Em questão de segundos descobri. Depois quis saber a altura dele e a do Del Potro. Rapidamente minha curiosidade foi exterminada, sem antes eu expressar algumas interjeições de surpresa: “Oh!”, “poxa!”, “legal!”. Minha vida mudou alguma coisa? Absolutamente nada, mas é inegável que existe prazer em satisfazer nossa curiosidade de forma instantânea.

A discussão deste novo cenário da sociedade, porém, é qual será o futuro da juventude digital? Não absorvem, apenas distribuem as informações. Digamos que a internet é uma pizzaria, a informação é a pizza e os jovens são os entregadores. Motoboys que levam a pizza do ponto A ao ponto B, sem a experimentarem. Sentem apenas o cheirinho, mas pra eles é mais que suficiente. O que vai acontecer com estes meninos? E com o mundo? Seremos um planeta habitado por mentes vazias com celulares na mão? Seremos um grande delivery girando em torno do sol? Não sei. Perguntemos ao Yahoo.

Mas agora é que vem a questão fundamental: quem disse que isso é pior do que é hoje? Quem disse que o acumulo de conhecimento individual é o melhor modelo de sociedade? É claro que há um desconforto dos mais velhos. Provavelmente é preconceito. Um preconceito natural e esperado sempre que novas gerações tomam o mundo de assalto. Trazem novos paradigmas e maneiras diversas de enxergar o mundo. Acontece que construímos padrões em nossos cérebros ao longo de anos e qualquer movimento que questione ou negue nossa visão devidamente testada e aprovada é uma ameaça ao bem estar da humanidade.

Mas pense: você está realmente feliz com as coisas como são hoje? O mundo é uma espécie de paraíso e os jovens são a Eva querendo comer a maçã? Não seria melhor tentar um modelo diferente para ver se as pessoas param de estacionar em vaga para deficientes “só por um minutinho”, se adquirem um gosto musical pelo menos razoável ou parem de descontar suas frustrações fazendo comentários ofensivos na internet sob a proteção do anonimato?

Existe um limite de capacidade em nosso cérebro. Ao longo dos séculos estamos gradativamente aumentando o volume de conhecimento dos indivíduos, sobrecarregando nossa cachola. Hoje, qualquer adolescente espinhudo tem mais informações guardadas em sua cabecinha frágil do que um adulto ilustrado de tempos antigos. Em algum momento, cedo ou tarde, chegaremos ao limite. Copo cheio. Não haverá mais espaço para novas informações. Imagine a tragédia. Morreríamos todos, acredito. Sem capacidade de acumular novas informações, viveríamos uma epidemia de auzheimer voluntário.

Com o comportamento atual, este perigo é postergado e fica mais distante. Nosso poderoso cérebro poderá se desenvolver em outras áreas. Teremos espaço suficiente para evoluir naquilo que realmente nos interessa. Ninguém precisará de conhecimento genérico nem perderá tempo com informações periféricas. Só aprenderemos o que quisermos. E se não quisermos aprender nada, tudo bem. Bastará um celular. Liberdade, liberdade. Teremos mais condições de refletir, usando as informações acessadas na internet para fazer novas conexões, criando novos paradigmas, evoluindo de forma mais célere e consistente. Isso de refletir não vai acontecer, mas é bonito imaginar.

Aos que gostam de teorias da conspiração, o Big Data irá se transformar em breve em nossa memória coletiva. Seremos todos alimentados por uma mesma entidade que, obviamente, estará nas mãos das grandes corporações que, como sempre, nos controlarão como ratinhos de laboratório. Gustav Jung, se vivo, talvez considerasse que os Grandes Servidores, como serão conhecidos no futuro, serão nosso consciente (e não inconsciente) coletivo. Não será mais necessário estudar arquétipos encontrados especialmente nas cartas de tarô. São Google será nosso oráculo, onde esclareceremos todas as nossas dúvidas. Nosso presente, nosso passado, nosso futuro, de onde viemos, para onde vamos, se existe vida depois da morte, se existe Deus e se o Tiririca vai ser eleito de novo.

Não preciso dizer que tudo isso que escrevi não passa de ilações e invencionices de uma mente irresponsável. Um futurismo mequetrefe que de tão estapafúrdio provavelmente se realizará, tamanha é a capacidade do ser humano de fazer merda. Mas garanto que pensei em tudo sozinho. Não consultei ninguém. Sei que foi um risco, mas calculado. Não entrei na internet uma vez sequer. Sim, isso é possível.

Mas tudo isso só será possível graças a um grupo muito especial de pessoas abnegadas que se dedicam a oferecer seu trabalho em prol do desenvolvimento da humanidade. Deus salve esses homens e mulheres de boa vontade que resumem as informações, que fazem tutoriais e respondem perguntas em fóruns. Amém!

Artigo publicado originalmente no meu blog em Setembro de 2018

Visite meu site: Escola Nômade para Mentes Criativas

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