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 Economia, política e eleições

“Mesmo com a retomada do crescimento econômico, há problemas com a qualidade do emprego que boa parte da população americana atualmente possui – isso porque, no pós-crise, muitos conseguiram trabalho em tempo parcial e fora das áreas de especialização, coisas que o índice geral de desemprego não capta, mas que explicam a percepção da sociedade em relação à deterioração de sua qualidade de vida.”

Fernanda Magnotta

A expressão que serve de título a este artigo tornou-se conhecida por ocasião da campanha presidencial de Bill Clinton. Foi criada por James Carville, então assessor da campanha de Bill Clinton e foi estampada no QG de campanha do Partido Democrata. Ela captava o espírito predominante na época e foi fator determinante para a vitória sobre George Bush: os eleitores estavam mais preocupados com a crise econômica do que com o triunfo de Bush na Guerra do Golfo.

A relação entre a economia e a política, aliás, foi sempre vista como fator essencial para definir o resultado de disputas eleitorais. Embora a política não seja tão simples e linear, o que se constatava é que quando a economia ia bem, a possibilidade de vitória de quem concorria pela oposição era remota, uma vez que quem estava no poder, sendo associado ao bom momento da economia, tinha grande chance de se reeleger ou de fazer o sucessor.

As campanhas eleitorais exploravam fortemente tal relação e as pesquisas e as matérias divulgadas pela mídia davam eco à mesma.

A dúvida, diante de alguns episódios recentes é: será que a expressão permanece válida?

Confirmando a hipótese, temos pelo menos dois casos muito próximos. O primeiro, ocorrido no final do ano passado, teve lugar na Argentina, com a vitória de Mauricio. Macri, que disputou a Presidência da República fazendo clara oposição ao governo de Cristina Kirchner, cuja gestão era associada por parcela considerável da população como responsável pela aguda crise econômica e social num país que chegou a ter, na metade do século passado, um padrão de vida superior ao de alguns países do sul e do leste da Europa.

O segundo, ainda mais próximo, foi visto nas eleições municipais realizadas no Brasil, onde o grande derrotado foi o Partido dos Trabalhadores (PT). Depois de treze anos exercendo o poder em nível federal, os candidatos do PT foram associados à perversa combinação representada pela péssima gestão e corrupção generalizada. Diante dessa percepção por parte da ampla maioria da população, não foi surpresa a estrondosa derrota dos candidatos do partido, tanto para prefeito como para vereador.

Outros casos, porém, põem em xeque a relação entre situação econômica favorável e resultado eleitoral.

Comecemos pelo exemplo que teve mais repercussão, o dos Estados Unidos. O país chegou às eleições presidenciais com um crescimento econômico consistente iniciado após a grave crise econômico-financeira que teve origem no sistema hipotecário em 2007/2008, com um nível de desemprego baixíssimo e com a avalição positiva do presidente Barack Obama, que obteve uma boa recuperação no final de seus oito anos de mandato. Com esses elementos, era natural esperar a vitória da candidata do Partido Democrata apoiada por Obama, a experiente ex-secretária de Estado Hillary Clinton. Entretanto, quem acabou se elegendo foi o candidato do Partido Republicano, um bem sucedido empresário sem qualquer experiência política e que, durante a campanha, usou e abusou de um discurso e de ações provocativas e preconceituosas.

Na própria América do Sul há um caso que merece uma análise especial, o do Peru. A economia peruana foi a que mais cresceu – junto com a do Paraguai – nas últimas duas décadas. A tabela 1 mostra que, com exceção de 2001 e 2009, quando a crise que teve origem no sistema hipotecário americano teve efeito devastador em todos os países, o Peru cresceu num ritmo bastante satisfatório.

Tabela 1

Produto Interno Bruto (PIB) – Taxa de Crescimento Real

 (crescimento anual do PIB ajustado pela inflação e expressa como uma porcentagem)

Ano Crescimento do PIB (%)
1999 2,4
2000 3,6
2001 -0,3
2002 4,8
2003 4,0
2004 4,5
2005 6,4
2006 8,0
2007 9,0
2008 9,8
2009 0,9
2010 8,8
2011 6,9
2012 6,3
2013 5,1
2014 2,4
2015 3,3

Fonte: CIA World Factbook

Em que pese o excelente desempenho da economia, nenhum dos últimos presidentes conseguiu fazer seu sucessor (no Peru não é permitida a reeleição, embora um presidente possa se candidatar depois de se manter afastado por um mandato). A questão, porém, é mais complexa, pois não apenas foram incapazes de eleger seus sucessores, mas também chegaram ao final de seus mandatos com índices baixíssimos de aprovação, não raras vezes com percentuais inferiores a 10%. Tornando a análise ainda mais difícil, todos os presidentes eleitos deram, com pequenas adaptações, continuidade à política econômica do presidente anterior.

Chamou a atenção, no caso das recentes eleições norte-americanas, a incapacidade das agências de pesquisa bem como da maior parte da imprensa de captar a intenção do eleitorado, o que também se verificou, nos últimos tempos, em duas consultas plebiscitárias, a que redundou na saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) e a representada pela recusa dos colombianos ao acordo de paz firmado pelo governo com o grupo terrorista das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

O que está por trás desses resultados que provocaram enorme surpresa?

Com a palavra os especialistas em política e em comunicação.

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências e indicações bibliográficas

GIANNETTI, Eduardo. Os bastidores do desastre. Valor Econômico. Caderno Eu & Fim de Semana, 18 de novembro de 2016, pp. 4 -6.

SAFATLE, Claudia, BORGES, João e OLIVEIRA, Ribamar. Anatomia de um desastre. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2016.

Referências e indicações webgráficas

BBC. Trump e Brexit: 5 fatores em comum. Disponível em http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2016/noticia/2016/11/trump-e-brexit-5-fatores-em-comum.html.

MAGNOTTA, Fernanda. “Aqui a gente vê que não é só o Brasil que está no fim da linha”, diz especialista brasileira nos EUA. Disponível em http://noticias.r7.com/internacional/aqui-a-gente-ve-que-nao-e-so-o-brasil-que-esta-no-fim-da-linha-diz-especialista-brasileira-nos-eua-03112016.

MAGNOTTA, Fernanda e DOMINGUES, Juliano. O que esperar da ‘maioria silenciosa’? Disponível em http://brasil.estadao.com.br/blogs/tudo-em-debate/o-que-esperar-da-maioria-silenciosa/.

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