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É a democracia

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Adalberto Piotto - Olhar Brasileiro -

A afirmação conceitual de que as instituições americanas são sólidas e podem evitar exageros presidenciais é análise ou torcida?
A afirmação de que Donald Trump na presidência fará muito menos loucuras do que disse na campanha é análise ou torcida?
Já nos é possível enxergar que a cobertura da eleição americana teve episódios de torcida por Hillary Clinton, da imprensa e de analistas acadêmicos. Torcida com cara de reportagem ou comentário especializado que gerou análises distorcidas, tom jocoso acerca de seu oponente e falta de ouvir o eleitor e entender seus anseios, limitações ou seu poder ilimitado de tomar a decisão que julgar melhor em qualquer tempo, inclusive na beira da urna.
A democracia, neste aspecto de poder irrestrito de escolha do eleitor, é incontrolável, senão não seria democracia.
Faço aqui algumas considerações que, se não expurgam os pecados da cobertura jornalística e das análises acadêmicas, explicam-nas melhor.
Erros são compreensíveis e podem ser movidos por ideologias válidas. Só se transformam em defeitos incorrigíveis se não assumidos e esclarecidos.
É natural para muitos jornalistas e cientistas sociais que, ao virem um candidato de estilo fanfarrão, estranho, vaidoso – falo de Trump – com propostas impensáveis num mundo que se quer tolerante e multilateral, e ainda com todas as revelações de sexismo grosseiro, tratem este sujeito com críticas duras e com o mesmo nível de intolerância, até jocosidade, onde o erro é mais flagrante no início da cobertura que se revelará equivocada.
Daí, pra virar torcida é um passo, comprometendo-se a frieza da análise (nem falo de imparcialidade) e o rigor que uma apuração jornalística requer, com um olhar amplo sobre tudo e todos, mesmo que opinativo. Em opinião não há pecado. Ele está no preconceito, na arrogância e na pretensão.
O populismo que se atribuiu, com devida razão, ao candidato republicano é algo extremamente combatido nas ciências sociais das escolas de jornalismo. A ciência faz pensar.

Nas redações, a ojeriza pela fanfarronice e pelos candidatos populistas é levada na prática.
Verdade que há jabuticabas, como no Brasil, onde, a se considerar o presente, a imprensa “editou” as “Lulices” de Lula por muitos anos, tornando-o palatável à sociedade, em especial à classe média, em edições de tv e rádio e, sobretudo, nas aspas e narrativas dos jornais impressos, uma bondade dos colegas tupiniquins, sob o insuportável mantra do coitadismo, que custou caro aos brasileiros, parte destes, à época, também com mania de justiçamento social, não justiça.

Há, ainda, um pequeno grupo, movido a sei lá o quê, que trata o nosso populista de barba e sem olhos azuis ou cabelos loiros, mesmo com as grosserias sobre mulheres, reveladas nas escutas, como um estadista, apesar do aparelhamento e da tragédia econômica e moral de seu governo.
Trump, candidato do mundo do “real time”, das redes sociais automáticas, da exposição de imagem “just in time”, não teve o benefício da “edição” pela era tecnológica que vivemos e porque a imprensa americana levou a sério a crítica dura ao populismo e a ojeriza aos populistas. Ponto pra eles.
Mas, por outro lado, não ouviu o eleitor médio, o que decide, com o rigor e o valor que merece. Errou ao replicar conceitos antigos pra julgar comportamentos presentes. Num mundo dinâmico como o nosso? A ciência também ensina a duvidar, consequência do pensar.
Também falou enfaticamente, porque justo, do globalismo de Hillary, de seu histórico como senadora com olhares para as minorias e, por fim, como secretária de Estado de Obama – apesar do episódio temerário dos emails – de suas virtudes de tolerância, de responsabilidade fiscal, de negociadora com o mundo.

A cobertura acertou nisso tudo, mas o fez sem levar em conta a dor do eleitor local que, certo ou errado, sofre de desemprego de empregos bons, em indústrias de ponta que chineses e outros países tomaram do americano médio. Curioso que muitos desses empregos são de empresas americanas de empresários americanos ambiciosos, como Trump, que levaram suas fábricas para a China e outros lugares de olho no lucro de trabalhadores mais baratos e menos pressão de sindicatos trabalhistas. Trump conseguiu emergir desse mar de lama limpinho. Um fenômeno do Duda ou do João de lá.
Esse eleitor médio dos Estados Unidos, mesmo que com anseios xenófobos, imperialistas, de reencontrar o “sonho americano” sem estrangeiros por perto, também tem anseios de pagar suas contas, de viver bem, de encontrar um salvador da pátria que resolva os problemas dele com um mínimo de intervenção dele, eleitor, cansado e tragado pela crise econômica por que passa, o medo da morte violenta de atentados ou por violência urbana, e da crise existencial por que todos passamos em algum momento da vida, com maior ou menor intensidade.
A dor te deixa vulnerável. Havia dor no coração do médio americano. Presas fáceis para populistas e soluções milagrosas.
Alguma semelhança entre o Brasil de campanhas mentirosas recentes e os EUA que elegeram Trump?

Nós, aqui, sabemos no que deu. Não há almoço grátis. Mesmo que algumas transformações sociais válidas tenham ocorrido, como Donald Trump também fará acontecer, elas não se mostraram sustentáveis porque eram pra tirar a dor, não curar a infecção. Populistas não olham para o futuro. Fato é que no caso brasileiro, o avanço voltou a ser retrocesso para muitos. E tudo a um custo socioeconômico altíssimo, com dívida pública aumentada, desemprego mais alto e perda da esperança diante de escândalos. Além de um Estado invadido por militantes da ideologia do tudo pelo poder, mimados individualistas que querem resolver seus problemas em detrimento de seja lá quem for.
Se eu tinha alguma simpatia por Hillary? Mesmo com ressalvas, sim, eu tinha.
Já disse em outro artigo que tenho pavor de populistas porque eles mentem e prometem absurdos com suas mentiras.
Hillary, apesar das ressalvas, se distanciava disso. Trump, não. Nem fez questão.

Fato é que o episódio da eleição de Trump, o que o rodeia, a forma como se deu, tem a capacidade de dizer aos jornalistas e acadêmicos algo basilar e dito por bons professores nas respectivas escolas há muito tempo:
Não se faz jornalismo nem ciência social pra si ou para seus colegas. Faz-se para a sociedade.
Ela vai sempre se fazer ser ouvida.

É a democracia.

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