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Do Sucesso a depressão

Do Sucesso a depressão

Jorge De Lima - Iscas Olhos&Alma -

pitbull ataque

 

Do Sucesso a depressão

Estes dias fui instigado por uma série de artigos e comentários que infelizmente acabei lendo nas redes sociais sobre a morte do ator norte americano Robin Williams que sofreu de depressão por mais de 10 anos se tratando sem êxito. No ar um vazio e a dúvida: Por que?

 

Mas ele não foi o único: O comediante John Belushi; o cantor do Nirvana Kurt Cobain; O Ator australiano Heath Ledger; a dupla Champignon e Chorão; o humorista Hermes, só para citar alguns de uma lista imensa. O que passa?

 

Um dos comentários mais comuns que vi nestes últimos dias é um bem típico de quem não sabe nada sobre depressão. Mas ele era rico, tinha tudo, podia sair com quem quisesse, era famoso.

Nestes mais de 20 anos de prática profissional como analista e psicólogo clínico atendi muita gente de sucesso e dinheiro com depressão: atores, cantores, empresários. Uma doença não escolhe quem vai atacar. Uma boa parte das pessoas não sabe que dinheiro, poder e solidão andam juntos.

Muita gente que tem sucesso não tem direito a levar uma vida comum. Não tem sossego pra comer um lanche em um shopping center, e ou sair com o filho em um parquinho. A fama tem um alto preço. Muitos para manter o sucesso vivenciam uma profunda despersonalização virando um papel, uma representação, um joguete das rodas sociais e das revistas de fofoca.

Muitos tem uma profunda perda de identidade que deteriora, sonhando com a vida comum, mas permanecendo presos pelo poder ao que foi conquistado.

 

Muitas pessoas não sabem que os pacientes com depressão são pessoas com alma sensível, mais observadoras, críticas da existência. O outro lado da melancolia descrita na filosofia por Hipócrates e por Sócrates mostra existir consciência porém com o rompimento da alegria, o ser que fica desanimado, sem vontade. Na antiguidade isto já fazia parte das observações que hoje boa parte das pessoas não percebe.

 

Hoje na estrutura social que vivemos na qual sofremos uma intensa despersonalização, na qual existe o rompimento notório da identidade, em uma estrutura na qual pessoas se transformam diariamente em objetos descartáveis, em uma sociedade violenta, competitiva, na qual a religião virou apenas negócio, não é de se estranhar que exista uma enxurrada de casos de depressão que atinge todas as classes, credo,  todos os níveis de formação intelectual, todas as raças.  A depressão nada mais é que o retrato claro da perda da humanidade, da ruptura com a essência, da nulidade da vontade. Uma boa parte das pessoas já não sabe mais quem é, e qual foi um dia o sonho de sua vida. Alienação e banalidade que para uma alma sensível mata. Poderia ficar semanas escrevendo sobre os vários fatores da depressão.

 

Mas o que me incomoda é ver o sadismo coletivo que rotula, diagnostica, e por fim traça o perfil de um desconhecido por e para uma doença que hoje tem ar de instituição, é o grande carimbo. O fruto disto é o patrulhamento ideológico, o isolamento, o preconceito que surge pelos profissionais de saúde se alastrando por toda sociedade. Por isto relatos de pacientes se tratando há mais de 10 anos sem melhora. Quem se importa?

Uma doença que tem cura, levada por profissionais, por boa parte da sociedade, pela indústria que lucra, com superficialidade. Não foi um ator que morreu, foi mais um de nós que me faz pensar e refletir: até quando vamos tratar deste assunto com banalidade?

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