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De manifestações, preconceito e história real

Adalberto Piotto - Olhar Brasileiro -

Incomodam-me certas análises que promovem o separatismo quando se olha para o público das manifestações. Quando não mal-intencionadas, pelas quais – as análises e também seus autores – só tenho desprezo, há um certo grau de preconceito e desinformação nas outras que, mesmo bem-intencionadas, alimentam equívocos.

O curto deste tipo de análise é sublinhar e enfatizar frases, termos e expressões, vou usar aspas, como as clássicas “só a classe média foi às ruas”. Ou que “o povão” não se arrimentou para marcar presença.

Com a experiência de ter estado nas três deste ano na avenida Paulista e também nas de 2013, tento por um pouco de luz nessas avaliações equivocadas.

Aos termos, primeiramente. “Povão” ou “real povo brasileiro”, como expressões para definir os brasileiros “reais”, são expressões que incorrem em preconceito ou segregação na atitude e ignorância acerca de nossa história.

Chama a atenção que venham justamente de pessoas sem o desejo de alimentar o preconceito, penso.

Todo mundo, nascido ou naturalizado aqui, é brasileiro e faz parte do real povo brasileiro, com ou sem aumentativo. O que pretendem com o uso discriminatório dessas expressões? Dizer que brasileiros “reais” são somente os da cor negra, índios, pardos e pobres de qualquer cor?

E os outros são o quê?

Por que não se entender parte do todo ao lado de todos?

Não é preconceito segregar-se ou segregar os outros dependendo do gosto da análise?

Se nesta Ilha de Vera Cruz já estavam os índios em 1500, nela depois se juntaram os brancos portugueses conquistadores, os negros africanos e escravos trazidos à força – no triste e lamentável episódio de exploração humana que requer reparações. A partir do fim século 19, chega uma nova leva de europeus e asiáticos e, mais recentemente, latinoamericanos de outras regiões do continente. Todos esses são brasileiros. O Brasil é isso. Tudo isso.

Qualquer cidadão deste país parecido com um desses é um legítimo brasileiro e tem legitimidade, porque tem obrigações também, de se manifestar. Não vou aqui perder tempo com os que usam da tese do separatismo para justificar suas inescrupulosas intenções. Por estes, insisto, não dedico mais que desprezo e cuidado com o perigo que representam. Refiro-me aos bons que se deixam levar por teses equivocadas, que ignoram o longo e rico processo de formação do povo brasileiro.

Sei bem que, mesmo compreendendo meu ponto de vista, haverá alguém de insistir que a maioria que tem comparecido às manifestações faz parte dos brasileiros descendentes de europeus e asiáticos, esse grupo que é definido com essa bobagem de “elite branca”, um qualificador que pode ser tudo, menos inteligente ou bem-intencionado.

Pergunto:

O fato de alguém fazer parte de extrato socioconomicamente elevado tira desse alguém o direito de se manifestar? Porque não tira, nem deveria, os deveres.

Um segundo ponto acerca desse grupo, também legítimo.

Não é fantástico que a classe média, antes de 2013, criticada por não se envolver com o país, esteja nos últimos anos se envolvendo de fato e dando a cara pra bater em manifestações pacíficas num domingo, dia de descanso, e indo às ruas espontaneamente? Espontânea e democraticamente, sem “incentivos” de sindicatos pelegos ou falsas organizações sociais?

Não se reclamava disso, da ausência da classe media na vida do país, de forma insistente nas aulas de história desde os anos 60?

E reclamar que há menos brasileiros do meio pra baixo da pirâmide socioecômica nas manifestações é algo que precisa de reparos urgentes.

Os brasileiros mais desassistidos reclamam diariamente nos telejornais, aparecem diariamente na ruas dando a cara pra bater para reclamar de seus sofrimentos, diante de um país que lhes provê menos ainda.

Quantos, dos que reclamam sua ausência nas manifestações, se sensibilizam com o parto diário que é a vida deles? Quantos se comovem de fato? Quantos se mexem e vão nas manifestações diárias deles? É preciso que estejam nas manifestações de domingo também?

E é injusto dizer que não vão. Se minorias ou não, sempre estiveram lá. Eu vi. Eu vivi as manifestações todas. E presença ou ausência de alguém é questão de calo. Cada um sabe onde dói o seu. É preciso entender por que esse ou aquele não foi. Preconceituar, generalizar e rotular podem se tornar em argumento lesa-bom senso.

E a maioria de mais de 90% de nós brasileiros temos nos manifestado diariamente contra o governo ou governos, o governante ou governantes, que nos atrasam o sonho de fazer um país melhor.

Se não no palco das manifestações, nas redes sociais, nas rodas, nas letras de músicas, dos raps, em especial, nos grafites, na queda da esperança, na reclamação contra a inflação e nos protestos desesperados em frente às portas dos hospitais que diagnosticam crianças com “viroses” em casos de apendicites letais.

Não bastasse nos vermos nessas manifestações cotidianas e profundas, pouco notadas pelos analistas da superfície, ainda estamos todos no dia a dia dos protestos de cada um de nós.

Volto, no entanto, à crítica acerca do “público” das manifestações. Cada brasileiro, independentemente da clase socioecnômica, que foi à manifestação, o fez por si, pelos outros e pelo Brasil. Quem pode fazer mais, deve fazer mais.

De onde você acha que sairá a redistribuição de renda e de oportunidades sustentável, duradoura, séria e justa?

Os brasileiros, em sua imensa maioria, tenho convicção, independentemente da origem e de suas dores para chegarem até aqui, estão juntos nesta longa luta pela decência, pela justiça judiciária que pune culpados e pela justiça social que promove o bem-estar.

O Brasil e os brasileiros são em maior número e mais complexos do que se imagina.

E isso é sinal de avanço.

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