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Adalberto Piotto - Olhar Brasileiro -

Sabe o primeiro erro que comete a maioria dos correspondentes estrangeiros no Brasil?

É tentar medir a temperatura social pelo bucólico ou pelo estereótipo nacional. Muitos desses repórteres não se envolvem de fato nem se informam nos lugares, com grupos e pessoas que decidem a realidade brasileira.

Uma foto e uma reportagem com personagens locais na Amazônia, só isso, não dão ao repórter a mínima condição de falar sobre política ambiental. Mas escrevem sobre a degradação da mata com pretensa propriedade.

Essa discussão, esses atores estão em Brasília depois das 6 da tarde, quando, fora do escritório, falam a verdade. Estão na indústria que lida com insumos da floresta no restante do país as mentes que decidem o desmatamento ou a preservação.

É tolo, preguiçoso e ingênuo o repórter posar na floresta para uma fotografia, ao lado de um índio ou um ribeirinho, e tentar convencer seu espectador que retratou alguma realidade da questão socioambiental.

Isso é turismo, não jornalismo.

O mesmo acontece com a cobertura sobre o drama brasileiro, a crise e a ebulição sociopolítica de agora.

Reproduzem nas suas reportagens as expressões “elite”, “país dividido” e “manifestações contra tudo o que está aí” sem explicar muito de nada.

Não vão ouvir  em profusão quem está no olho do furacão brasileiro, seja um líder de grupo na Paulista, seja o cidadão comum de classe baixa, média ou alta que resolveu se expor diariamente ao dizer que suas esperanças no país estão comprometidas cada vez mais. Suas vidas, seus negócios pequenos ou grandes.

Um exemplo é a discussão do câmbio. Salvo quando um economista fala, se resume ao pobre argumento de a “elite que viu sua viagem a Miami ficar mais cara” ou “seu produto importado subir de preço”.

Tenha dó! O dólar alto mata o microempreendedor da loja de produtos baratos, no centrão ou na periferia, muito mais rápido que outro empreendedor. De que elite socioeconômica estamos falando?

E qual o problema de existir elite no Brasil? Elites intelectuais, empreendedoras, sociais, de movimentos sociais, de ativismo religioso, humanitária, educacional, etc. Elite só faz bem no exterior? Elite é, antes de tudo, uma parcela que se destaca.

Portanto, se algo na economia atrapalha o grande negócio ou o empreendedor de sucesso que lida com importação, a crítica é rasa e não se olha para outras consequências como a perda de empregos e de impostos que o negócio declinante deixa de gerar. O assunto ganha, não raro, resenhas desinformadas com aquele preconceito de séculos atrás quando a “Coroa” – e seus coroados correspondentes do primeiro mundo hoje em dia – decidia o que a colônia e os colonizados podiam ter ou reclamar.

O dólar descontrolado, só pra ficar neste exemplo, encarece a gasolina do carrão tanto quanto o diesel do busão. E o asfalto que cobriria ruas lamacentas da periferia e  estradas dos rincões brasileiros, um derivado também de petróleo. Convenhamos que não é difícil compreender isso.

O Brasil experimentou uma ascensão social desde o Plano Real com a estabilidade da moeda. É lá que começou o sucesso econômico brasileiro e que ganhou continuidade histórica no governo seguinte, o de Lula, e que o atual governo está pondo a perder.

É esse o verbo que precisa ser mais bem compreendido. Perder.

Nós, os brasileiros, não queremos mais perder a estabilidade, a moeda forte, a ascensão social de todos os níveis, os carros que compramos, as passagens que adquirimos, a esperança no futuro, o orgulho nacional que está, novamente, sendo açodado por falsos heróis que, diferente dos mocinhos, ficam ricos com estatais, sindicatos e toda sorte de corrupção milionária.

Os brasileiros consumiram e melhoraram de vida econômica, embora careçam de cultura e educação. Mas muitos deixaram de ser aqueles estereótipos de pobreza que tanto fascinam os “intelectuais” da esquerda falsa e facilitavam a cobertura do repórter estrangeiro que vinha com o texto pronto sobre “o gigante adormecido”.

As caras e bocas brasileiras são em maior número e mais difíceis de serem retratadas. É preciso humildade e muita observação para compreender tudo o que fala “português do Brasil” por aqui.

E o mais sintomático: a classe média, nova ou antiga, decidiu assumir o país e se expor, ir pra rua, desde 2013.

Considerar isso um momento passageiro apenas representa sério risco de cair num erro grosseiro de análise sobre a evolução sociológica de um povo.

Evoluímos de um país diverso para uma sociedade complexa, demandante, vilã e vítima do Estado e de si mesma. Daí as carências que ainda persistem, bem menores que antes, mas hoje discutidas, abertas e não omitidas jamais.

Isso tudo deu um nó cego nas resenhas e nos resenhistas simplistas que escrevem nas trevas da preguiça e do conceito de outrora.

Pra se entender um país é preciso mais que frequentar os escritórios ou gabinete. Muito mais que falar com personalidades do morro ou da praia.

Pra se entender o Brasil é preciso por os pés na rua e sentir o asfalto quente.

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