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Fernando Lopes - Iscas Politicrônicas -

                        Em que mundo estamos, meu Deus? Até onde chegarão as patrulhas do politicamente correto? Aonde vai essa mania de encontrar “crimes gravíssimos” onde não há nada demais? Não sei quem ganha com isso, mas sei muito bem quem perde: Todo mundo. Chega desse coitadismo jeca, querendo proteger não-sei-quem de não-sei-quê a cada detalhe mínimo da vida. Chega dessa robotização nos costumes que nos empurra, mais e mais, para a idiotia total, para a histeria sem freios.

                        Atenção à foto acima: Para o movimento Negro É, não só é a foto de um criminoso, como é o exato momento do flagrante de delito de racismo, cometido pelo próprio, exaurido e comprovado.

                        Não, não é brincadeira. Não minha, pelo menos.

                       Essa imagem ilustra o cartaz de divulgação da peça “Satã – Um show para Madame”, espetáculo teatral ficto-biográfico revivendo as estripulias do icônico carioca Madame Satã (1900-1976), tido como o primeiro travesti, assumidérrimo, a fazer sucesso nas casas noturnas brasileiras nas décadas de 30 e 40. Pois, segundo o movimento Negro É, o ator/produtor retratado acima, Leandro Melo, é um criminoso contumaz; teve a audácia, o desplante, o desrespeito de ser um ator branco atuando no papel de um personagem histórico negro. E tem mais: com requintes de crueldade, Leandro “ousa” aparecer maquiado na foto, com o rosto metade vermelho e metade preto.

                       Difícil de entender? Pois é. Como advogado, sempre estranhei crimes que precisam ser “explicados” para causar revolta. Se é crime, é automaticamente tão aviltante, tão repulsivo, que dispensa apresentações ao respeitável público. Crime não é atração de circo. Enfim, o mencionado movimento “explica” qual o “crime” de Leandro: Racismo. Sim, nessa visão espantosa, Leandro é um criminoso, um racista. Vejamos a nota explicativa, a bula inquisitória emitida pelo tal grupo, na acusação contra o réu, devidamente condenado de antemão, adiantado no tempo e no espaço: “Não está fácil, se apropriam da história de um homem negro, usam blackface e querem nos ensinar sobre racismo”,

                       Primeiro: Leandro nunca pretendeu se apresentar de rosto pintado de negro. Foi apenas uma situação pictórica para destacar a imagem; tanto que metade de seu rosto era vermelho, obviamente remetendo à dualidade do nome artístico adotado pela personagem central, cujo nome verdadeiro era João Francisco dos Santos.

                       Segundo: Nunca se soube que um ator branco viver um personagem negro fosse racismo. Novidade total.

                       Terceiro: É bom lembrar aos incautos que acusar outrem, pura e simplesmente, de ser racista, portanto imputando-lhe ação delitiva, é calúnia – e isso sim é crime. Deu pra entender? Não é dado a ninguém julgar o próximo, atividade exclusiva do judiciário.

                       Quarto: O inventivo movimento deveria, na verdade, elogiar Leandro por enaltecer e tornar mais conhecida a figura polêmica de Madame Satã que, vivo estivesse, certamente debocharia dessa atitude absolutamente desnecessária, que fomenta justamente o contrário da causa que alega defender.

                       Quinto: O contrário pode? Otelo, o Mouro de Veneza, de Shakespeare, sempre é encenado com um negro como protagonista – mas que originalmente seria um árabe. E o que dizer da conhecida comédia As Branquelas, que semana sim, semana não, passa nas TVs aberta ou fechada? Nela, dois atores negros, totalmente maquiados, se fazem passar por duas jovens brancas, loiras, fúteis, abobalhadas, inúteis. Nunca, ninguém classificou isso como racismo – ainda bem, pois seria ridículo.

                        Sexto e último: Racismo é crime e deve ser combatido a todo tempo, a qualquer custo; mas não significa que por baixo de cada pedra há um racista vampirizando os pobres seres humanos de todas as cores. Muito menos num simples cartaz como esse. Racismo denota intenção; não pode ser travestido de armadilha para abocanhar qualquer desavisado por uma interpretação extremamente imaginativa.

                       Não será a primeira nem a última vez que esse naipe de exagero ocorre; é, infelizmente, comum que se enxergue um crime grave onde não há nada. Já tratei do assunto aqui, a respeito da campanha de uma conhecida marca de uísque: http://www.portalcafebrasil.com.br/iscas-intelectuais/consciencia-branca/

                       A piada é velha (uns garantem sua veracidade); um aluno de Sigmund Freud lhe pergunta se os muitos charutos fumados avidamente pelo famoso professor de psicanálise não seriam o tal símbolo fálico do qual sempre falava. Freud retrucou que, na imensa maioria das vezes, um charuto é apenas um charuto.

                       O politicamente correto está nos tornando insanos. Não se enxerga mais que um cartaz é apenas um cartaz?

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