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Confluência criativa

Confluência criativa

Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

Confluência criativa

 Coincidência ou serendipidade?

 “Um homem inteligente é capaz de construir um mundo;

mas só o criativo é capaz de transformá-lo.”

Elson A. Teixeira

 

Minha vida foi marcada por uma série de coincidências nos primeiros dias de fevereiro que acabaram favorecendo a disseminação da criatividade e, mais especificamente, da economia criativa.

A primeira oportunidade, até certo ponto inesperada, ocorreu no dia 4, quando participei de um café da manhã promovido pela Right Management, uma das principais empresas de recursos humanos do País especializada em gestão de carreiras e talentos. Fui convidado para apresentar uma visão sobre  as perspectivas e oportunidades da economia brasileira para um público constituído de gerentes e analistas de RH de clientes da empresa, tendo como moderador o economista André Rapoport, diretor da Right Management e eleito no ano passado o profissional do ano do setor. Concluída minha exposição, seguiu-se uma fase de perguntas da plateia e, numa delas, mencionei o segmento da economia criativa como um dos mais promissores na conjuntura difícil que deverá caracterizar a nossa economia ao longo deste ano.  Foi o suficiente para que diversas perguntas surgissem a respeito da economia criativa, o que me permitiu falar um pouco sobre o seu significado e sua abrangência.

A segunda oportunidade decorreu da eficiência da Livraria da Vila que me conseguiu um exemplar de um livro que aparecia como esgotado no site da própria editora. Eu havia tomado conhecimento do mesmo ao visitar o site da Criabrasilis a fim de me orientar a respeito do seu boletim eletrônico, para o qual me pediram um artigo. Tendo sido avisado de sua chegada, peguei-o a tempo de começar a devorá-lo durante o voo para Belo Horizonte, para onde viajei para falar sobre economia criativa na cerimônia de posse do presidente do Corecon-MG.

De autoria de Angela Virgolim, o livro chama-se Cabrum!! Chuva de ideias! Recomendado a pais e professores para o ensino de criatividade para crianças, consegue, em minha opinião, ir muito além do que se propõe, uma vez que sua primeira parte constitui-se num excelente manual introdutório sobre o tema criatividade e muitas das atividades práticas contidas na segunda parte podem perfeitamente ser utilizadas com estudantes universitários.

A terceira oportunidade, naturalmente, veio com a solenidade de posse do presidente do Corecon de Minas Gerais, Antônio de Pádua Ubirajara e Silva e dos conselheiros eleitos para o triênio 2015-2017. Além de ter despertado o interesse dos presentes, tive a chance de conhecer alguns bons exemplos de experiências estaduais de atividades e de cidades criativas, com destaque para o relato do ex-prefeito da cidade de Corinto, que declarou ter conseguido elevar consideravelmente a receita do município, utilizando recursos da economia criativa para atrair visitantes, notadamente em feriados e datas especiais.

A quarta oportunidade foi proporcionada pela Profª Sumara Regina Ancona Lopes, que tem feito um trabalho incansável para estimular a criatividade no SENAI (Serviço Nacional da Indústria). Ela compartilhou 22 características de pessoas criativas levantadas pelo site Just Something para tentar entender o que as fazem tão especiais… ou pelo menos diferentes. Se você quer ser um pouco mais criativo, ou atiçar seu raciocínio, talvez seja uma boa seguir essa lista.

1. Pessoas criativas se inspiram nas horas mais improváveis – A verdade é que ninguém sabe quando a próxima grande ideia vai chegar. Isso também serve para os criativos, mas eles sabem que uma hora a ideia chega. Sem mais nem menos, ela chega.

2. Eles sonham acordados – Os criativos podem estra onde quiserem a qualquer momento. Calma, não estou falando de teletransporte. Eles simplesmente se perdem em suas próprias imaginações… e o pior, isso pode acontecer enquanto conversam com você. Faz parte.

3. Eles ficam entediados facilmente – É impressionante como essas pessoas precisam de estímulos quase que constantes para se manterem ativas e alertas. É muito difícil que consigam prestar atenção em algo que não estão interessados. Déficit de atenção ou não, isso faz parte dos criativos.

4. Eles enxergam o mundo com os olhos de uma criança – Uma parte deles nunca amadurece e isso talvez seja o real segredo para a criatividade. Eles observam o mundo com os olhos de uma criança.

5. Eles vão falhar… assim como vão tentar novamente depois – Criatividade não significa que você está imune a falhas e erros. Assim como as outras pessoas, os criativos também sofrem derrotas na vida… mas o grande segredo é que eles não param em qualquer rejeição. Eles levantam e tentam de novo.

6. Eles escutam que devem arrumar um trabalho de verdade – Muitos criativos não se animam com trabalhos convencionais. Eles querem algo novo, diferente, desafiador… e isso pode ser motivo para sempre ouvir que devem procurar um trabalho de verdade. Meh.

7. Eles seguem seus corações – Há quem diga que as pessoas criativas têm uma tendência de assumir mais riscos e não se preocupar com problemas. Isso pode trazer inúmeros desafios, mas também muito mais satisfação.

8. Eles se perdem no tempo – Não há nada mais prazeroso para os criativos do que criar algo que realmente importe para eles. Isso pode fazer com que esqueçam de comer, beber e até dormir. Quando as ideias fluem, nada mais importa.

9. Eles trabalham quando os outros estão dormindo… e dormem quando os outros estão trabalhando – Os horários convencionais não se encaixam na agenda dos criativos. Eles fazem as coisas quando é melhor para eles.

10. Eles enxergam oportunidades onde os outros veem dificuldades – A maioria dos criativos sabe que o copo está meio cheio.

11. Eles se apaixonam por suas criações em um dia e no outro as odeiam como nunca antes – Isso é um mistério, mas há algo que deixa os criativos inconstantes sobre seus trabalhos.

12. Eles odeiam suas criações em um dia e no outro estão completamente apaixonados por elas – Assim com o #11. Uma loucura.

13. Eles são humildes e orgulhosos ao mesmo tempo – Pessoas criativas sempre estão dispostas a aprender, mas são extremamente orgulhosas quando se trata de suas ideias.

14. Eles estão sempre à procura de novas formas de se expressar – A busca por novidades nunca para, Qualquer que seja o criativo, ele sempre vai procurar (e encontrar) novas formas de expressar o que pensa e sente.

15. Eles procrastinam – Eles vão cumprir horários e entregas, mas é provável que tudo fique para o dia anterior. Ou para as últimas horas.

16. Eles veem o outro lado da moeda – Os criativos sempre observam situações de diferentes pontos de vista.

17. Eles não gostam de limites – Regras e limites, definitivamente, não foram feitos para criativos. É por isso que algumas vezes eles são vistos como rebeldes.

18. Eles não costumam gostar de números – Tente obrigar pessoas criativas a estudar matemática e veja como elas odeiam números.

19. Eles são grandes observadores – Qualquer coisa pode servir de inspiração para os criativos, por isso estão sempre observando pessoas e situações. Até os mínimos detalhes.

20. Eles estão sempre buscando novas experiências – Fugir da rotina é uma ótima maneira de se manterem motivados. Lembra do #3?

21. Eles recomeçam tudo de novo – O recomeço não é um medo de pessoas criativas. Se algo não está bom, recomeçar tudo de novo de um jeito melhor não é um problema.

22. Eles amam – Eles amam a vida, as pessoas, os animais, a natureza… eles amam tudo que é belo e puro. O amor dos criativos pela vida é contagiante e realmente pode transformar relacionamentos. Fique próximo de pessoas criativas, elas vão fazer sua vida um pouco mais interessante.

Tendo acabado de ler o livro de Angela Virgolim, foi inevitável a associação dessas 22 características com o Modelo de Estrutura do Intelecto (SOI) de J. P. Guildford que destaca oito habilidades de uma pessoa criativa: fluência, flexibilidade, originalidade, elaboração, sensibilidade a problemas, complexidade, redefinição e avaliação. Como observa Virgolim, “estas habilidades foram categorizadas como pensamento divergente, o qual envolve a capacidade de inventar novas respostas, em oposição ao pensamento convergente, que focaliza a habilidade de reproduzir o conteúdo aprendido com uma única resposta certa”. Inevitável também foi a associação com os papeis que devem ser desempenhados por uma pessoa criativa magistralmente apresentados por Roger von Oech em Um chute na rotina: explorador, artista, juiz e guerreiro.

                                                          Cabrum!!                                          Um chute na rotina

A quinta oportunidade, por fim, surgiu na FAAP e foi proporcionada por um aluno do curso de Relações Internacionais, Giuliano Guidi Braga, que me apresentou uma proposta de atividade extracurricular baseada na economia criativa que deverá atrair o interesse de estudantes de diversos cursos em função de seu conteúdo transdisciplinar.

Tantas ocorrências podem ser mais do que simples coincidência, aproximando-se de um conceito que ainda não é muito conhecido, mas que é extremamente interessante: o da serendipidade. Também conhecido como serendipismo, é considerada nos dias de hoje como uma forma especial de criatividade, ou uma das muitas técnicas de desenvolvimento do potencial criativo de uma pessoa adulta, aliando perseverança, inteligência e senso de observação.

A serendipidade é definida pelo New Oxford Dictionary of English como “a ocorrência e o desenvolvimento de eventos, por acaso, de forma satisfatória ou benéfica, entendendo o acaso como qualquer evento que acontece na ausência de qualquer projeto óbvio (aleatoriamente ou acidentalmente), que não é relevante para qualquer necessidade presente, ou no qual a causa é desconhecida”.

Há inúmeros e significativos registros de inovações que podem ser explicados pela  serendipidade e muitas delas apresentam uma característica comum relevante: foram feitas por indivíduos capazes de ver pontes onde outros viam buracos e ligar eventos de modo criativo com base na percepção de um vínculo significativo.

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências e indicações bibliográficas  

FLORIDA, Richard. A ascensão da classe criativa. Tradução de Ana Luiza Lopes. São Paulo: LP&M, 2011.

_______________ O grande recomeço: as mudanças no estilo de vida e de trabalho que podem levar à prosperidade pós-crise. Tradução de Maria Lucia de Oliveira. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

GOLDENSTEIN, Lídia. O desafio da economia criativa. Digesto Econômico LXV: 458, maio de 2010.

GUILFORD, J. P. Three faces of intellect. Em W. B. Barbe & J. S. Renzulli (Eds.). Psychology and education of the gifted. New York: Irvington, 1975, pp. 75-90.

HOWKINS, John. A economia criativa: como ganhar dinheiro com ideias criativas. Tradução de Ariovaldo Griesi. São Paulo: M. Books do Brasil Editora Ltda., 2013.

OECH, Roger von. Um chute na rotina. Tradução de Cecília Prada. São Paulo: Cultura, 1994.

REIS, Ana Carla Fonseca. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável: o caleidoscópio da cultura. Barueri, SP: Manole, 2007.

TEIXEIRA, Elson A. Criatividade: ousadia e competência. São Paulo: Makron Books, 2002.

UNITED Nations. Creative Economy: A Feasible Development Option. Creative Economy Report 2010. Geneva/New York: UNCTAD/UNDP, 2010.

VIRGOLIM, Angela M. R. Cabrum!! Chuva de ideias!: desenvolvendo a criatividade das crianças. Ilustração de Leninha Lacerda. Curitiba: Juruá, 2014.

WECHSLER, Solange M. Criatividade: Descobrindo e encorajando. Contribuições teóricas e práticas para as mais diversas áreas. Campinas, SP: Editorial Psy, 1993.

Referências e indicações webgráficas

22 things creative people do differently than the rest. If you’re creative, you will understand… Disponível em http://justsomething.co/22-things-creative-people-do-differently-than-the-rest/.

MACHADO, Luiz Alberto. Economia criativa: definições, impactos e desafios. Revista de Economia & Relações Internacionais, nº 21, julho de 2012, pp. 84-109. Disponível em http://www.faap.br/faculdades/economia/ciencias_economicas/pdf/REVISTA_ECONOMIA_21.pdf.

 

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