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Tudo começou com Charles Cunningham Boycott, militar inglês que, aposentado, foi tentar a vida como representante de um rico proprietário de terras na Irlanda, em 1872. As coisas iam bem, até que um dia os camponeses locais foram até ele reclamar do alto valor cobrado pelo arrendamento das terras; eram tempos difíceis, e os agricultores não estavam conseguindo pagar o preço combinado.

Charles, exatamente como um certo juiz federal há uns dias, disse aos camponeses que “não estava nem aí” e manteria os valores inalterados. Pior: quem não pagasse perderia o arrendamento e devolveria as terras ao proprietário que ele representava, Lorde Erne. Em resposta, os agricultores, revoltados com a insensibilidade de Charles, uniram-se contra ele em 1880, liderando uma retirada em massa dos trabalhadores que garantiam a colheita e demais cuidados na conservação dos bens de Erne. A intenção era proteger os pobres irlandeses da exploração, assegurando um aluguel justo sobre as terras, bem como o direito à venda livre – Charles e seu patrão impediam a prática do livre mercado, obrigando os camponeses a vender seus produtos a eles, e somente eles.

Furioso, Charles Boycott tentou impedir a campanha, e os camponeses, em resposta, passaram a isolá-lo na comunidade local; ninguém falava com ele nas ruas ou na igreja, ninguém o servia no comércio. Todos os ignoravam. O caso ficou famoso e os jornais da Europa passaram a acompanhar o caso. Acuado, Charles deixou a Irlanda em no final do mesmo ano. Seu sobrenome legou à língua inglesa o verbo to boycott, que significa “colocar em esquecimento, ou em ostracismo”, sem violência. Daí veio o nosso “boicote” e seu verbo correspondente.

Só que aqui andam exagerando na conjugação. O boicote, ou mesmo agressão a artistas em geral, em razão de suas atitudes político-partidárias, virou bagunça. Tanto por parte dos “boicotantes” quanto dos “boicotados”.

Em 2002, a atriz Regina Duarte declarou em alto e bom som seu medo de Lula, como cidadã. Não obstante estar certa, agindo e falando como eleitora, foi não apenas boicotada como agredida, xingada, ameaçada e enxovalhada pelos lulistas e seus fanáticos seguidores. Nunca pediram desculpas a ela, e justificaram as agressões com os clichês de sempre. Pois é.

Lobão, cantor/compositor/escritor, é sui generis, pois sofreu boicote (e coisas piores) dos lados: Em 1989 foi boicotado até pela Rede Globo por apoiar Lula entusiasticamente no Domingão do Faustão, ao vivo; Roberto Marinho ficou furioso. Depois, Lobão mudou de lado e passou a demonstrar, com argumentos imbatíveis, como ele e tantos outros milhões haviam sido iludidos pela lavagem cerebral lulista. Mais lavagem que cerebral. Aí ficou feio; lulista acha que “boicote” é jogar ovos, agredir, xingar, ameaçar, esquartejar, matar a família do inimigo. São as Suzane Richtofen da pseudopolítica fanático-messiânica, mas adoram pregar discursinho de tolerância. Aham. Sei. Resultado: Ameaçam e pregam a morte de Lobão diariamente.

Mas o boicote, como pensado no nascedouro, sem violência, é válido sim para qualquer político, empresa ou artista, embora esta última classe se ache acima do bem e do mal (exatamente como os lulistas e seu demiurgo), principalmente se for de esquerda – algo que abrange uns 70% deles. O problema é que muitos cantores, compositores, atores, cineastas e demais lulistas do ramo se acham injustiçadíssimos por serem boicotados pelo público em geral. Errado, senhores. Quando usaram não só a cidadania e a liberdade, mas também sua fama e dinheiro (muitas vezes público) para alçar seu candidato analfabeto e a “presidenta” ensacadora de vento à condição de super heróis divinos, convencendo incautos a votar nessa gente, a terceira lei de Newton garantiu a vocês o retorno não só imaginado, mas também esperado. Não adianta chiar.

Os muitos que, em shows lotados, pediram votos ao lulismo, vendendo a seita como o paraíso, deram a cara pra bater. Agora aguentem. Não fizeram isso como eleitores, mas como figuras públicas. Alguns já perceberam o quanto isso é errado – ou desonesto, para dizer o mínimo, e se fingem de desentendidos, saindo de fininho. Menos mal.

Defender este ou aquele candidato é normal. Mas louvá-los como semideuses não dá. Pior ainda é insistir, mesmo provadas e comprovadas todas as falcatruas do ídolo de pés de barro e boca de cachaça. Aí não é escolha, é fanatismo mesmo. Portanto, não reclamem da inevitável reação popular e do boicote. Mesmo no tapete vermelho da chiquérrima Cannes, Soninha querida.

Aos mais chorosos cabe fugir do país, como fez Boycott. Cuba, Venezuela e Coreia do Norte não deixam de ser opções. Afinal, sejam coerentes com seus conselhos e esqueçam o dinheiro e o fugidio sucesso. Vivam de ideologia, camaradas, e peçam demissão da Rede Globo e demais empresas imperialistas que afligem o pobre povo por pura maldade. Boicote na Irlanda dos outros é refresco, camaradas.

Vamos ver se têm a mesma coragem dos irlandeses em 1880. Truco, vagabundo.

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