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Até que a morte nos separe

Até que a morte nos separe

Jorge De Lima - Iscas Olhos&Alma -

“Promete lhe ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe, até que a morte os separe?” Bradava o sacerdote com fervor. Fato consumado: “então os declaro marido e mulher…”

A força arquetípica do casamento transcende épocas, culturas, credo, presente em todas as partes, dos povos primitivos à nossa atual civilização. Um enigma sofisticado: quem está fora quer entrar, quem está dentro, quer sair. Desde os primórdios da humanidade, o casamento é visto como situação de confronto e realização, em quase todos os mitos e histórias, luta eterna, de Adão e Eva, em nossa Bíblia, aos Vedas da cultura Hindu. Prazer e dor misturam-se na união de dois seres. No entanto, emerge na sociedade atualmente uma cisão hedônica, em que se coloca a união apenas como fonte de satisfação pessoal, o que podemos traduzir por egoísmo. A tolerância para a convivência com problemas tornou-se mínima. Outro aspecto maníaco de nossa cultura.

Um dos aspectos mais interessantes no sacramento do matrimônio é o fato de atribuirmos a Deus nosso livre arbítrio, colocando o casamento como “vontade de Deus”. De certa forma, isto torna a união entre duas pessoas mais especial, mas em contrapartida retira do indivíduo sua responsabilidade sobre suas escolhas e atos, principalmente em sistemas religiosos feudais, em que casamentos são arranjados de acordo com as vontades sacerdotais, interesses econômicos ou arranjos políticos. Infelizmente, essa situação é comum nos dias de hoje. Cito como exemplo as igrejas “neo-business-pentecostais”, em que sem o aval do sacerdote um casal de jovens não poderá jamais se relacionar. Caso o faça, incorrerá no pecado e no fogo eterno. Só pode com irmão da Igreja, se Deus deixar. Se for obediente às ordens do clero, a moça receberá pela igreja o “varão do Senhor”!

A tragédia retrata o casamento por conveniência, a isenção do indivíduo em suas escolhas, e que, “em verdade”, apenas segue ordens divinas trazidas por seus arautos. Isso mostra a confusão entre espiritualidade e regras sociais. Massificação e alienação. Mas isso não ocorre apenas no campo religioso feudal, mas em toda a sociedade, por questões econômicas, por solidão, hábito de convívio, por necessidade de ascensão social. Infelizmente, é como se o amor, a amizade  e a paixão fossem legados a um segundo plano para um casamento. É a comercialização do afeto em seu grau mais perverso, o que engendra inúmeras psicopatologias. Estudos mais recentes sobre a sexualidade no Brasil apontam que mais de 80% das mulheres casadas jamais sentiram um orgasmo. Aproximadamente 10% de homens com menos de 22 anos têm ejaculação precoce. Isto sem falar nos casos de impotência. O que percebemos é a ausência de alma na união, casamento sem paixão, sem vida, sem amor, sem fogo, algo que de verdade nunca existiu, a não ser na representação social.

Que o homem não separe o que jamais Deus uniu.

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