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Henrique Szklo -

Como a maioria dos brasileiros, fiquei consternado com a morte do jornalista Ricardo Eugênio Boechat. Não posso dizer que eu era exatamente um fã, mas como sob minha perspectiva, ele utilizou em sua carreira – explícita ou subliminarmente – toda a liturgia intrínseca ao pensamento criativo, tinha a minha admiração genuína e espontânea. E como forma de homenagem e reconhecimento, no dia de hoje cometi a ousadia de me referir a este jeito encantador de usar nossa cabeça, como pensamento boechat.

Existem jornalistas tão ou mais famosos do que Ricardo Eugênio em nosso país. Mas suspeito que nenhum deles causaria a comoção que sua morte causou no brasileiro. E se alguém me perguntar o porquê, minha resposta será: ele era diferente. E ele era boechat.

Não é fácil ser boechat

Nem todo diferente é boechat, mas todo boechat é diferente. Em nenhum dos casos a vida é fácil. O descompassado vai sempre se deparar com desafios numa proporção maior do que as pessoas que se mantém dentro de uma pretensa normalidade. Vai correr mais riscos, vai enfrentar cotidianamente demônios externos e internos, vai ser frequentador assíduo do inferno. A vantagem do autêntico boechat é que ele poderá, eventual e fugazmente, sentar ao lado de Deus. O direito ou o esquerdo, tanto faz.

A coragem de ser diferente

Ser boechat não é para qualquer um. Ser boechat é uma profissão de risco. Por isso considero todo boechat um herói que, com coragem e destemor, enfrenta diariamente um turbilhão de almas resistentes e estancadas, inconformadas com qualquer mínima mudança. Quem tem dificuldade em mudar é particularmente agressivo com aquele que teima em brincar com o senso comum, classificando-o imediatamente de inimigo número zero.

Jornalista boechat?

No jornalismo, por ser um serviço que teoricamente vive em busca da verdade, o pensamento boechat pode inadvertidamente desviar o foco da informação pragmática e descambar para a fantasia. Verdade é verdade e a boechatividade, por sua inerente natureza, poderá subverte-la e, consequentemente, desconstrui-la. Mas não é assim que a coisa funciona. Pelo menos não necessariamente.

Será que se eu quiser dar um toque boechat na minha matéria não estarei arriscando perder meu prestígio e a minha credibilidade? Vai. Então não vale a pena! Claro que vale. Eu disse que pra ser boechat é preciso coragem. Me desculpem os bananas, mas a vida sem boechatividade é apenas uma sequência modorrenta de dias rumo ao fechamento de sua matéria corporal. Sejamos práticos. Se você se satisfaz com pouco, é com pouco que você tem de viver.

Onde o Ricardo Eugênio era boechat

Ser boechat, entre outras milhares de definições, é ter a capacidade de fazer a mesma coisa que todo mundo faz de um jeito diferente, que no caso específico do jornalismo, é uma mudança de perspectiva diante de um mesmo fato. O boechat é aquele que muda a posição da câmera para observar um fenômeno que, por uma questão de conforto, todo mundo enxerga do mesmo ponto de vista. Uma palavra inesperada, uma construção diferente de texto, um olhar inusitado, uma maneira única de se expressar pode fazer toda a diferença. O público sempre vai prestar mais atenção numa notícia dada de forma boechat.

Dizem que o Ricardo Eugênio era caçador de furos, workahólic e, mais importante, tinha faro para perceber se algo era notícia ou não. Ou seja, as coisas estavam ali, escancaradas diante de todo mundo, mas ele tinha o dom de ser um dos poucos a encontrar Wally. E a capacidade de observação é um componente indispensável para o desenvolvimento de um pensamento boechat. Quem não percebe os pequenos detalhes não entende a grande fotografia.

O Ricardo Eugênio era questionador. E o questionamento interminável está na raiz profunda do pensamento boechat. O boechat é, antes de tudo, um chato. Não se conforma com nada e vive fazendo novas perguntas. O conformado prefere que as coisas continuem como sempre. O boechat quer que as coisas sejam como nunca. A familiaridade, por definição, é entorpecente e banal. Não provoca impacto. E jornalismo sem impacto é como óculos sem lentes: não fazem você enxergar as coisas de um jeito diferente, portanto, não servem para nada.

Li em algum lugar que o Ricardo Eugênio assumia para todos que não sabia nada, mesmo sobre aqueles temas que obviamente sabia muito. Este é um clássico do pensamento boechat. Na verdade, uma demonstração de sabedoria. Nunca, nunca podemos nos satisfazer ou nos conformar com o quanto sabemos sobre o assunto com o qual estivermos trabalhando. Sempre haverá novas informações, novos jeitos de enxergar, novos indutores que poderão nos levar a lugares que nem imaginávamos.

O senso de humor também é uma característica típica dos boechats. Quem não tem senso de humor jamais será um boechat de verdade. E Ricardo Eugênio, não à toa, tinha de sobra. Pegue todos os grandes boechats da história da humanidade e você sempre irá encontrar um pequeno toque que seja de humor inteligente. Aliás, desconfie de quem não tem senso de humor.

Não é pra qualquer um

Arrisco dizer que pessoas genuinamente boechats são mais queridas e admiradas, como se demonstrou com a morte do Ricardo Eugênio. Isso porque o trabalho de um boechat é dar uma sacodida em nosso cérebro, gerar reflexões, criar imagens inusitadas, estimular nossa imaginação e reverenciar nossa inteligência. Mas não é qualquer boechat que consegue isso. É preciso ter um toque de Ricardo Eugênio.

 

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