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Neste momento em que uma indigesta polarização abraça o mundo, temos ouvido as pessoas de aparente bom senso propagarem por aí que é preciso tolerar as ideias diferentes das nossas. Bravo! Não sei se elas mesmas seguem sua própria recomendação (o surto de politicamente correto também é preocupante), mas, independentemente disso, não podiam ser mais precisas. Talvez devamos mesmo contar até dez e respirarmos fundo com a intenção nobre de não deletar aquele amigo das redes sociais que afirma com convicção que a terra é no formato de um donuts.

Civilizados, porém reprimidos

O processo civilizatório tem papel fundamental em nossa evolução como espécie e sociedade. Porém, como dizem aquelas mesmas pessoas de bom senso (ou outras, tanto faz), tudo tem seus prós e seus contras. São os dois lados da moeda, dizem os apreciadores de frases feitas. Quanto mais civilizada é uma sociedade, mais oprimidas são as pessoas. O excesso e rigidez de regras patrocinam conforto e segurança para o coletivo mas são extremamente asfixiantes para o indivíduo. Como animais que jamais deixamos de ser (pelo menos até agora), somos empanturrados de desejos, vontades, apetites e sonhos. A maioria deles se manifestando à nossa total revelia. Por isso, a probabilidade de sermos contrariados em nossos anseios é inversamente proporcional à quantidade de normas regulatórias dos diversos grupos sociais dos quais fazemos parte (ou queremos fazer). A frustração, portanto, é filha bastarda da civilização.

O pensamento é grátis, mas a ação tem seu preço

O resultado dessa ópera-bufa é a sensação de que pensamos muita bobagem e que não somos exatamente aquelas pessoas de bem, iluminadas e aristocráticas que gostaríamos de ser. Ou seja, somos intolerantes com o pensamento alheio, mas, por incrível que pareça, somos também com os nossos. Talvez até mais. Em nossa defesa, como eu disse acima, a maioria dos pensamentos e desejos que se manifestam em nossa mente não são formulados por nossa consciência e intenção. São automáticos e involuntários. Portanto não faz sentido nos sentirmos culpados por eles. A culpa deve estar condicionada à ação e não ao pensamento. Até porque a ação, esta sim, é de nossa total responsabilidade. E é a distância entre o pensamento e a ação que faz de você o ser humano que você é..

Utopia com bolhas é um mal sinal

Equivocadamente, as pessoas estão aos poucos fazendo limpeza ética em suas redes sociais com o objetivo de se juntar apenas aos bons. Isso já se sabe, apenas alimenta a polarização e bota lenha na fogueira da intolerância. Como no futebol em São Paulo, os jogos têm apenas uma torcida. É o que se tem comumente chamado de bolha. Eu tento não me deixar levar por esse ódio admirável, por isso mantenho um bom número de pessoas em minhas redes sociais que vivem postando, segundo minha ótica, estultices, indignidades e barbaridades descabidas. Meu sangue ferve mas deixo que eles permaneçam em meu reino mesmo assim. A condição para este privilégio duvidoso é ter um mínimo de educação e inteligência. Mais do que ter razão, quero ter opções, visões diferentes, consciência de como as coisas são de verdade e não como eu gostaria que fossem. As bolhas sociais têm a pretensão estúpida de transformar utopia em realidade.

Bolha social x bolha criativa

Um dos princípios básicos do pensamento criativo é a capacidade de se pensar qualquer coisa, sem julgamento, sem previsão do tempo, sem premonição, ou seja, conseguir fazer a cachola funcionar sem se preocupar se a mente está suja ou limpa.

Para criar, precisamos necessariamente produzir e permitir a geração de pensamentos novos, originais, jamais imaginados. Seria sensacional que nosso cérebro recebesse estes pensamentos de braços abertos, mas acontece o oposto disso. A bolha social que construímos do lado de fora também se manifesta do lado de dentro de nossa cabeça, não aceitando nenhum pensamento que esteja além de suas fronteiras. Estes pensamentos ultrajantes merecem a morte, ou, pelo menos, o exílio permanente. E como na internet, nos fechamos e nos regozijamos de nossa sabedoria ao darmos uma lição àqueles que não entendem o óbvio que enxergamos tão claramente. Deletado!, pensamos com indisfarçável orgulho. Temos ódio e nojo dos pensamentos aos quais não concordamos. Mesmo aqueles dos quais dependemos para gerar ideias novas. A isso chamamos de bloqueio criativo.

A tolerância é um componente fundamental do processo criativo

Mais do que tolerância com os outros, precisamos ter tolerância com nós mesmos, principalmente se desejamos ser devotos da criatividade. Está mais do que provado que para ser criativo, ideias pré-concebidas não são exatamente as mais adequadas. Precisamos sair de nosso universo pessoal, de nosso mundinho aconchegante, e buscar novas visões, novas maneiras de se enxergar as mesmas coisas. Quando isso acontece, porém, a tendência de nosso cérebro é negá-las todas. Imediata e veementemente. Mas sem julgamento de valor. O simples fato de serem “diferentes” daquelas que conhecemos as transforma automaticamente em “merda”. Mas, como disse, não há julgamento de valor. É apenas uma reação mecânica e instintiva do cérebro com o objetivo de proteger nossos padrões. Mas essa barreira não é impermeável, nem poderia ser. Basta um esforço de vontade, uma decisão firme de enfrentar a resistência para que, em poucos segundos, comecemos a perceber que podemos sim pensar em qualquer coisa sem que para isso tenhamos que vender nossa alma ao diabo. Sem significar absolutamente que somos avalistas, fiéis depositários de todos os pensamentos que eventualmente tenhamos. Não precisamos concordar com os pensamentos, apenas utilizá-los como indutores de novas ideias.

Esta, inclusive, é outra perturbação que impede que as pessoas pensem livremente e sem culpa: o medo de se identificar com um pensamento vexatório, maligno, reprovável. Pavor que isso gere uma confusão em nossa autoimagem. Paradoxalmente, somos tão inseguros com relação às nossas crenças que é melhor nem passar perto de pensamentos estrangeiros para não corrermos o risco de sermos contaminados com o veneno do politicamente incorreto, ou pior, de pensamentos que, se externados, nos fariam ser imediatamente encarcerados por ofensa grave à humanidade.

É verdade, o novo assusta. Com certeza, o diferente é sempre visto pelo nosso cérebro como uma séria ameaça à nossa integridade. É por isso que precisamos de tolerância, permissão e coragem para permitir que pensamentos originais que nos assombram possam coabitar em nossa cabeça com aqueles tão bonitinhos que apreciamos tanto. Sem culpa, sem julgamento, sem fla-flu. Conseguindo exercitar este saudável encontro, você estará investindo de forma incisiva no desenvolvimento de uma mente criativa.

Tolerância criativa uber alles

Mas não precisa virar a Madre Tereza de Calcutá. Só porque você é tolerante consigo mesmo não quer dizer que precisa ser com os outros também. Do ponto de vista da criatividade, por fora você pode ser até um supremacista branco, não importa. É por dentro que o criativo se desenvolve. É claro que uma estimula e dá suporte à outra, mas se eu tiver que escolher, prefiro mil vezes a tolerância criativa. Mas cada um sabe de si. Cada um escolhe o que quer ser, até onde quer ir e que tipo de vida quer ter. E para o bem da humanidade, qualquer que seja nossa decisão, o mundo vai continuar girando, mesmo se tiver o formato de um donuts.

 

Artigo postado originalmente no meu blog em janeiro de 2020

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