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Jorge De Lima - Iscas Olhos&Alma -

Depressão e sentido de vida

A esperança foi assassinada? Por qual motivo o sol negro firma ao alto do céu? Por que a alma vivencia o eclipse querendo voltar a luz? Hoje a depressão  tornou se uma epidemia fora do controle. Vários estudos apontam sistematicamente para seu aumento devastador em nossa civilização. O suicídio tem matado mais jovens que a AIDS nos últimos tempos. Pessoas em sofrimento beiram os milhões em vários países. E como compreender este fenômeno, como ajudar estas pessoas?

Hoje vale dizer que a depressão mata por ignorância e descuido. Mata por que muitos ainda a consideram doença de maneirismos. Rotulam-na e  estigmatizam , retirando da perigosa patologia seu status de doença, desconsiderando todos os tratados e estudos feitos por séculos. A depressão visitou os clássicos da filosofia, está na antiguidade na bíblia,  do velho testamento em Jonas; esta na vivencia de pedra em pico della mirandola no  humanismo renascentista;  participa da nigredo dos alquimistas; esta na clausura de São João da Cruz em seus lamentos; entre os milhares de autores que poderíamos citar para falar dos processos de introversão que posteriormente migram a depressão. O fenômeno humano transmigra da patologia cutucando as artes, enamorando a filosofia, fundamentando práticas religiosas, nutrindo aspectos de hábitos em culturas específicas; ela sempre  espreitou os passos da humanidade…

A depressão é uma doença mental com sintomatologia física específica, tem sintomas claros e seu diagnóstico pode ser feito ,  por um profissional treinado  em quinze minutos,  devido a uma clara sintomatologia: insônia, sonolência durante o dia, perda do apetite, falta de vontade de fazer as coisas, inclusive as que gosta, dor e pressão no peito, vontade de chorar(com ou sem motivos), hipersensibilidade, descrença com a vida,  vontade de morrer e de por fim em tudo,  angustia, agonia, forte ansiedade, perda de sentido de vida eis seus principais sintomas.

Depressão como outras doenças não tem classe social, credo, idade, raça e se não tratada causará transtornos incontornáveis.

O tratamento da depressão é multidisciplinar envolvendo medicação, analise e psicoterapia, tratamento em grupo e atividade física.

Hoje em nossos dias a depressão  prolifera a passos largos pelas características da conjuntura da vida , com aumento do isolamento, da superficialidade, do materialismo, do egoísmo, da insensibilidade e apatia. Se temos tecnologia, falta-nos a humanidade, a cordialidade, o carinho, a gentileza , o amor por si próprio e ao próximo.

O egoísmo e o materialismo afundaram o ser humano em uma crise existencial ligada ao instinto de poder asfixiando nos a sensibilidade, algo já anunciado por  Nietzsche. O significante rompimento com aspectos da socialização e da afetividade potencializam a proliferação da depressão, ecoando o egoísmo de nossa atualidade. Muito empoderamento para rara essência, pois vivemos o drama de ser personagem numa história sem enredo.

Sobram pedras e vazios.

Vivemos em uma sociedade em que indivíduos são caçadores de fantasias apenas para saciar sua vida instintiva, o momento, criando com isto um abismo de sentido em sua própria existência, observação também apontada por Zygmunt Bauman.  Transformamos ainda a religião em comércio e o instinto religioso em produto, nos distanciando mais e mais do real sentido das coisas e as consequências estão ai, claras e objetivas. Fundamentamos o materialismo e o positivismo como as únicas formas do saber e descartamos o afeto e outras subjetividades como partes de nossa natureza, critica também desenvolvida pelo sociólogo Michel Maffesoli.  Fomentamos a frieza, a insensibilidade, o egoísmo como partes fundantes de nosso capitalismo especulativo, fazendo do crédito nosso altar. Decadência e ruptura de valores, Wolfgang von Goethe e a crise de Fausto traduziria esta problemática?…

A depressão todavia é uma patologia que se tratada tem cura. A evolução dos medicamentos, das técnicas de psicoterapia, do uso da atividade física dirigida, o suporte familiar, profissionais de saúde bem treinados, o esforço do próprio paciente para ter aderência ao tratamento são fatores vitais ao sucesso do tratamento. Em média os tratamentos duram entre sete meses a um ano e meio, em média.

Recorrentemente  sou indagado por que hoje a depressão se transformou na “doença do século”.
Particularmente questiono tal titulo  visto que a depressão  é apenas o efeito colateral do transtorno de ansiedade que hoje afeta mais de dois bilhões de pessoas no planeta. A ansiedade é o mal do século por nossa desconexão com nossa essência, nosso estilo de vida pós moderno caótico, com várias rupturas significativas de valores, como a política cínica também estudada pelo  sociólogo  Slavoj Zizek.

Em minha percepção o Ser Humano cai em depressão por 3 fatores básicos de nossa atualidade:
1) o rompimento com a individuação, com o sentido de vida(C. G. Jung); as pessoas tem vivido de forma instintiva, mecânica, superficial, nas redes sociais, de forma plastificada, assumindo várias identidades porém sem ser alguém de fato; muita ideologia e discurso para pouca consistência, muita militância em cima de atos vazios; muita aparência e pose pra pouca gargalhada.

O norte da existência que deveria ser nossa essência, foi substituído por algum produto renovável de prateleira, neste mercado de consumo que vive da insatisfação coletiva para não se sustentar.  Conseguimos nas ultimas três décadas plastificar as emoções, sofisticamos  e deixamos sem utilidade as coisas simples, nos tornamos visionários de uma ideologia de vida distorcida, e sistematicamente tudo ficou sem graça, sem vida e  pouco de artificial fala ao espírito.

Vários casos que atendo , de várias idades me mostram que as pessoas não levam a sério sua própria vocação, seus dons. Ha algum tempo atendi uma moça que era uma exímia pianista e que largou sua arte para tentar a vida em atividade burocrática, uma concurseira da área do direito, trocando sua sensibilidade pela frustração de ser uma pessoa insatisfeita.

Natural que vire uma profissional sem expressão, por lhe faltar a essência do saber e ter prazer no que faz.
Muitas pessoas colocam preço em sua vida , perdem o norte ao anularem o que lhes mobilizava na juventude.
E isto gera um desastre psíquico por que é uma traição do individuo para com sua própria essência, o medico que vira monstro de   Robert Louis Stevenson.

 

2) a segunda maior causa de depressão são as crises afetivas, rompimento de namoro, noivado, casamento, ou uma convivência dolorosa, já podem gerar uma depressão. A crise do amor romântico em Charles Bukowski, ou a eterna discussão de relação em Woody Allen, transpiram a crise dos relacionamentos de nosso tempo.

Se levarmos em conta que hoje o amor virou um produto e que os relacionamentos estão extremamente superficiais encontramos uma boa parte do aumento de nossa epidemia, o que nos renderia milhares de tratados e dissertações de doutorado apenas na observação das crises do amor romântico e do amor objeto de nossa pós modernidade.

E tão grave quanto, o fato de nas ultimas três décadas transformarmos os afetos em produto vendável, com preço, hora ,local, determinação exatos com pseudo regras sem sustentabilidade.

Ha alguns anos atendi uma senhora de seus 60 anos que vivia em depressão. Separada de seu marido ha 30 anos somatizava no corpo físico uma história de amor mal resolvida. Depressão com várias dores por todo corpo, nas mãos, pernas, coluna.  Colocava a desventura de sua vida afetiva em seu ex-marido. Todavia quando contava sua história mostrava se de certa forma, fria, calculista, racional demais pondo sempre em segundo plano seu coração e o que sentia. Mostrava raiva e incompreensão pelo que vivia. Ela fazia negócio de sua afetividade e isto em sua vida foi catastrófico, negando sua sensibilidade, seu carinho, seu lado mais suave e doce. Não podemos tratar nossos afetos como produto sem que isto tenha consequências problemáticas.
03) as doenças crônicas e incapacitantes  são a terceira maior causa de depressão em nossos dias.
Dias atrás atendi um ex jogador de futebol que descobriu um câncer em um osso de sua perna , viu sua vida e trajetória destruídas por um duro golpe do destino.
Doenças incapacitantes e crônicas nos fazem redimensionar o real sentido de nossa existência, e nem todos estamos preparados para aceitar as desventuras da existência.

No caos de nossa civilização, na qual alugamos  sem endereço fixo a consciência, existe uma estrutura paradoxal provocativa.
Vários pacientes que trato, resinificam toda a sua existência após o embate com uma depressão. Nenhuma patologia traz tanta consciência e revisão de valores como a depressão.

Mas ela por si não faz a transformação necessária. Ela acaba com as noites de sono, a graça do sem graça do existir, nos faz rever nossos valores, no que verdadeiramente acreditamos ,desfaz cada castelo de ilusões que criamos e que insistimos em habitar. A depressão destrói nossa vaidade, orgulho, e evidencia quanto somos egoístas e frios. O rei fica nu e a utilidade de seu trono questionável.

Em uma psicoterapia convidamos um paciente a rever sua   biografia e essência, religar com os aspectos negados, ou adormecidos  da consciência.

Uma patologia que traz de forma irônica um enorme potencial de revisão de valores, podendo decantar muitas coisas superficiais que assolam o homem da pós modernidade.

 

Jorge Antônio Monteiro de Lima

Analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico e musico MSC em antropologia social pela UFG
http://on.fb.me/1z4XXOE
www.olhosalma.com.br

Coordenador do curso de formação de analistas da Unipaz Goiás

http://on.fb.me/1z4XXOE
coordenador do  Grupo de Apoio em Saúde mental GASM:

facebook.com/gasm2000

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