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A queda empresarial e a prisão de Eike Batista são muito mais do que o mero encarceramento temporário de um empresário. Servem para reforçar a ideia de que empresário é incompetente ou bandido e, por extensão, para ratificar a mentalidade anticapitalista no Brasil.

Espero que não me entendam mal, mas fiquei decepcionado com a descoberta, anos atrás, de que Eike não era o empresário que eu imaginava – tanto no âmbito empresarial quanto na dimensão ética.

Quando vi as suas primeiras entrevistas, Eike parecia ser aquele tipo de empreendedor que se orgulhava de fazer parte do mercado, que achava positiva a concorrência entre empresas e que considerava anticapitalista ficar pendurado em negócios com o governo. Era esse o Eike até, pelo menos, 2002, como mostrei no artigo da semana passada.

Quando o Grupo X ruiu, descobrimos que a ascensão era uma fantasia e que a queda era desde sempre anunciada – apenas não sabíamos disso. Só comecei a prestar atenção nos negócios de Eike em 2009, quando uma empresa canadense quis me contratar para elaborar relatórios semanais sobre as suas atividades no Brasil. Na época, não pude aceitar o trabalho, mas aquilo colocou o que antigamente se chamava de “uma pulga atrás da orelha”. Pensei: por qual razão esses canadenses querem informações atualizadas sobre o empresário brasileiro?

Fazendo uma pesquisa na internet, descobri que Eike tinha vivido uma experiência de ascensão e queda no Canadá com uma mineradora de ouro chamada TVX. Só em 2014, ao ler o ótimo livro Eike Batista e a verdadeira história o grupo X, de Malu Gaspar, soube os detalhes da história. Naquele momento, “Eike experimentou pela primeira vez a glória e o fracasso”. Esse episódio narrado no livro mostra a “impressionante semelhança com a novela empresarial assistida ao longo de 2013 por milhões de brasileiros estarrecidos”.

Eu falava, no início, da minha decepção – que, explico, não tem a ver especificamente com Eike Batista. Está relacionada, isto sim, com a esperança de ver empresários e empreendedores competentes e orgulhosos da função econômica que desempenham na sociedade. O empresário brasileiro é, na média, antimercado ou envergonhado. Ver Eike falar abertamente a favor da economia de mercado era algo benéfico que poderia, gradualmente, influenciar positivamente os demais empresários e o país.

Eis o problema, entretanto: a iniciativa privada no Brasil usa e abusa do direito de desagradar e punir os consumidores em vez de conquistá-los e mantê-los. Já fui vítima várias vezes. Desde querer trocar produtos que apresentaram defeitos em tempo recorde a não conseguir resolver problemas criados pela própria empresa, que mais parecia uma repartição estatal.

Pouco tempo atrás, por exemplo, o dono da ótica me disse que não entregaria os óculos no dia combinado porque o motoboy não apareceu para trabalhar. É sério. Este é um dos vários exemplos de como nós, consumidores, somos tratados por certas empresas que, em vez de assumirem a sua responsabilidade, preferem delegá-la para um terceiro (motoboy, assistência técnica, Deus) ou resolverem na Justiça. O empresário médio brasileiro está mais próximo do capitalismo marxista que do capitalismo de livre mercado.

Com esse tipo de mentalidade e conduta, entende-se por qual razão temos uma atitude tão desconfiada em relação à iniciativa privada. Porque toda vez que um empresário se comporta contra o mercado, a opção existente é recorrer a instituições do Estado (Procon ou Justiça) para resolver o problema. Fica, então, a impressão de que “o mercado não funciona” e de que, às vezes, só funciona se o Estado intervir.

E Eike Batista? Por tudo o que representa, a sua queda é positiva. Mas o que ficará na memória e entrará para o senso comum não é a história de um homem que decidiu corromper-se e foi por isso punido, mas a de um empresário que confirmou as piores expectativas sobre a ganância do mercado.

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