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Bruno Garschagen - Ciência Política -

Se não houver um cataclismo político, Dilma Rousseff será afastada temporariamente da presidência nesta semana. Assumirá o atual vice-presidente Michel Temer, que iniciará o seu governo carregando nas costas a maldição de ter ajudado a eleger e a reeleger Dilma Rousseff e por seu partido, o PMDB, ter sido base de apoio fundamental no Congresso e no Senado até recentemente.

Mas antes de qualquer análise sobre as propostas de seu eventual futuro governo é bom relembrar da carta que Temer escreveu em dezembro do ano passado e que marcou o seu rompimento com o governo do PT. A epístola, embora hoje esquecida, continua importante por desnudar alguns aspectos politicamente relevantes e que devem ser objeto de reflexão neste momento de transição. A começar pela pergunta: por que, afinal, Temer decidiu romper com Dilma?

A carta indica claramente um ressentimento de Temer pela desconfiança da presidente e por não ter sido prestigiado como achou que deveria, além de sua própria suspeita em relação à Dilma. A situação foi agravada na época pela tentativa explícita do governo de enfraquecê-lo e de neutralizá-lo politicamente no Congresso e de provocar divisão interna do PMDB a partir da substituição de nomes ligados ao vice-presidente.

Se Temer tivesse sido privilegiado pelo governo provavelmente não haveria rompimento, muito menos o apoio do PMDB ao impeachment–mesmo que o país estivesse no mesmo poço sem fim onde hoje se encontra. Se a política é a arte do diálogo e da negociação há sempre aquele momento em que ao caráter dos homens se impõe um dilema ético. E é tal escolha que revelará o homem–e o político.

Os interesses de Temer, assim como a condução do processo pelo deputado Eduardo Cunha, afastado do mandato na semana passada pelo Supremo Tribunal Federal, maculam o impeachment em curso? De forma alguma. Se coube aos políticos do PMDB serem os instrumentos políticos para afastar o PT da presidência não é de todo desagradável utilizá-los para tal imprescindível finalidade.

Não será o afastamento da presidente que mudará a natureza do PMDB nem a escolha ética feita por Temer, mas as evidenciará de forma tão marcante que a sociedade terá condições de perceber de forma mais nítida quem é quem no jogo político. Temer, se assumir a presidência, terá pouco tempo para mostrar a que veio. Enfrentará o peso de sua aliança com o PT, a crise política e econômica e uma parcela numerosa da sociedade que não aceitará e reagirá vigorosamente contra governos como o atual.

Com o PT fora da presidência, porém, o país poderá iniciar a grande mudança que exige, antes, uma reforma cultural que também permita a formação de uma elite política virtuosa, fundamentada em ideias corretas e capaz de enfrentar os desafios sem aumentar o tamanho do Estado e as atribuições do governo. Porque não se modifica a política formal sem antes mudar a mentalidade dos homens.

Mas o PT, mesmo fora da presidência, não estará morto. Os petistas, que já eram profissionais em fazer uma oposição perigosa, maléfica e desonesta, agora sabem o que é ser governo e como usar a máquina do Estado a seu serviço. Por isso, a sociedade brasileira terá que ter o espírito firme e vigilante para que não seja convertida em instrumento útil do PT quando for necessário se opor ao governo Temer.

Numa das célebres cartas a Lucílio, Sêneca perguntou-lhe a respeito de sua intenção de recolher-se à obscuridade: “o que preferes tu: uma indigência que te sacia ou uma abundância que te deixa esfomeado?”. Os petistas jamais aceitarão a indigência política porque sempre terão fome de poder.

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