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A harpa elétrica

A harpa elétrica

Chiquinho Rodrigues -

Valdenir era um cara que acreditava piamente em reencarnação.

Mas não era só isso…

Acreditava também em vidas passadas, ufos e astrologia. Flertava com o candomblé, o budismo e era também um católico fervoroso (uma puta salada eu sei… mas era uma figura super doce).

Era um negro baiano filho de uma família pobre nascido na periferia de Itabuna, uma cidade do interior da Bahia. Muito cedo, ele e sua irmã gêmea Luzinete foram para Salvador tentar a sorte na carreira musical.

Luzinete fazia as letras e Valdenir compunha as canções. “Lu e Val” (era como assinavam suas composições) eram gêmeos inseparáveis. Nunca vi dois irmãos se darem tão bem assim como eles! Era de dar inveja o amor e o cuidado extremos que cada um tinha com o outro.

O Val era um exímio instrumentista! Qualquer coisa que tivesse cordas ele debulhava! Fosse guitarra, baixo, cavaquinho, bandolim, violões de seis, sete cordas ou o que mais lhe apresentassem.

As pessoas ficavam bestas com os solos de guitarra baiana que ele executava!

Dormia abraçado ao instrumento e tinha como ídolos e referências: Dodô e Osmar, Armandinho, Luís Brasil e Rudney (que hoje toca com Ivete Sangalo)

Luzinete era uma linda morena baiana que desde cedo mostrara seu talento para a música e a literatura. Tinha uma linda voz e sua presença em palco era uma coisa de dar água na boca! Tinha o irmão como seu ídolo.

Em Salvador juntaram-se a mais três primos (todos negros) e no rastro do sucesso de bandas como: Chiclete com banana e Mastruz com leite eles formaram o Sorvete de Piche.

A banda estourou no Brasil todo!

Em apenas quatro anos de estrada gravaram três CDs, dois DVDs e eram requisitados para quase todas as micaretas do interior da Bahia.

Ficaram ricos. Compraram uma casa para os pais em Itabuna e uma cobertura de frente pra praia perto do Farol da Barra em Salvador.

Num certo sábado de madrugada, depois da volta de uma micareta em Irecê, o grupo todo vinha de viagem dentro de uma van pela Estrada do Feijão. E quando estavam já perto de Xique-Xique houve uma lamentável tragédia!

Não se sabe ao certo. Mas tudo indica que o motorista cochilou e provocou o acidente onde além do técnico de som, morreu também Luzinete.

O restante só se feriu. Mas para Valdenir foi como se ele tivesse também morrido ali naquele acidente.

Com a morte de Luzinete a mídia explorou o fato e as rádios não paravam de tocar os hits da Sorvete de Piche. Os camelôs pirateavam tudo que podiam de Cds a DVDs e não conseguiam dar conta do tanto que vendiam.

Porém Val não quis saber de nada disso!

Não aceitou fazer nenhuma apresentação, deixou a banda, (que logo depois se desfez) mergulhou na tristeza e isolou-se do mundo.

E com o tempo a Sorvete só passou a existir na lembrança dos fãs.

Depois de quase um ano de reclusão Valdenir veio até São Paulo pra conhecer o estúdio de um amigo.

Pra deixar o cabeção do Val mais aliviado esse amigo resolver fazer um tour em Sampa e mostrar pro seu amigo baiano algumas coisas diferentes.

Acabaram num sábado de manhã indo até aquela feirinha cheia de tranqueiras na Praça Benedito Calixto, coisas que alguns chamam de antiguidades.

Estavam andando pela praça quando Valdenir ouviu atrás de si um som estranho que ele identificou como sendo de uma das melodias preferidas da sua irmã Luzinete: “Aonde você for… eu vou”.

Ao virar para trás procurando a fonte do som, ele deparou-se com uma linda harpa toda negra que estava ainda com suas cordas vibrando como se alguém as tivesse acabado de ferir. Porém não havia ninguém próximo ao instrumento para poder tê-lo tocado!

Não encontrando uma resposta plausível para aquele fato Valdenir ajoelhou-se defronte a harpa negra e começou a chorar. E a partir desse instante passou a acreditar que a alma da sua irmã Luzinete encarnara de verdade nesse peculiar instrumento!

Segundo sua crença a harpa tocara sozinha ao vê-lo passar, pois era um chamado da sua querida Luzinete que voltara para esta vida em forma de harpa pra lhe amenizar a dor da perda.

Perguntou o preço, pagou pelo instrumento e no mesmo dia voltou com sua harpa para a Bahia.

Ao chegar em casa ligou para amigos, entrou na internet e começou a pesquisar tudo o que havia sobre harpas.

Acabou descobrindo que seu instrumento era uma raridade! Uma mini harpa de 21 cordas feita a mão pelo famoso Luthier Paraguaio Oscar Maldonado Ovelar. Que já havia feito instrumentos para grandes harpistas como Luis Bordon, Rito Pedersen, Marcelo Rojas, Martín Portillo, Marcelo Ojeda, Papi Basaldua e Clelia Carolina.

Em pouco tempo ele já estava dominando sua técnica! Seu passo seguinte foi adaptar um captador elétrico de guitarra ao instrumento deixando-o assim com um timbre diferente e intrigante.

Tudo isso fez voltar em Valdenir a vontade de tocar novamente.

Reuniu o pessoal da Sorvete de Piche e voltaram pra estrada.

O pessoal da banda (seus primos) não botava muita fé nessa história da harpa ser a Luzinete e o escambau. Mas o Val achava isso sim e não deixava ninguém encostar a mão nela.

Arrasaram no carnaval em Salvador! Uma volta triunfal!

Além de tocarem os sucessos do novo CD lançado, eles fizeram um remix dos hits antigos da banda. Nesses novos arranjos a parte que era cantada originalmente pela Luzinete, na nova versão Valdenir estraçalhava com solos ensandecidos de sua harpa elétrica!

E o público delirava!

Era bonito de se ver o bloco da Sorvete seguindo o carro do trio que passava pela Praça Castro Alves, pela Barra, por Ondina e Campo Grande. Com seus abadás coloridos estampando a foto da saudosa Luzinete.

Valdenir lançou moda. E em pouco tempo qualquer banda ou trio elétrico de prestígio na Bahia tinha que ter em sua formação uma harpa elétrica! Mas ninguém tocava igual a ele.

Em uma certa noite Val estava só em sua Pajero voltando para casa quando foi abordado por policiais que haviam recebido um comunicado sobre o roubo de uma Pajero preta igual a dele.

Armados e já com a convicção de esse ser o carro roubado, cercaram o carro de Valdenir e pediram para que ele descesse com as mãos levantadas e contra a nuca.

Val obedeceu. Mas ao tentar levantar as mãos sua jaqueta jeans enroscou-se no seu celular que estava preso naquela bolsinha cafona que o pessoal costuma colocar na cintura.

Seu instinto foi abaixar a mão para desprender a jaqueta. Mas Radamés Jordão, que era tenente da PM e achava que um carrão daqueles na mão de um negro só podia ser roubado, não reconheceu o músico e interpretou o gesto do Valdenir como alguém que vai sacar uma arma da cintura.

Dois tiros no estômago do harpista.

Gritaria, ambulância, hospital, sala de operação, choro dos primos, amigos, parentes, fãs, vigília e muita revolta. Mas Valdenir não resistiu.

No velório milhares de pessoas em enormes filas para o último adeus ao grande filho baiano.

Na hora do enterro o caixão foi colocado em cima de um carro de trio elétrico e como em uma grande procissão fizeram o caminho que os trios faziam no carnaval soteropolitano.

A caminho do cemitério a multidão passou em frente à cobertura onde viveu Valdenir nos seus últimos dias.

E quando o carro com o caixão passou bem embaixo desse prédio, ouviu-se um som estridente, como um grito lancinante!

Todos olharam para cima. Viram estarrecidos na sacada do apartamento a harpa negra que tocava sozinha. A melodia era uma das preferidas da saudosa Luzinete e o povo embevecido entoou em uníssono o canto: “Aonde você for… eu vou”

E no fim da estrofe a harpa caiu. (ou jogou-se).

E nessa queda suas vinte e uma cordas se transformaram em vinte e uma lindas e suaves pétalas de rosa negras que pousaram como o som em forma de arpeggio sobre o caixão do querido irmão Valdenir.

E de lá nunca mais se desprenderam. Fazendo-lhe assim companhia em seu túmulo para todo o sempre.

Valdenir era um cara que acreditava piamente em reencarnação.

Mas não era só isso…

 

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