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Labi Mendonça - Iscas Anarquiscas -

Nos últimos dias, diante da assustadora e costumeira orgia alimentar que se abate sobre as famílias que podem se dar ao luxo de exagerar nas festas natalinas, eu confesso que fiquei meio incômodo.

Antes, no passado, isso nem me preocupava e eu queria era mais, desfrutar da exagerada libidinosidade das várias opções de comida que preparam para as festas.

Hoje eu fico meio constrangido e até enfastiado. Não que eu seja um ser muito certinho e bondoso, que me preocupo com a desigualdade do mundo. Já vivi o suficiente para saber que essa é a lei da vida, uns tem muito e outros muito pouco ou nada. E quem tem fez por ter já que nada é vindo de graça.

Não estou nem aí para explicar a desigualdade. Foi assim que ficou o mundo e pronto. No fundo poucos se preocupam mesmo. Mas também não acredito nas “falsas posturas” dos que querem de repente mitigar a carência alheia. No fundo a maioria quer mais é ter algum proveito, nem que seja o beneplácito e o perdão divino.

Mas me incomoda quando vejo que se faz comida em demasia, quando a vontade de ser superlativo no cardápio leva a tal fartura excessiva. O que me preocupa é essa cultura orgiástica do banquete, a desavergonhada e assumida gula que leva ao excesso de opções e pratos.

Frutas que se estragam, doces que envenenam o sangue com excesso de açúcar, álcool das bebidas que se mistura nas indigestões de cada comilão. No fundo nada disso é muito saudável. É olhando por esse prisma as ceias fartas e mesas cheias de opção que me parecem como um paradoxo incrível. A festa cristã de festejar o nascimento do menino Jesus, o símbolo da simplicidade e da humildade, em vez da caridade, da preocupação em melhorar de verdade nosso mundo, se transforma numa loucura de consumo na nossa sociedade. Talvez isso ocorra até em boa parte do mundo ocidental e não só.

O que me incomoda é que a sociedade de consumo é cruel, ela investe tudo nessa loucura, leva as pessoas a gastar além do razoável, comprar muito, exagerar sem controle, comer demais, beber em excesso, e tudo com a voluntária adesão da maioria das pessoas. Uma semana de desvario para um ano de angústias.

As campanhas na TV, a publicidade, estimulam a compulsiva onda material de comprar. E com preços lá em cima.

O que é incrível é que no dia seguinte ao natal, as liquidações e promoções de queima de estoque jogam os preços por terra. Ninguém se sente enganado, ultrajado, por ter pago três vezes o valor que no dia seguinte é oferecido. Será que o grau de desvario das pessoas faz com que todos percam a noção, o valor do dinheiro, o respeito por tudo que conseguem com tanto sacrifício?

Acho que é uma doença, uma epidemia, tal como o Crack e outras enfermidades que nossa sociedade moderna está incorporando na sua fase mais atual. Ninguém mais pensa de forma crítica, todos entram no bonde do consumismo. Não vejo as pessoas preocupadas com a falta, onde falta, onde possa fazer a diferença, onde possa criar novas oportunidades.

Eu deveria tocar um foda-se, fazer a minha vida, buscar o meu prazer, sem ficar aqui pensando essas coisas, tentando mostrar que de alguma forma nos portamos de modo alienado. Acontece que não consigo mais. Confesso que com a experiência adquirida, passei a dar valor a outras coisas, e uma delas é dar a minha contribuição, para que possa ajudar ao meu semelhante, aquele que eu possa tocar com minha análise. Eu comecei a pensar e escrever. Quem sabe sirva para alguma coisa:

 

Onde falta estudo sobra ignorância, onde falta consciência sobra irresponsabilidade, onde falta sabedoria sobra violência, onde falta ideologia sobra a alienação, onde falta respeito sobra a intolerância, onde falta coragem sobra a covardia, onde falta o amor sobra o ódio, onde falta amor à vida sobra todo tipo de destruição. E por aí vai…

O que mais falta e sobra? Sabem? É uma questão de cada um consigo. O resto não importa.

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