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A depressão, da matéria ao espírito

A depressão, da matéria ao espírito

Jorge De Lima - Iscas Olhos&Alma -

Morre um milionário que tinha depressão. Vários profissionais de saúde aparecem na mídia, cada um com uma hipótese, um diagnóstico midiático, um acho, uma teoria, um talvez. Nenhum dos citados conheceu o falecido, porém todos especulam o motivo pelo qual um homem tão rico põe fim à própria vida. Ele tinha tudo: poder, status, carrões… Tudo que a matéria poderia dar.

Atestando a própria incompetência, certos profissionais de saúde vêm a público para “garantir” que depressão não tem cura, mostrando o seu despreparo, por vezes retirando a esperança de melhora de um paciente que não está bem. Por que não ficar calado? Para que falar asneiras? Outros “profissionais” emergem apenas para satisfazer o processo de sadismo da mídia, no jornalismo sanguinário estilo “quanto mais sangue, melhor” ou “quanto mais fodido, melhor”. Assim, análises psiquiátricas, laudos psicológicos transgridem a moral e a ética, expondo de forma vil a suposição sobre a vida de falecidos, baseado na condenação pelo senso comum de “achos” e “talvez”. Fofoca virando hipótese diagnóstica na retroalimentação da carnificina midiática. Tudo para que um “doutor” vire celebridade, mostrando que é mais um prisioneiro do senso comum, exercitando o julgamento moral do que desconhece. Para que ter ética ou o respeito ao próximo? Se um profissional de saúde declara-se sádico, vindo à público para o exercício da condenação, encarnando um juiz de quinta categoria, o que ele não faz em um consultório com um paciente? O que significa respeito para os profissionais de saúde mental?

Atualmente, artistas, milionários, celebridades têm depressão como toda pessoa. Ninguém está livre de ter uma patologia mental por que tem ou não dinheiro. Doenças, como a morte, são democráticas. Atingem a todos, independentemente de religião, idade, raça, classe social, nível cultural, gênero. Por que idolatramos os que se sobressaem em nossa sociedade, esquecemos que todo milionário e artista também é gente. Sofrem, têm ressaca e sensibilidade, levam fora, choram, sentem solidão, às vezes necessitam de um ombro amigo e de um amigo que não os olhe apenas como uma chance de fazer um bom negócio.

No mundo materialista em que vivemos, no qual o que importa é ter e não ser, há frequente inversão de valores espirituais como a solidariedade, o amor, o cultivo da consciência, a busca de auto-realização, tudo vem sendo trocado por um consumismo exacerbado pela vaidade e pelo egoísmo. Por que tanto isolamento e tanta ilusão em nossas vidas? Por que fazemos questão de fomentar a vida vazia? (Vamos aprofundar este tema em nosso website).

A resposta da área de saúde (psicologia e psiquiatria) abafa as crises de consciência, relegando as crises de melancolia e de depressão, colocando-as como fruto exclusivo de problemas hormonais, associando-as a sinapses e neurotransmissores. Você sofre porque não passa de um pedaço de carne ambulante. Sentiu-se como um ser humano objeto?

Durante os vários anos que atuamos tratando diariamente de pacientes com depressão percebemos que as crises, em verdade, evidenciam o confronto da consciência com o nosso destino. Quem sou, de onde vim, para onde vou? A depressão é a introversão forçada da energia psíquica, que invade a psique, exigindo de um paciente que reveja seus valores e sua vida. Os que se negarem a fazer isto poderão ficar escravos da patologia por décadas. A depressão pode ser curada se um indivíduo reestruturar sua personalidade, em um trabalho intenso e profundo.

Por fim devemos cultivar genuinamente valores espirituais: amor, compaixão, tolerância, solidariedade, tudo o que hoje em dia faz falta em nossa vida. Muitas pessoas acreditam piamente que dando dízimo a uma igreja, estão salvas. Resposta materialista para um mundo materialista. Cômodo. Porém, na prática isso apenas fomenta mais e mais a distância da verdadeira espiritualidade. Não vou discutir dogmas neste artigo. O que quero mostrar é o quanto nos atemos a soluções “práticas”, a “ilusões” do cotidiano, a conceitos superficiais para rever problemas complexos.

A epidemia de depressão na atualidade evidencia a crise da individualização, na qual o ser humano perdeu seu referencial de auto-realização. Racionalismo exacerbado, projeção de culpa, rótulos superficiais, egoísmo, apatia, carência, tudo isto faz parte do projeto pós moderno de existir em sociedade. Podemos escolher a vida superficial e sem sentido ou a consciência crítica e a busca de realização. Mas a dúvida imposta pelo universo, pela depressão, é a seguinte: como encontrar sentido e alegria na casca, no vazio da superficialidade, no consumismo ou no materialismo?

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