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A década esbanjada

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Paulo Rabello de Castro - Iscas BrasilEficiente -

Texto de Paulo Rabello de Castro

O Ministro Joaquim Levy acaba de admitir, em Nova York, que o PIB de 2014 deve fechar com variação negativa. A prévia do Banco Central (BC) para a evolução do ano passado aponta uma queda de 0,15%. O problema não é tanto o que já passou, mas o que virá. Nossa consultoria, RC Consultores, já estima em 1% a queda do PIB em 2015. Se levarmos em conta uma inflação da ordem de 7% este ano, portanto estourando o teto da meta, devemos estar preparados para a explosão do que chamo de “taxa de desconforto social”, um indicador combinado de inflação para cima com produção, emprego e renda para baixo.

Evidentemente, algo vai muito mal. Não podemos mais nos deixar enganar com mentirinhas bobas como alguém no governo querendo justificar dois PIBs negativos seguidos, num país com a força potencial desse nosso Brasil, por conta dos efeitos do período eleitoral ou da Copa do Mundo (a mesma Copa que, você lembra, iria empurrar o PIB e os investimentos para as nuvens!). Falemos sério. Afinal, estamos em plena Quaresma, tempo de reflexão.

Primeiro, vamos combinar uma coisa: o novo ministro não é o mágico Houdini, nem tem cara de Papai Noel.  Joaquim Levy é um homem que sabe economia como poucos. Entretanto, Levy não pode ser, sozinho, o que o governo não consegue ser como um coletivo. Nem Mantega, que era membro efetivo do PT, conseguiu emplacar uma reforma tributária fatiada.  Passou muitos anos lá, teve tempo de sobra e deu no que deu. Embora ainda sem prazo para avaliar uma gestão – seria cruel colocar juízo de valor em cima de 60 dias à frente da Fazenda – o fato é que Levy não tem mandato para ir além do convencionalismo fiscal, que é tentar conter gastos e continuar a enfiar a mão no bolso dos pagadores de impostos (nós). Levy haver começado pelos impostos não é coincidência: mostra o quanto ele está limitado a extrair mais e mais da população indefesa e como os gastadores eméritos de Brasília e nos estados continuarão livres para fazer o que quiserem. Não preciso comentar que o convencionalismo fiscal – que alguns chamam, por erro, de ortodoxia – será recessivo ao extremo. Não ressuscitará o PIB de 2015 e o Levy se frustrará. Pobre colega de Chicago!

O segundo ponto é o mais grave. Se não é justo comparar Levy ao Mantega, que pegou o País em pleno ciclo de boa-venturança das commodities. Menos justo é esperar que Levy seja capaz de vender a um governo, já colocado politicamente nas cordas, a transformação que precisa ser feita no País e nas suas instituições econômicas para nos fazer retornar a um ciclo de prosperidade. Esqueçam. Entramos na DÉCADA ESBANJADA, ainda lá atrás, quando tínhamos a faca, o queijo e o caixa na mão para iniciar reformas transformadoras e enriquecedoras. Jogamos aquela chance fora, bem ao estilo do “7 a 1” fatídico no Mineirão. Sabe-se lá o quanto isso nos terá custado. Futuras gerações nos cobrarão por nossa total irresponsabilidade na gestão do futuro. Imaginem que estamos indo para um período de maior retração industrial e econômica desde os terríveis anos 1980, em que quebramos por excesso de dívida externa. Os economistas convencionaram chamar os anos 1980 de década perdida. Agora é diferente. Não tem nada contra nós. Não tem ianque nem FMI, não há falta de dólares, não é o preço do petróleo (nem falar nessa palavra!). Não, agora a maldade mora dentro de casa; é ela quem põe a mesa e nos serve a comida fria, que nos rouba o que de mais precioso há: o futuro e a liberdade de podermos deliberar sobre para onde queremos ir. Esta década não é perdida; nós é que a pusemos a perder, ao admitir que esbanjadores do potencial brasileiro tomassem conta do leme.

Os efeitos da DÉCADA ESBANJADA já estão ai para quem quiser ver. Um desses efeitos, talvez o mais grave, é a intensidade da recessão que está sendo provocada pela inadimplência da Petrobras sobre toda a cadeia produtiva dos que dela dependem. São milhares de empregos e empresas esbanjados. Há gente fechando as portas, sem liquidez, porque não recebe há meses. Incrível como ninguém no governo abra a boca para ao menos tocar no assunto. Como a Petrobras é assunto “de Estado”, a quebra do setor privado, que dela depende, passou a ser responsabilidade do governo também. Mas ninguém dá um pio, nem mesmo as principais lideranças empresariais, o que é espantoso!

Quanto ao desfecho da tragédia – e essa é apenas uma delas -, me pergunto se aprenderemos com a terrível lição. Creio que estamos longe disso. Como disse antes, transformar o País não é nomear um novo presidente para a Petrobras. Seria, sim, redefinir a governança do setor estatal produtivo como um todo. Definir as bases de um novo estatuto de gestão pública. E mais. Enquanto as estatais não pertencerem DE FATO aos brasileiros credores do Estado (os contribuintes do INSS, por exemplo) não teremos governança séria nessas empresas de governo. Mas isso já é sonhar alto demais. Aqui, nem no Carnaval.

 

(*) Paulo Rabello coordena o Movimento Brasil Eficiente e convida quem queira se manifestar sobre o tema deste artigo ou participar do movimento a visitar o site www.assinabrasil.org.  Autor de “O Mito do Governo Grátis” (Ed. de Janeiro, 2014).

 

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