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Chiquinho Rodrigues -

Toninho Macedo era um daqueles músicos de fim de semana.

Amava música e tocava seu cavaquinho “de brincadeira” (como ele dizia) aos sábados e domingos em uma banda de pagode ali do bairro onde morávamos.

Mas durante a semana, para seu sustento e da família, ele era mecânico.

A mecânica do Toninho era um dos lugares mais limpos e organizados que já conheci em toda minha vida!

E olha que pra uma mecânica, isso é um fato raro!

A organização era tanta que dava até raiva. Nas paredes havia desenhos em forma de silhuetas dos mais variados tipos e tamanhos de ferramentas: um lugar certo pra cada chave de fenda, pra cada martelo ou pra cada alicate.

Os parafusos, arruelas e porcas, eram arquivados em gavetinhas de madeira com etiqueta pra cada um, onde a gente podia ver escrito o tamanho, dimensão, largura e o escambau! (uma frescura!)

A banda ensaiava na oficina. E para cada instrumento também havia um lugar pré definido pelo Toninho (e ai de quem não guardasse no lugar certo!).

Nada daquelas baixarias de pôster com mulher pelada, chão sujo de graxa ou banheiro imundo.

Tudo era perfeito e organizado. Tinha-se a impressão de uma oficina próspera. Mas… Era só impressão!

Toninho era até um bom músico. Mas não entendia nada de negócios!

Orçava de forma estranha, não sabia cobrar, fazia fiado, colocava dinheiro do próprio bolso para peças, ficava com pena de todo mundo, e é claro… Acabava sempre no preju.

Mas mesmo assim estava sempre arrumando a bicicleta da molecada, enchendo pneus, apertando parafuso dos carinhos de rolimã e emprestando algumas ferramentas. Tudo sem cobrar nada!

Mas com uma condição: toda ferramenta que fosse usada ou emprestada, deveria ser colocada de volta em seu devido lugar.

Pois ele… Detestava bagunça e desorganização!

Era uma alma das boas! Querido por todos!

A mecânica ficava em frente ao boteco do seu Rafael, onde era o ponto da moçada que ia tomar umas e outras, falar de futebol, música, carro e mulher.

Não tinha quem não passasse por ali sem antes despejar uma palavra de carinho ou um simples alô pro grande Toninho.

Bom… Grande era maneira de dizer, porque o Toninho era baixinho, magricela, cabelo escovinha, usava óculos e era super tímido. Principalmente quando a Lúcia, sua esposa, (que era muito bonita) entrava na oficina.

Todo mundo ali na vizinhança tinha uma certa bronca da Lúcia.

Ela não demonstrava o menor respeito pelo Toninho.

Vivia desfazendo dele na presença dos empregados, dos músicos e até do pessoal do boteco.

Nessa hora ela dizia que todos se aproveitavam dele… Que ele não sabia cobrar de ninguém… Que era um trouxa… Vivia sempre duro e que não era homem pra ela (que já tinha sido “Rainha do Pêssego” em Itaquera!) e que qualquer hora ela se encheria o saco de um traste desses e arranjaria outro e coisas assim.

Por razões que só o amor conhece, o Toninho ouvia tudo isso sem dizer porra nenhuma! Continuava ali concentrado no que estava fazendo e não abria a boca. Só vermelhando de tanta vergonha e humilhação.

Ninguém se conformava com tanta paciência por parte do meu amigo.

Todo mundo torcia pra que um dia ele se revoltasse e desse uma… Apenas uma porradinha só naquele nariz empinado da biscate da Lúcia (sentiu a bronca?).

Era um sábado de manhã. Estava quente.

A rua fervilhava de gente e vida, praticamente um sol pra cada um.

A calçada do boteco lotada de marmanjo tomando umas brejas, comendo torresminho, falando da situação dos times no campeonato e arriscando um olho de vez em quando pra bunda da Lúcia, mas na maior discrição e sem comentários (acredita, né?)

Logo mais estaria chegando o pessoal da banda, pois sabiam que depois que o Toninho fechasse a mecânica à tarde, começaria o ensaio.

Na oficina ainda havia uns dois carros que o Toninho deveria entregar naquela manhã e ele estava com um problema!

Teria que atravessar a cidade inteira, só pra buscar uma peça num desmanche e levaria quase duas horas nessa operação.

Pediu então para Lúcia dar uma olhadinha na oficina enquanto ele faria isso.

Pois bem! Foi só o Toninho virar a esquina, para que o Zezo (que era o baterista da banda) chegasse já com as baquetas na mão querendo montar a bateria.

Ele viu a Lúcia, perguntou pelo Toninho e começaram a conversar.

(Todo mundo comentava que a Lúcia vivia dando em cima do Zezo. E que a coisa só ainda não tinha rolado por pura falta de oportunidade).

O papo demorou uns cinco minutos. Logo depois os dois sumiram e se trancaram dentro do pequeno escritório do Toninho.

Lá na frente, a moçada do boteco filmava tudo! Vibrava! Ardia de curiosidade.

“Que que tava acontecendo lá dentro, meu Deus? Será que é hoje? Ô Rafael… manda mais umas cerva… frita umas linguiça… umas sardinha… qualquer porra meu… isso aqui hoje vai pegar fogo!”

Mas nem deu tempo para as apostas!

Não tinham se passado nem dez minutos e o pessoal estarrecido, vê o carro do Toninho entrando de volta na garagem…

Ele desliga o motor, abre a porta do carro e desce…

Vrrrruuuuuuuuuummmmmm!

Incrível esse nosso ouvido, né?

Eu até então nunca tinha reparado no barulho de motor de geladeira que sai daqueles balcões frigoríficos de bar!

Vrrrruuuuuuuuuummmmmm!

Mas o silêncio era tão grande que todo mundo só conseguia ouvir essa porra de ruído.

O Lívio Negão era um dos funcionários da mecânica.

Vivia com o rosto sujo de graxa. Só que agora parecia ter passado giz, de tão branco que ficou.

O Toninho desceu do carro e falou pro Lívido Lívio:

– Que merda cara! … esqueci a droga da carteira no escritório!

Então foi aquele incômodo…

O cara chegando perto da porta do escritório e toda a galera segurando a respiração… Era um clima de cobrança de pênalti aos 48 do segundo tempo, em final de Copa.

A Lúcia conhecia o barulho do motor do carro do marido, claro!

Deve ter ouvido o marido voltando, e antes que ele chegasse até porta… Ela abriu!

Ela na frente e o Zezo logo atrás foram saindo… Meio desarrumados… Meio esquisitos… Sorrisinho amarelo e os dois com aquela cara de cu.

Ela fingido naturalidade foi logo perguntando:

– Oi! bem… já voltou?

E o Toninho naquele seu jeitinho tímido, respondeu:

– Pois é amor… Esqueci a carteira!

Mas depois meio desconfiado perguntou:

– Que que tá acontecendo aqui? O que vocês dois estavam fazendo dentro do meu escritório?

– Nada amor…  – respondeu ela tentando disfarçar – É que o Zezo precisava de uma chave de fenda pra apertar uns parafusos da bateria e veio pedir pra mim…

Nessa altura cara, a galera já estava puta da vida! Inconformada mesmo!

Será que mais uma vez ele iria entrar na conversa mole daquela safada?

Mas Toninho ainda desconfiado disse:

– Chave-de-fenda no escritório, Lúcia? Faça-me o favor!

– Pois é Antonio… – disse ela. Eu fui procurar no lugar de sempre na oficina… Porém a chave de fenda não estava no lugar e…

PLAFT! Explodiu a bifa na cara da Lúcia!

Deus do céu… Parecia que alguém tinha feito um puta gol!

Neguinho se abraçando… Gente gritando… Pulando… Fogos de artifício… Corinho de “mais um… mais um…” meu irmão Vitché tentando organizar uma ôla… um sururu!

O Toninho partiu pra cima da Lúcia. Mas o Livio interveio e todo mundo ajudou a separar os dois.

Levaram a Lúcia pra casa da Noêmia que providenciou água com açúcar e aquela coisa toda e tal…

O Toninho nós levamos para o boteco do Rafael.

Mas estava difícil de acalmá-lo!

E mais difícil ainda estava entender aquela explosão dele!

Explico:

A Lúcia nunca tinha sido santa e ele sabia disso.

Já houvera casos bem piores do que esse! Como o tal de Marcelo, que era um ex-marido que a cada seis meses aparecia e ela resolvia ir morar com o cara. Logo depois, arrependida, voltava pro Toninho. (Nessas fases ele, ao lado do seu cavaquinho, compunha os sambas mais lindos de que se tem notícia).

Na oficina, vivia aparecendo neguinho que parecia querer consertar o carro, mas no fundo só queria dar em cima da Lúcia. O Toninho percebia… Mas ficava sempre na dele.

Por isso que a gente não estava entendendo.

Como é que um cara, que nunca tinha levantado a voz nem pra funcionário que vivia fazendo cagada, foi estourar assim daquele jeito?

O Rafael dono do boteco, amigo de vários anos do Toninho, limpou a mão no avental, chegou pra perto dele e perguntou:

– Ô meu… Que é que deu em você? Não deve ter acontecido nada entre a Lúcia e o Zezo compadre! Em menos de dez minutos você já estava de volta! Fique frio! Sequer deu tempo pra qualquer coisa.

E o Toninho, naquele seu jeito quase pedindo desculpas respondeu:

– Olha Rafa… Eu sempre aguentei de tudo dessa mulher.

Ingratidão, ofensas, humilhações e gente dando em cima dela o tempo todo…

Nunca falei nada e sempre engoli tudo isso calado! – continuou o Toninho já agora um pouco mais exaltado.

– Mas hoje na frente de todo mundo compadre – continuou o Toninho agora já de pé e bastante irritado– Ela deixou a entender que EU não tinha guardado a chave de fenda no seu devido lugar!

– Posso aguentar ser chamado de tudo Rafa… Trouxa, bunda-mole ou até corno — começou a berrar meu amigo agora já possesso, em cima do balcão e com a boca dirigida para os lados da casa da Noêmia onde estava a Lúcia com o ouvido colado no muro.

– Mas desorganizado, minha filha…

– É A PUTA MADRE QUE LAS TRAFARIU!

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