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Pare de acreditar no governo!

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Bruno Garschagen - Ciência Política -

O mais novo “isqueiro” do Portal Café Brasil é o cientista político, professor, escritor e apresentador do podcast do Instituto Mises Brasil, Bruno Garschagen, que publicou um livro intitulado Pare de Acreditar no Governo – Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado. os textos de Bruno passarão a fazer parte periodicamente de nossas Iscas Intelectuais. Bruno é um dos jovens intelectuais brasileiros, defensor das ideias da liberdade e da limitação dos poderes do Estado. Seus textos abrilhantarão nossas Iscas periódicas.

Seja bem vindo, Bruno!

Luciano Pires

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PARE DE ACREDITAR NO GOVERNO – Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o estado?

O jornalista João Pereira Coutinho, que assina o prefácio do livro, faz a pergunta que sintetiza perfeitamente nossa espantosa confusão mental.  Diz o luso:

Se existe desprezo pelos políticos e amor pelo Estado, que tipo de criaturas os brasileiros imaginam que governa esse Estado? Seres perfeitos? Angelicais? Extraterrestres vindos de outra galáxia?

Em seu livro, Bruno, além de mostrar que não fazemos essa conexão, investiga nossas raízes culturais para tentar encontrar uma resposta para essa nossa dissonância cognitiva, traçando um profundo panorama da nossa história: o livro abrange desde o reinado de D. Manuel I até Dilma Rousseff.

De acordo com o autor, “nada é tão ruim que não possa piorar.”

Em sua coluna na Folha de S. Paulo, intituladaEnsaio Sobre as Cegueiras, o próprio João Pereira Coutinho escreve:

Você, leitor, é homem interessado no futuro do Brasil? […] Você, leitor, deve procurar urgentemente “Pare de Acreditar no Governo – Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado”, livro de Bruno Garschagen. 

Verdade: escrevi o prefácio da obra e, como dizem os “idiotas da objectividade”, sou “suspeito” na matéria. 

Mas se isso é crime, cometo o delito com um sorriso nos lábios. O livro de Garschagen procura analisar o maior paradoxo político do Brasil democrático. Que está expresso no próprio subtítulo: os brasileiros desconfiam dos políticos e, sejamos sinceros, têm uma certa repugnância pela espécie. 

Mas, ao mesmo tempo, eles querem mais e mais Estado — ou seja, e por outras palavras, querem mais e mais políticos a tomar conta dos interesses públicos. Como explicar essa “dissonância cognitiva”? 

Garschagen vai às origens da tradição patrimonialista brasileira para encontrar, claro, a tradição patrimonialista portuguesa. Mas não só: com uma escrita divertida, informada e polêmica, o livro é sobretudo uma história do país — da independência no século 19 aos governos PT do século 21— e da paixão pelo Estado que palpita no coração de governantes e governados. 

A conclusão do autor é simples e fulminante: se você, leitor, acredita que os políticos não são anjos, então talvez seja altura de também não acreditar que o Estado é um jardim celestial. “Touché.”

A entrevista a seguir foi concedida por Bruno a Rodrigo da Silva, do site Spotniks.

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Rodrigo da Silva: Afinal, por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o estado?

Bruno Garschagen: Essa pergunta está diluída ao longo do livro. No fundo, não há uma resposta única. Há vários esboços de resposta. Mas, um dos argumentos centrais, desse amor do brasileiro pelo estado, é que esse foi um processo de construção política que resultou em uma mentalidade cultural.  E essa mentalidade acabou se traduzindo na forma de incentivos dispersos pela sociedade.

No fundo, quando você está imerso em uma sociedade em que as instituições políticas, em que todo o debate político, em que toda a conversa em termos de política, gira em torno de “o que o governo deve fazer” — e dificilmente se faz o questionamento sobre o que o governo não deve fazer —, é natural que você tenha uma relação com o estado de extrema dependência, mesmo quando não precisa ou não depende diretamente dele.

Fica essa mentalidade de que o estado deve fazer tudo — ou, no mínimo, apenas um pouco menos do que tudo.

Meu livro começa com o desembarque da tripulação portuguesa no Brasil e faz um passeio pela história até o ainda atual governo central. Eu me concentrei no poder executivo federal. Falo sobre o poder executivo federal quando o Brasil era colônia — referindo-me ao poder de Lisboa — e depois sobre o poder central dos nossos imperadores, chegando ao golpe militar que derruba a monarquia (e a nossa história é pródiga de golpes militares).  Após a queda da monarquia, faço um passeio pela história dos governos do período republicano.

Eu tento mostrar a forma como o poder central, que sempre foi muito poderoso no Brasil, se tornou um dos grandes atores na disseminação desse tipo de mentalidade. Por que os brasileiros não confiam nos políticos? É o paradoxo que eu coloco no subtítulo do meu livro. Ao mesmo tempo em que nós, brasileiros, ao longo da história, acreditamos que o governo deve fazer muitas coisas, ou deve fazer todas as coisas, não confiamos nos políticos. Esse paradoxo acontece por quê?

Porque o brasileiro faz uma separação bastante excêntrica entre o governo e os políticos que o compõe, como se o governo fosse uma entidade separada dos homens, como se o governo fosse formado por anjos, por entidades celestiais — para usar a famosa metáfora dos pais fundadores dos Estados Unidos.

E, nessa contradição, ao mesmo tempo em que o governo promete as coisas e não cumpre, esse descumprimento dessas expectativas, essa frustração, essa insatisfação é dirigida diretamente aos políticos.  E o que é mais engraçado ainda: o governo não cumpre as expectativas e com isso a realidade volta ao seu plano concreto. E aí os brasileiros percebem por quem o governo é formado.

Rodrigo da Silva A pergunta inevitável é: como mudar essa realidade?

Bruno Garschagen: É preciso várias ações. Falando de hoje, trazendo a discussão para o que está acontecendo agora no Brasil, nós estamos passando por um período de transição bastante rico, e esse período dará bons frutos se nós fizermos tudo certo agora, como eu acho que uma parte da sociedade brasileira tem feito.

Atualmente, o que a gente está testemunhando é que uma parte da sociedade brasileira percebeu essa armadilha, e está trabalhando para desfazer ou pelo menos mostrar que essa armadilha existe, e tentando propor uma alternativa em termos de ideias, de projetos políticos, de agenda política.

Então, o trabalho que tem sido feito, de participação e de militância ativa, faz com que a gente possa ter algum tipo de esperança de que isso possa ser mudado.  E, uma vez mudado no plano da sociedade e no âmbito cultural, poderemos quem sabe formar políticos que sairão já com uma mentalidade diferente.  E, uma vez nas instituições políticas, talvez estes novos políticos consigam mudar o que está implantado de maneira institucional.

No entanto, o que eu acho que é muito importante, e as passeatas desse ano mostraram muito bem isso, é que a participação de uma parte da população mostrou que as pessoas estão em busca de algo que não seja mais estado — o qual é, no fundo, a origem da sua insatisfação. E, ao verem que há algo diferente, a população tem para onde canalizar as suas expectativas.  E é aí que podemos começar um processo de construção de baixo para cima.

Rodrigo da Silva: O historiador americano David Landes aplica o patrimonialismo a uma perspectiva cultural. Por outro lado, economistas como o turco Daron Acemoglu afirmam que esse cenário faz parte da construção das nossas instituições econômicas, que incentivam essa dependência. Qual caminho você escolhe no livro?

Bruno Garschagen: A espinha dorsal do livro é a dimensão cultural. Mas como eu vejo a cultura? Como um grande círculo, dentro do qual estão os círculos da economia, da política e da justiça.

Quando escrevo sobre cultura, trato de uma forma muito mais ampla. Por causa disso, acabo tratando de tudo. E não consigo desassociar essa mudança cultural do problema econômico e político, pois, no fundo, essas esferas estão interligadas. A minha perspectiva é cultural e eu acredito que essa mudança será, no fim, a chave de tudo, pra mudança econômica e política.

Rodrigo da Silva E qual é a nossa literatura na área? Quais foram os seus expoentes sobre essa abordagem cultural histórica no Brasil?

Bruno Garschagen: Há vários autores que tratam de forma bastante específica alguns problemas. Vou citar dois que eu usei no livro, que pegam de forma muito inteligente a maneira como essa dimensão cultural atua na esfera política e econômica: o professor Antonio Paim e o professor Ricardo Vélez-Rodríguez.

São dois autores vivos com uma obra extensa, que tratam de política brasileira, e os quais eu recomendaria porque conseguem conjugar de forma muito inteligente essas dimensões.

Rodrigo da Silva: Como foi esse processo pra escrever o livro?

Bruno Garschagen: Esse livro foi proposto em forma de projeto ao editor Carlos Andreazza (da Editora Record) em uma conversa informal, e eu tinha o assunto resumido no título. Eu parti do título, que resumia o objeto daquilo que eu queria investigar.

O Andreazza comprou a ideia e, durante todo processo, deu total apoio. O processo de pesquisa e escrita do livro durou de janeiro a outubro de 2014. Foram dez meses de investigação e elaboração do livro.

Mas esse livro começou a ser pensado muito tempo antes, em 2008, quando comecei a me envolver de forma mais direta — ou a me preocupar de forma mais direta — com o problema político do Brasil. Foi um processo de leituras muito esparsas, crescendo de forma muito gradual. A partir dessa preocupação, discutindo os temas do país que eu gostaria de ler, a partir do meu trabalho no Ordem Livre, como podcaster do Instituto Mises Brasil, convivendo com as pessoas do movimento das ideias da liberdade, vendo que esse era sempre um assunto muito recorrente, a ideia foi se consolidando.

E eu primeiro queria descobrir se isso era verdade, se o brasileiro era realmente tão estatista como nós imaginávamos. Uma coisa era ter essa informação de forma intuitiva; outra era a investigação. Saber primeiro: “há alguma pesquisa empírica que demonstra que o brasileiro realmente ama o estado?”. Eu fui descobrir que sim. Essa pesquisa já havia sido publicada em um livro chamado “A cabeça do brasileiro”. Com essa pesquisa em mãos, concluí: “bom, isso realmente existe”.

Em seguida, fui investigar teoricamente, historicamente, sociologicamente, antropologicamente de que forma isso foi sendo construído ao longo da nossa história, como é que isso chegou aqui e, principalmente, se houve, em algum momento histórico, alguma tentativa de quebrar essa ideia patrimonialista que chegou aqui e se desenvolveu com os portugueses, e foi sendo ampliada e modernizada.

No fundo, meu livro expõe a teoria e expõe também dados empíricos que mostram de que forma isso aconteceu e qual foi o resultado disso.

Rodrigo da Silva O livro aborda a herança cultural portuguesa. Como é ter um escritor como o João Pereira Coutinho, português, escrevendo o prefácio dele?

Bruno Garschagen: Eu acho que esse era o caminho natural. A escolha do João Pereira Coutinho para escrever o prefácio tem várias razões.

A primeira delas é que, como o livro trata de Brasil e Portugal, por conta dessa herança histórica, não haveria melhor escolha do que um autor português, que conhece a história de Portugal, que conhece uma parte da história brasileira, e que tem, de forma muito clara, a noção de que isso que o livro aborda é uma grande armadilha da qual Portugal também foi vítima e da qual também não conseguiu se libertar. E ele tem a exata dimensão dessa herança que nos foi legada.

Além disso, é um estudioso das ideias da liberdade, assim como eu.

A outra razão é que, além de eu ter sido aluno e orientando dele no mestrado, atualmente sou orientando dele no doutorado. Isso me permitiu ter uma aproximação maior e conhecer mais daquilo que ele conhece e desenvolve em seus estudos. Ele reunia essas qualidades que me privilegiaram com um prefácio brilhante, como o que ele escreveu, e adequado à proposta do livro.

E há uma coisa que eu queria complementar dessa relação entre Brasil e Portugal: eu só me senti confortável para escrever esse livro — depois de todas as leituras que eu fiz — porque tive a experiência de ter morado em Portugal durante 2 anos, o que fez com que eu tivesse uma visão in loco de Portugal, dos portugueses, da realidade portuguesa e de como se desenvolveu a política portuguesa.

Ter tido essa experiência, de ser um brasileiro que estudou a história brasileira, que teve essa vivência em Portugal e que estudou a história de Portugal em Portugal, fez com que eu me sentisse muito confortável para tratar dessa relação entre Brasil e Portugal.

E eu queria complementar dizendo que o livro foi pensado e escrito para o leitor não-especializado. Ele foi pensado e escrito em uma linguagem clara, concisa, fácil e bem humorada. Eu tentei, com o meu texto, reunir todas as características que nos fazem brasileiros no melhor sentido: um livro plural, que faz as abordagens que eu acreditava serem as mais adequadas ao sentido do livro e com um texto fácil.

O texto é voltado a todo e qualquer brasileiro que queira conhecer a história do Brasil — ou a história oculta do Brasil — e que queira entender as bases desse nosso paradoxo: afinal, por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o estado?

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