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Luciano Pires -

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Edmundo Barreto Pinto foi eleito deputado pelo PTB no Rio de Janeiro.

O deputado tentava tornar ainda mais marcante a sua imagem pública, os jornalistas queriam fornecer mais um escândalo ao público

Em 1946, Barreto Pinto, um novo rico recém-eleito deputado (teve pouco mais de 200 votos, assumiu o mandato por ser um dos suplentes de Getúlio Vargas), teria acertado com os jornalistas David Nasser e Jean Manzon, da revista ‘O Cruzeiro’, uma reportagem sobre a sua importante presença na alta sociedade carioca.

A sessão de fotos foi realizada na casa da nova esposa, um palacete em Botafogo. Os jornalistas, devido ao calor, teriam sugerido que ele se dispensasse de vestir as calças, até porque as fotos o mostrariam da cintura para cima. O deputado, ingenuamente, teria concordado.

Correu, no entanto, a versão de que ele teria pago a reportagem, já incluindo a combinação de processar posteriormente os jornalistas, uma vez que todos ganhariam notoriedade com isso177. A publicação da matéria ‘Barreto Pinto sem Máscara’ (que chegou a ser republicada pela revista Time nos EUA), na qual o deputado aparece em várias fotos nestes trajes (tanto posando quanto nos preparativos), provocou grande celeuma, incluindo a questão do suposto acordo entre os repórteres e o fotografado.

A consequ?ência maior do imbróglio foi a cassação do deputado por ‘falta de decoro’, a primeira do Congresso brasileiro.

Quanto à publicação da matéria, não houve maiores conseqüências jurídicas ou legais. Um resultado que não surpreende, pois, como define, na sequ?ência, a própria Silvana Louzada, ‘ambas as versões, a de acordo remunerado entre as partes ou a de exploração da boa fé do parlamentar, remetem a procedimentos jornalísticos éticos espúrios, mas que eram bem absorvidos e mesmo incentivados pela direção da revista’.

Uma história que traz à tona, portanto, o lado ‘mau’ das relações entre fotógrafo e fotografado, a exemplo de muitas outras situações duvidosas e/ou criticáveis na imprensa brasileira, sempre em torno de dinheiro ou poder, relativamente freqüentes na história das empresas jornalísticas. Independente das questões éticas, percebe-se, no caso, a presença, apesar do conflito de versões, de um processo de negociação prévio entre fotógrafo e fotografado, que definiu uma previsão de formato para a matéria (que já incluía as fotos) e o estabelecimento de uma relação de confiança.

Resultou que, feita a reportagem, passamos a ter ou a manutenção do combinado (na versão do conluio entre todos) ou a quebra do acordo (na versão da ingenuidade do deputado, traído pelos jornalistas).

A primeira hipótese é possível, ainda que seja difícil acreditar em uma auto-promoção tão múltipla e radical, embora não se deva esquecer outras muito maiores, em outros níveis de decisão… Não sendo da prática comum do fotojornalismo, deixamos de considerar.

A segunda possibilidade, porém, é altamente característica da reportagem fotográfica. Corresponde ao fato de que o fotografado não tem controle sobre a imagem que vai ser publicada. Por mais que novas leis e decisões da justiça sobre os direitos de imagem tenham surgido e possam até inibir excessos, a decisão da publicação não pertence ao fotografado. Aliás, na maioria das vezes, como sabemos, também não pertence ao fotógrafo…

Esta é, sem dúvida, uma das mais imediatas dificuldades éticas do fotojornalismo e podemos notar que ela perpassa todos os depoimentos recebidos. Praticamente nenhum problema ocorre quando o fotografado é retratado (ou melhor, publicado) de uma forma positiva (do seu ponto de vista), mas tudo muda quando a combinação tácita é transgredida, como em uma das possibilidades desta comparação, ou quando o fotografado desenvolve novos interesses ou reconsidera os antigos.’

Texto de Aguinaldo Ramos, extraído da tese de mestrado A História bem na Foto, apresentada na UFRJ.”

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