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Duda Guennes

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Luciano Pires -

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Duda Guennes

Nascido em 21 de julho de 1937, Duda iniciou sua separação física de Pernambuco já na década de 1970, quando se mudou para o Rio de Janeiro, uma de suas cidades-fetiche. A mudança para a capital fluminense lhe proporcionou contato com a efervescente intelectualidade da esquerda brasileira, na época em que fomentavam os discursos de reforma social. Lá, colaborou com vários periódicos como freelancer, trabalhou no sistema Globo de comunicação, escreveu para o jornal O Pasquim, ao lado de ícones da imprensa como Jaguar, Ziraldo e Millôr Fernandes, e envolveu-se profundamente com a cena teatral, outra grande paixão de um homem que se deixava levar por elas.

A capital portuguesa, para onde se mudou em 1974, viria a formar a trindade perfeita das cidades-fetiche mencionadas acima: Recife (que sempre levou no coração e para onde sempre voltava para rever a família, os amigos e recarregar as baterias), o Rio de Janeiro (cujo ethos de descontração, bom humor e liberdade sempre lhe caiu como uma luva) e Lisboa (que o acolheu quando os ares carregados de chumbo da ditadura já não o deixavam respirar). Ao chegar em Lisboa, a chamada Revolução dos Cravos já havia sido instaurada e Duda gostava de dizer que se sentia meio português por ter sido testemunha do renascimento histórico de um país após longo regime ditatorial.

Duda não demorou a se sentir em casa na nova pátria às margens do Tejo. Para isso, contava com um proverbial humor ferino, que lhe garantia conversas animadas e sempre diversificadas, era o tipo de pessoa que sempre tinha uma opinião para ofertar: De ioiô a navio, garantia. A verve era fruto direto do seu amor à leitura, não apenas aos livros, é bom ressaltar. Hospedar-se em sua casa era pedir licença ao seu acervo assustador de publicações: de luxuosas edições ao livrinho esbagaçado comprado no sebo, de um recorte de revista a uma folha amarelada batida a máquina. A primeira impressão era que ninguém conseguiria encontrar qualquer ordem naquela biblioteca/hemeroteca, mas ele sabia. Conhecia seus papéis como um cão a seu dono.

Letras, lidas ou escritas, sempre foram seu tesão, expressão que mesmo em desuso nunca deixou de pertencer ao seu vocabulário. Tanto que, ainda morando no Rio, topou entrar em sociedade com os amigos jornalistas Carlos Garcia, Francisco Bandeira de Melo e Cristina Tavares (ex-deputada) para ocupar um ponto comercial no então recém-reformado Pátio de São Pedro que, antes de ser destino cultural, era espaço para funilarias e depósitos de batatas.

O primeiro estabelecimento inaugurado, e o mais festejado, foi a Livraria Cordel. Sob os cuidados de Bandeira, a loja tinha a filosofia de divulgar todo tipo de literatura gerada em Pernambuco: desde o mais célebre livro de Gilberto Freyre até o mais humilde cordel de um artista popular desconhecido. Depois, o grupo abriu a Bodega21, onde era possível achar alimento e especiarias típicos da região, independente da época do ano. Quem quisesse uma comida junina em setembro, por exemplo, podia ir comprar na Bodega21. Em seguida, veio o Bumba-meu-bar que formava o centro de convergência da intelectualidade, da poesia e boemia no Pátio.

Duda atuou como uma ponte entre Brasil e Portugal, na qual Pernambuco era a faixa central de condução. Gastronomia ocupava grandemente o seu tempo. O visitante que era recebido em sua casa poderia contar sempre com uma feijoada à pernambucana, como na descrição de Gilberto Freyre: com feijão mulatinho e muitos legumes, inclusive couve e enchidos, como o chouriço português, uma hibridização fruto da marca indelével que lhe deixaram os patrícios. Foi ele quem trombeteou aos quatro ventos a necessidade de tornar patrimônio imaterial receitas da tradicional doçaria pernambucana, como o bolo de rolo e o Souza Leão, antes que algum aventureiro lançasse mão. Também a expressão O pior time do mundo, cunhada pelo colega Lenivaldo Aragão, ex-editor de esportes do JC, referindo-se ao Íbis, foi foi por ele internacionalizada.

Em 2003, Duda lançou o livro Meu Brasil, brasileiro, uma compilação de suas crônicas publicadas no jornal A Bola, que trazia trechos como este: -A vida não deve ser uma viagem para o túmulo, com a intenção de lá chegar são e salvo, com um corpo atraente e bem preservado. Melhor enfiar o pé na jaca, cerveja em uma mão, tira-gosto na outra, muito sexo e um corpo completamente gasto, totalmente usado, gritando: valeu! Que viagem!

No ano passado, o jornalista esteve no Recife, onde participou da Fliporto, na mesa A poesia no coração da música (e vice-versa), apresentando Alceu Valença. “Duda era um poeta, por isso fiz uma poesia e entreguei a Dora (Guennes, filha dele)”, declara Alceu. A canção Loa a Olinda (que faz parte do disco Andar, andar, de 1990, e Ciranda mourisca, de 2008), toma como inspiração o endereço de Duda em Lisboa: na Rua da Mãe d’Água, ao pé da Praça da Alegria. “Duda tinha o sentimento do mundo. Morava em Portugal, em uma rua em que só um poeta poderia morar”, resume Alceu.

http://www.esquerda.net/artigo/adeus-duda-guennes-1937-2011

http://va.mu/TjyE – Morreu Duda Guennes, jornalista brasileiro (1937-2011)