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Luciano Pires -

Você já ouviu esse termo “Zeitgeist”? É alemão e a pronúncia é “tzaitgaist”. Adotado pelos filósofos românticos alemães do século dezoito como uma tradução do latim genius (espírito guardião) e saeculi (do século), o termo foi popularizado pelo filósofo Hegel em seu livro Filosofia da História. Zeitgeist é traduzido para o português como “espírito do tempo”, significando – em outras palavras – o nível de avanço intelectual e cultural do mundo em uma época.

De acordo com os sábios, zeitgeist é a experiência de um clima cultural dominante que define uma era. Tentando simplificar: esse clima cultural é resultante das experiências dos indivíduos que compõem as nações que convivem numa determinada era. É o espírito daquela era.

Parece complicado, né? Deixa eu tentar de outra forma: anos atrás estive diante do desafio de criar uma campanha de motivação interna para a Dana, empresa na qual eu trabalhava. Havia um discurso muito bonito, calcado naquela história de visão, missão e valores, que dizia que a empresa era o máximo. Era honesta, consciente de sua importância no meio ambiente, socialmente responsável, focada na fabricação de produtos de qualidade, etc etc etc. Igualzinho àquele texto que você lê todo dia em sua empresa.

No fundo, esses textos são apenas promessas que não têm nenhum valor até que alguém as cumpra. E nenhum papel colado na parede garante que qualquer promessa será cumprida. O cenário era aquele que encontramos na grande maioria das empresas: promessas feitas por meia dúzia de cabecinhas, embaladas em papel de presente pelos caras do marketing e distribuídas ao mercado, enquanto as pessoas responsáveis pela entrega eram superficialmente comunicadas da promessa que havia sido feita.

No meio do processo de criação surgiu a luz, quando discutíamos um bordão batido: nós somos a Dana. Nós fazemos a empresa. O pulo do gato aconteceu quando invertemos a proposta: a Dana somos nós. Melhor ainda: a Dana sou eu. Esse passou a ser o mote da campanha, que trazia em si uma definição fundamental. Quando dizíamos que “nós somos a Dana”, compartilhávamos a responsabilidade. Quando dizíamos que “a Dana somos nós”, considerávamos que a empresa seria a resultante do comportamento do grupo. Mas com “a Dana sou eu” conseguíamos o desejado: a Dana só será uma empresa de qualidade se eu for um funcionário com qualidade. Só será responsável com o meio ambiente se eu for responsável com o meio ambiente. A Dana é o que eu decidir que eu sou. Ponto. O “zeitgeist” da Dana naquele momento – se fosse possível – seria a resultante dos valores, convicções, atitudes e esforços de todos os seus 5 mil funcionários naquele momento. Seria o espírito daquela era.

Volto então ao nosso zeitgeist. Se pudéssemos fazer uma experiência de retornar no tempo, por exemplo, para o começo dos anos cinqüenta, o espírito de nossa era seria o de um país esperançoso pelo futuro, cheio de boas notícias, com obras para todo lado, títulos mundiais no futebol, no tênis, no boxe e no basquete e um presidente que prometia fazer cinqüenta anos em cinco. Havia um entusiasmo evidente, que podia ser “sentido no ar”. Na segunda metade dos anos sessenta e durante os setenta, sentia-se no ar o clima de preocupação, da mão pesada dos militares, da censura. Mesmo com o país crescendo, o espírito da época seria o espírito do medo.

Nos anos oitenta e começo dos noventa, o espírito da época era o da abertura. O Brasil descobria a democracia, votávamos para presidente, acabávamos com a inflação e experimentávamos o começo do jogo da globalização. Eu diria que o zeitgeist da época era o da perplexidade, como já escrevi em texto anterior.

E hoje? Qual é o “zeitgeist” do Brasil? Sinceramente, não sei. Tentei aplicar aquele “o Brasil sou eu”, mas não deu certo. Nunca vi o país tão dividido, tão desigual. Pobres contra  ricos, pretos contra brancos, índios contra não-índios, ignorantes contra educados. E piorando.

O espírito de nossa época será esse? O do confronto? Que pena.

Perderemos para nós mesmos.