Artigos Café Brasil
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Cafezinho 125 – O chute
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Cafezinho 122 – Vira a chave
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Violência endêmica

Violência endêmica

Luciano Pires -

“O Brasil ostenta taxas tão altas há tantos anos que se pode falar em uma violência endêmica, e não epidêmica. É um problema grave e crônico. Nós concentramos 2,8% da população do mundo e 11% dos homicídios. Somos um país extremamente violento”. Samira Bueno, responsável pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, ao divulgar que o Brasil teve 58.559 mortes violentas em 2014, 2.681 a mais do que em 2013.

Vou publicar então um texto que faz parte de meu novo livro Me Engana Que Eu Gosto:

NO CALOR DA EMOÇÃO

No Brasil, após cada crime horrível sempre aparece uma autoridade ou especialista rodeado de microfones para dizer:

– Não podemos tomar decisões no calor da emoção.

É batata. Basta que a opinião pública emocionada comece a bradar por um endurecimento nas leis e lá vêm eles com a argumentação de sempre, o blá-blá-blá que atrasa as discussões e empurra com a barriga as mudanças. Até o próximo crime horroroso, quando a grita começa novamente.

Em 2013, conforme o Sistema de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, tivemos no Brasil 56.337* assassinatos, chegando à taxa de 29 mortos para cada 100 mil brasileiros. Mas números tão grandes não significam muita coisa, não é? A não ser que você seja parente ou amigo de umas das vítimas, não dá para tornar perceptíveis quase 60 mil homicídios por ano. Então vou ajudar a melhorar a perspectiva, olha só. São:

– 4.166 mortos por mês

– 960 por semana

– 137 por dia

– 6 por hora

– Ou uma pessoa assassinada a cada 10 minutos.

Deu pra entender? Enquanto você ler este texto, provavelmente alguém estará sendo assassinado no Brasil.

Um país que carrega nas costas 56 mil assassinatos por ano, ou quase 30 a cada 100 mil habitantes, não tem muita moral para pregar regras, não é? Deveria pedir falência social, enfiar o orgulho no saco e humildemente implorar ajuda aos países onde se mata uma fração disso.

Todos sabem o que precisa ser feito, não há segredos. E se não sabemos, copiemos!

Qualquer pessoa que já lidou com planejamento estratégico sabe que existem medidas a serem tomadas em situações de crise como, por exemplo, 56 mil assassinatos por ano. Se isso não é crise, o que será?

Quando topamos com um problema assim, é necessário elaborar um PAI- PLANO DE AÇÃO IMEDIATA, composto de ações que têm efeito imediato para enfrentar a crise. Em paralelo, começam a ser colocadas em prática as ações de médio e longo prazos.

A solução “melhorar a educação”, por exemplo, não tem nenhum efeito de curto e médio prazo sobre o problema da violência no Brasil. É fundamental para as próximas gerações, no looooooongo prazo, mas não resolve a crise.

Não sou especialista no tema segurança, mas pedi a meus dois neurônios que imaginassem algumas ações para um PAI – PLANO DE AÇÃO IMEDIATA PARA COMBATER A VIOLÊNCIA URBANA. São ideias que surgem agora, sem ordem de importância e sem mergulhar fundo no assunto, especialmente nas questões filosóficas e ideológicas. Alguém dirá que são óbvias, outros que são coisa de reacionário, outros ainda que são coisas de ignorante. Pois é…

Ações de efeito IMEDIATO. Deixe-me repetir: de efeito IMEDIATO.

Lá vão.

– Redução da maioridade penal. Por mim seria de 12 anos de idade, ou nem teria uma idade definida. Cada caso será um caso, julgado conforme as circunstâncias. O objetivo principal é tirar de circulação indivíduos perigosos e demonstrar às vítimas, suas famílias e à sociedade que a impunidade não é admitida.

– Privatização do sistema prisional. Com uma proposta generosa que garanta um bom retorno a quem investir nas penitenciárias. Mesmo que o custo monetário seja superior ao atual, valerá a pena diante do custo social que não contabilizamos hoje. Penitenciárias modernas, cabendo ao governo a função de fiscalizar o sistema. “Ah, Luciano, mas isso vai virar um negócio e o sistema vai prender mais gente. Inocentes vão para a cadeia só para gerar mais lucros!” Bem, é aí que o estado deve entrar, na construção de um sistema de fiscalização sadio, honesto, que dificulte a corrupção. “Ah, Luciano, mas você sabe que isso é impossível.”. Bem, hoje a noite sai de Cumbica um vôo para Helsinki.

– Combate ao tráfico de armas. É uma vergonha o que acontece hoje. Essa é uma função do governo que simplesmente não é cumprida por não ser considerada prioritária e talvez por ferir alguns interesses econômicos. Entendeu o que escrevi? O estado não cumpre sua responsabilidade e para isso não é preciso de mais leis. Basta gente interessada em cumprir as que já existem.

– Para as polícias: melhoria salarial, equipamentos de primeira linha, tecnologia de ponta e três providências fundamentais:

  1. sistema de recrutamento e seleção eficiente e moderno
  2. moderno e eficiente sistema de recrutamento e seleção
  3. moderno sistema de recrutamento e seleção, que seja eficiente

Ah, não tem dinheiro pra isso? Bem, mas os 40 bilhões de reais pra Copa do Mundo teve, não é?

– Ah, Luciano, mas são coisas diferentes! A Copa era urgente, né?

Pois é.

– Uma faxina ética no corpo policial e no judiciário, caçando impiedosamente os elementos corruptos.

– Implantação da política de Tolerância Zero nas áreas de maior índice de criminalidade. Não sabe como? Contrate uma consultoria com Rudolf Giuliani e a turma de Nova Iorque.

– Uma agressiva campanha de comunicação, criada e implementada pelo marqueteiro do PT, João Santana, para acabar com a imagem de que a policia é contra os pobres e oprimidos. A campanha combaterá o viés ideológico e motivará a população a trabalhar em conjunto com a polícia, entendendo-a como aliada e não inimiga.

Putz, mas que coleção de obviedades…

Pois é. Mas se é tão óbvio, por que não fazemos?

Sete sugestões de AÇÕES DE CURTO PRAZO (entendeu? EFEITO IMEDIATO) feitas por um bocó de mola, que surgiram assim, na hora, sem muito pensar a respeito, baseadas apenas no bom senso. Daria pra colocar muitas mais, inclusive essas todas que você tem.

É claro que a solução não está em ações táticas isoladas, como é o caso de baixar a maioridade penal, por exemplo. Isso por si só não resolverá o problema, mas é um começo de ação que, no mínimo, mostra que algo está sendo feito na busca por resultados diferentes, motiva as pessoas para a ação, serve como exemplo, cala a boca dos urubus e começa a reconstruir a confiança das pessoas na justiça.  É o somatório de pequenas ações táticas de curto, médio e longo prazos, alinhadas a uma estratégia clara que seja conhecida pela população, que mudará o cenário. Mas aqui no Brasil transformamos o que deveria ser uma discussão técnica num embate político-ideológico. Em blá-blá-blá.

Enquanto isso, morre mais um. E outro. E no final do ano serão 56 mil. Quer ver? Estas linhas fora escritas em março de 2015. Faça as contas de quantos meses se passaram até este momento, em que você está lendo este livro. Multiplique o resultado por 4.166 e você saberá quantos brasileiros foram assassinados entre o momento em que escrevi e o que você lê.

Fez a conta? (No momento da publicação deste texto, outubro de 2015, terão sido mais de 30 mil…).

Não é assustador, revoltante, indigesto, desesperador?

Pois é. Mas o Comitê está reunido com o Conselho, com o Coletivo, com a Sociedade, com o Grupo, com a Pastoral, viu? Discutindo o assunto. Na velocidade de 6 mortos por hora.

Já nos conformamos com isso e nos contentamos em viver na esperança de que um dia isso vai mudar. Mas esperança nunca foi estratégia.

Chega de mudanças incrementais, cosméticas e marqueteiras na gestão da segurança pública brasileira. Já passamos da hora de um choque de gestão, de competência, de prioridades! Um choque de coragem.

Algo precisa ser feito. Se não no calor da emoção, quando?

 

* Há uma discrepância de números conforme a fonte, o que só aumenta a certeza de que os números totais estão subestimados. 

Você encontra meu livro aqui: http://www.portalcafebrasil.com.br/loja/destaques/me-engana-que-eu-gosto.html