Artigos Café Brasil
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O dia seguinte
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Fact Check? Procure o viés.
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O impacto das mídias sociais nas eleições
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Mais discussão de ano de eleição: afinal o que é o ...

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LíderCast 124 – Sidnei Alcântara Oliveira
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O Estado brasileiro, desde 1500, tem se esmerado em atravancar qualquer mecanismo da administração pública com um emaranhado de processos burocráticos de alta complexidade, difícil interpretação ...

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Dois meio Brasis jamais somarão um Brasil inteiro.

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Uma Segunda Chance

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Luciano Pires -


UMA SEGUNDA CHANCE


Abalado com a cara de pau dos políticos e técnicos que teimam em “não tomar decisões no calor da emoção”, comecei a escrever um texto sobre a violência nossa de cada dia. Subitamente senti que estava sendo repetitivo. E decidi dar uma revisada e publicar outra vez um texto meu de 2003. Veja que tristeza é a atualidade dele…


Terminei de ministrar minha palestra O MEU EVEREST e desci para cumprimentar algumas pessoas. No meio delas vi um rapaz que não me era estranho, um pouco mais novo que eu, de ascendência japonesa, calado, tímido, aguardando sua vez. Uma pessoa que estava com ele disse:
– Luciano, este é o Masataka Ota. O pai do Ives.
Entrei naquela confusão mental. O rosto… Os nomes… Até ver estampada na camiseta a imagem de um japonesinho, lindo, sorrindo.
Ives Ota. O garotinho que em 1997 foi barbaramente assassinado e depois enterrado na sala de uma casa, no bairro de Vila Carrão, aqui em São Paulo.
Era o pai dele que estava em pé, à minha frente, emocionado, cumprimentando-me pela decisão de dividir com outros a experiência única de minha viagem ao Everest. Ao abraçar aquele pai, imaginei o tamanho da dor que ele passou. Fiquei sem palavras, com um nó na garganta e incapaz de me expressar. Aquilo era insólito. O que poderia significar uma viagem, diante da perda de um filho?
Alguns dias depois, mais uma vez emudecido, vi e ouvi pela televisão um pai que perdeu uma filha, a Liana, barbaramente assassinada por um bando liderado por um bandido de apelido Champinha:
– Ela era uma pérola. Que levaram embora.
Mesmo chocado, suas palavras me soaram familiares. Aquela imagem disputada pelos programas sensacionalistas era mais um pai, que a mídia exploraria até aparecer outro caso violento envolvendo jovens de classe média. E quando ouvi pelo rádio, no enterro do Felipe, os amigos entre lágrimas, cantando suas músicas preferidas, não suportei. Emocionei-me como agora, ao escrever estas linhas.
Que horror essa sensação de impotência. De saber que não há palavras, gestos nem discursos que expliquem, justifiquem ou consolem.
Lembro-me de ficar impressionado com o brilho nos olhos de Masataka Ota enquanto ele contava que, tempos depois daquele período de sofrimento, sua esposa, que na teoria não podia mais ter filhos, veio com a notícia de que estava grávida. A criança nasceu, e todos se impressionaram com as semelhanças. Era o Ives de volta.
Eles tiveram uma segunda chance.
Não sei se os pais da Liana e do Felipe terão mais uma chance. Não sei se os parentes daquela família queimada dentro do automóvel em Bragança Paulista terão mais uma chance. Não sei se os pais do João Helio, que foi arrastado pelas ruas do Rio até morrer, terão mais uma chance.
Só sei que é preciso fazer algo para que nenhum pai, mãe, filho, avô, avó, marido, esposa ou amigo, precise de mais uma chance.
Chega de estupidez!