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Cafezinho 14 – A sala, o piano e a partitura
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Cafezinho 13 – A sociedade da confiança
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Cafezinho 12 – Os tortos e os direitos
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Cafezinho 11 – Vergulho e Orgonha
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Se tenho orgulho de meu país? Sim. Mas também tenho vergonha.

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#TransgressaoEhIsso

#TransgressaoEhIsso

Luciano Pires -

Ontem publiquei no Facebook uma série de posts marcados com #TransgressaoEhIsso(Transgressão É Isso). Fui motivado a postar após ser bombardeado nos últimos dias por dezenas de manifestações de gente deslumbrada com humoristas ruins, performances pobres, arte de quinta categoria, rebeldes de araque e manifestações supostamente transgressoras em festivais e na televisão. É preciso ter memória. Uma coisa é “transgredir” diante de uma plateia a favor do transgressor. Outra coisa é transgredir num ambiente completamente contra aquilo a que você se propõe. Entenda “ambiente contra” como um público não receptivo que reagirá com raiva e até violência, um governo ditatorial e empresas e organizações sociais que pensam diferente de você. Num ambiente assim, os riscos eram imensos, inclusive para a integridade física do transgressor. Foi assim nos anos 30, 40, 50,60,70,80 e até 90, quando algumas pessoas corajosamente quebraram regras sociais e políticas, impactando enormemente na cultura brasileira.

Mas por que trazer de volta essas histórias antigas “com cheiro de naftalina” como alguns comentaram ontem? Porque é preciso conhecer a história, saber da luta, do sofrimento e até do sangue de quem lutou para que hoje pudéssemos estar aqui falando o que nos der na cabeça. Alguém lá atrás pagou caro para você ter a liberdade de vir aqui me xingar num comentário. Reconhecer essas pessoas e suas lutas nos inspira, motiva e, principalmente, ensina a honrar quem teve peito para enfrentar ameaças reais.

Vamos a eles:

1. Hélio Oiticica- 1968 – artista plástico, criador de performances anarquistas. Hélio frequentava a Mangueira e conhecia o mundo da marginalidade. Dentro de uma lógica de transgressão de valores burgueses, tinha certo fascínio pelos tipos marginais e malandros. Cara de Cavalo, acusado de matar um policial, foi uma das primeiras vítimas do esquadrão da morte carioca, em outubro de 1964. Hélio criou então um banner com a imagem do corpo do bandido e a frase “Seja marginal, Seja Herói”. Esta obra é marcante no movimento chamado de marginália ou cultura marginal, que passou a fazer parte do debate cultural brasileiro, a partir do final de 1968, durando até meados da década de setenta. O artista foi acusado de fazer apologia ao crime. Esse banner, exposto num show de Caetano Veloso, Gil e Os Mutantes na boate Sucata em 1968, foi uma das razões de Caetano ser “convidado” a deixar o Brasil junto com Gilberto Gil para cumprir exílio em Londres.

2. Raul Seixas – 1974 – Não precisa de apresentações. O baiano que tem as raízes no rock, surge como um meteoro para impactar a música brasileira com canções, letras (em parceria com Paulo Coelho) e performances absolutamente transgressoras. Mesmo quem não gosta dele sabe de sua importância.

3. Os Mutantes com Gilberto Gil – 1967 – Gil ganhou o segundo lugar no III Festival de Música Popular da TV Record, com a canção Domingo no parque acompanhado dos Mutantes, com moderno arranjo de Rogério Duprat, também premiado em primeiro lugar nesse quesito. Ao lado de “Alegria, Alegria”, de Caetano, Domingo no Parque se tornou um divisor na música brasileira. Gil buscava um som mais universal para a música que se fazia naquela época e usou elementos baianos, como o som do berimbau e a roda de capoeira, misturados com as guitarras dos mutantes. A história de José e João tem narrativa cinematográfica e o arranjo orquestral de Duprat quebrou tudo num tempo em que a música era bem quadrarinha.

4. Paulo Cesar Cajú – 1969 – Jogador de futebol, craque da bola, foi reserva na seleção que ganhou o tri em 1970. Palyboy, rico, circulava com carrões do ano, cabelo black power, namoradas brancas, jóias e… drogas. Marrento, briguento, não levava desaforo para casa e ajudou, ao transgredir as regras sociais da época, o movimento black a se firmar no país.

5. Dzi Croquettes – 1972 – Grupo performático criado pelo coreógrafo Lennie Dale, cujas apresentações andróginas transgressoras levaram seu primeiro espetáculo, Gente Computada Igual a Você a ser censurado pelo regime militar. O grupo exilou-se em Paris, onde fez grande sucesso.

6. Clovis Bornay – anos 1960 e 1970 – Museólogo e carnavalesco, criador dos bailes de carnaval de gala em 1937 e dos famosos concursos de fantasias, vários dos quais ele venceu. Foi o introdutor da figura do destaque nos carros das escolas de samba. Foi jurado de programas de televisão, sempre exuberante no figurino e nos trejeitos assumidamente gays.

7. Beija Flor de Nilópolis – 1989 – No desfile das escolas de samba na Sapucaí, a Beija Flor foi proibida por uma liminar obtida pela igreja católica de apresentar uma réplica do Cristo Redentor caracterizado de mendigo no enredo “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, do carnavalesco Joãosinho Trinta. A alegoria entrou na Sapucaí, mas coberta por sacos plásticos de lixo preto e uma faixa com a mensagem “Mesmo proibido, olhai por nós”. A Beija-Flor fez um desfile memorável e acabou como vice-campeã do carnaval, perdendo o título para a Imperatriz Leopoldinense.

8. Zuzu Angel – Anos 60 e 70. Estilista que ficou conhecida nacional e internacionalmente não apenas por seu trabalho inovador na moda mas também por sua procura pelo filho, militante, assassinado pelo governo e transformado em desaparecido político, quando enfrentou as autoridades da época e levou sua busca a se tornar conhecida no exterior. Em setembro de 1971, ela chegou a realizar um desfile-protesto no consulado do Brasil em Nova York, tecnicamente território brasileiro, pois uma lei da ditadura militar impedia que brasileiros criticassem o país no exterior. Fazendo o desfile no consulado – que foi pego de surpresa pelo tema – ela não podia ser acusada de criticar o país fora dele.

9. Vida Alves e Georgia Gomide – 1963 – No teleteatro A Calúnia, na TV Tupi, as duas atrizes protagonizaram aquele que seria considerado o primeiro beijo gay na televisão brasileira. É sim. 1963…

10. Abelardo Barbosa – o Chacrinha – Anos 1940 a 1980 – Apresentador de programas de auditório primeiro no rádio e depois na televisão, Chacrinha quebrou todas as regras. Não é preciso falar muito dele.

11. Dercy Gonçalves – 1991 – Na Marquês de Sapucaí, aos 83 anos, Dercy desfila no topo do carro abre-alas da escola Viradouro, com os seios à mostra. Ninguém foi mais transgressora que Dercy.

12. Caetano Veloso – 1968 – na terceira edição do Festival Internacional da Canção, o FIC, da TV Globo, Caetano Veloso participou já como um “tropicalista”, em função do álbum Tropicália ou Panis et Circensis, gravado por ele e outros artistas do recém-criado movimento, em maio do mesmo ano. Caetano trouxe para o festival “É Proibido Proibir”, uma canção que evocava um dos gritos da juventude que havia virado Paris de cabeça para baixo em maio de 1968, e que o próprio artista já enxergava com o poder de transformar sua apresentação em um acontecimento. A canção se classificou para a final paulista do festival, que foi realizada no teatro TUCA, da PUC-SP. Acompanhado pelos Mutantes, que traziam guitarras para a MPB, Caetano foi vaiado selvagemente. Enfrentou a plateia com um discurso inflamado que entrou para a história como um dos momentos mais emblemáticos dos tempos do governo militar. Aqui está o discurso: https://www.youtube.com/watch?v=Od_4eaH3J7A

13. Big Boy – anos 1970 – Newton Alvarenga Duarte, o Big Boy, brilhou nas rádios Excelsior, de São Paulo, e Mundial e Eldo pop, do Rio de Janeiro. Foi o mais famoso disc-jockey de sua época, mudando a forma de apresentar as músicas, trazendo para o Brasil artistas de vanguarda e transformando completamente a plástica das rádios brasileiras. Uma amostra: https://www.youtube.com/watch?v=cvfglk_xgnM

14. Secos e Molhados – anos 1970 – Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad formaram o Secos e Molhados no começo dos anos 70. Figurino e maquiagem extravagantes, a postura andrógina e provocativa de Ney e músicas e sonoridade fantásticas e letras que incluíam poemas de Cassiano Ricardo, Vinícius de Moraes, Oswald de Andrade, Fernando Pessoa, e João Apolinário, fizeram desta talvez a mais revolucionária banda brasileira de todos os tempos. Em fevereiro de 1974, realizaram um concerto no Maracanãzinho que bateu todos os índices de público jamais visto no Brasil. O estádio comportava 30 mil pessoas e outras 90 mil ficaram do lado de fora. Aliás, a apresentação de Ney Matogrosso no primeiro Rock In Rio em 1985 deixa qualquer “transgressor” de 2017 no chinelo.

15. Astolfo Barroso Pinto – anos 1960 até 2017 – Conhecida como Rogéria, Astolfo foi uma atriz, cantora, maquiadora e drag queen brasileira. Começou como maquiadora na TV Rio, de onde saiu para uma carreira longa no teatro, cinema e televisão. “Quiseram que eu fosse um transsexual na Espanha. Eu tenho uma mulher em mim, mas não sou. O Astolfo me dá muito orgulho.” E é o nome da família que sempre figurou em sua carteira de identidade, a despeito da diva loira que todos conhecemos. “Consegui fazer meu nome, ser respeitada, sou chamada hoje de senhora. Eu peitei e consegui artisticamente meu lugar ao sol. Já fui muito truculenta, mas não tenho mais idade.”

16. Leila Diniz – Anos 1970 – Ex professora, depois atriz, Leila Diniz quebrou tabus de uma época em que a repressão dominava o Brasil, escandalizou ao exibir a sua gravidez de biquini na praia, e chocou o país inteiro ao proferir a frase: “Transo de manhã, de tarde e de noite”. Considerada uma mulher à frente de seu tempo, ousada e que detestava convenções, foi invejada e criticada pela sociedade conservadora das décadas de 1960 e 1970 e pelas feministas, que consideravam que ela estava a serviço dos homens. Leila falava de sua vida pessoal sem nenhum tipo de vergonha ou constrangimento. Concedeu diversas entrevistas marcantes à imprensa, mas a que causou um grande furor no país foi a que deu ao jornal O Pasquim em 1969 onde, a cada trecho, falava palavrões que eram substituídos por asteriscos. Depois dessa publicação foi instaurada a censura prévia à imprensa, mais conhecida como Decreto Leila Diniz. Desbocada, insolente, independente, Leila morreu num acidente aéreo, voo JAL471, da Japan Airlines, no dia 14 de junho de 1972, aos 27 anos, no auge da fama, quando voltava de uma viagem à Austrália.

17. Fernando Gabeira – 1980 – O verão de 1980 foi o primeiro após a anistia política assinada pelo presidente João Figueiredo em 1979, e a volta dos exilados ao Brasil. Acostumado a ir à praia nu, na Grécia, o ex-guerrilheiro anistiado Fernando Gabeira, autor do livro “O que é isto, companheiro?” resolveu frequentar o Posto Nove, em Ipanema, com a peça emprestada de sua prima, a também jornalista Leda Nagle. Não se falou em outra coisa nas filas de cinemas e teatros, onde se viam os recém-liberados “O último tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, e “Rasga coração”, de Oduvaldo Vianna Filho. Gabeira e sua tanga buscavam discutir o machismo e movimentos pela defesa da variedade sexual. Em plenos anos de chumbo.

18. Jorge Lafond – anos 1970 a 2000 – Paulo Jorge Ribeiro Sousa Lima, saiu do corpo de bailarinos do Fantástico em 1974 para trabalhar como ator no Viva o Gordo de Jô Soares e posteriormente em especiais e novelas e até nos Trapalhões. Além disso, Lafond saía como destaque em carros alegóricos de escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Na maioria das vezes, desfilava seminu. Fez sua estréia totalmente nu, em cima de um carro alegórico da Escola de Samba G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense. Mas foi como Vera Verão, a “quase mulher” do humorístico A Praça é Nossa que Lafond ficará eternizado.

19. Clodovil e Denner – anos 1960 a 1980 – Num tempo em que o termo “fashion week” ainda nem era popular no Brasil, a grife Clodovil Hernandes era a paixão de um seleto grupo de mulheres abastadas. Ao lado do colega Denner Pamplona de Abreu, o estilista formou nos anos 60, 70 e começo dos 80 a dupla de luxo da alta-costura nacional. Com presença constante na televisão, ambos eram estrelas. Denner morreu cedo, mas Clodovil seguiu com programas de televisão e até como Deputado Federal, sempre assumindo sua posição como homossexual de forma elegante, contida e extremamente combativa. Mas sem se aliar ao gaysismo, movimento com cujos métodos não concordava. “Eu não tenho orgulho de ser gay. Tenho orgulho de ser quem eu sou.” Veja aqui: https://www.youtube.com/watch?v=YLnXn9LpwuU

20. Tony Tornado e Arlete Salles – final dos anos 70 e começo dos 80. Tony Tornado, cantor e ator, explodiu com a famosa BR 3, no V Festival da canção de 1970, tornando-se um dos ícones do movimento black no Brasil. No final dos anos 1970 casou-se com a atriz Arlete Salles, famosa pela participação no teatro, televisão e cinema. O casal inter-racial estampou capas e mais capas de revistas com seu “amor proibido”, título de uma fotonovela que ambos protagonizaram.

21. Madame Satã – anos 1940 a 1970 – João Francisco dos Santos, mais conhecido como Madame Satã, foi uma drag queen brasileira, vista como personagem emblemática da vida noturna e marginal carioca na primeira metade do século XX. A ficha criminal ao longo de sua vida é vasta: No total foram 27 anos e 8 meses de prisão, 13 agressões, 4 resistências à prisão, 2 furtos, 2 recepções de furtos, 1 ultraje público ao pudor, 1 porte de arma, resistência à prisão entre outros. Ele definia-se como “Filho de Iansã e Ogum, devoto de Josephine Baker”.

Esses foram os transgressores que lembrei, de memória. Muitos outros existem, se você lembrar, coloque aqui nos comentários.

#TutorialParaEntenderOPost Não estou interessado neste momento nas causas que esses brasileiros defendiam, mas em demonstrar que eles tiveram coragem, originalidade e, acima de tudo, persistência e um propósito em suas manifestações. Muito diferente das manifestações rasas e marqueteiras de muitos dos “transgressores” que hoje aí estão.

Transgredir é muito mais que pintar o rosto, urinar na rua ou expor uma pintura de mau gosto. Transgredir é ultrapassar os limites, o que é muito positivo quando quebra tabus e destrói preconceitos de uma cultura. Quando simplesmente quebra a lei, é só um crime.

Essa ambiguidade permite que a transgressão seja considerada crime conforme o olho de quem julga. A linha é fina, especialmente quando a “transgressão” é feita para vender um produto…

Isto vai virar um podcast.