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Todos os sonhos do mundo

Todos os sonhos do mundo

Luciano Pires -

Sou da geração de 1956, e fui estudar na capital aos 19 anos de idade. Recém-chegado do interior, eu era como aquele sujeito descrito por Álvaro de Campos: eu era nada, nunca seria nada, não podia querer nada. Mas à parte isso, tinha em mim todos os sonhos do mundo.

E parti pra briga. Fui para as ruas gritar “abaixo a repressão”! Eu sonhava com um Brasil livre, justo, com educação, saúde, trabalho digno para todos. Imaginava que quando nossa geração chegasse ao poder, tirando da frente aqueles velhos que não compreendiam a voz das ruas, teríamos o país que queríamos. E foi assim que eu cresci…

Mas algo deu errado.

Talvez o primeiro fator tenha a ver com a maturidade. Aqueles jovens que tinham todos os sonhos do mundo envelheceram. Foram aos poucos percebendo que nem tudo é tão simples como parece. É preciso muito mais que vontade e energia para fazer com que as coisas aconteçam. É preciso atender aos mais diversos interesses.

E tem a ambição. O ser humano quer mais, quer sempre algo melhor. No processo de busca pelo algo melhor, atropela o altruísmo. Ou olha em volta, vê todo mundo se dando bem, cansa de ser o otário e parte para fazer o que todo mundo faz. E entra no jogo…

Outro ponto: o esfacelamento das instituições. Esta semana vi Dilma Roussef sendo interrompida e vaiada enquanto discursava na marcha dos prefeitos. Na plateia, centenas de… prefeitos. Gente que exerce o mesmo poder de Dilma em suas microrregiões. Gritando, vaiando. Senti uma profunda tristeza ao ver a expressão da Presidente. Não importa se naquele momento ela merecesse, mas ver o líder máximo do país sendo interrompido e vaiado daquela forma é triste. Demonstra que se perdeu o respeito pela instituição Presidência da República. Pode-se argumentar que foi merecido, que isso e aquilo, mas era uma instituição sendo esfacelada. Perda total de confiança. Triste.

Mais um fator: o cultural. O brasileiro tem a cultura de contemporizar, de deixar pra depois, de perdoar, de dar o famoso jeitinho. Não gosta de punir erros, de chamar as coisas pelo nome que elas têm. Prefere jogar a culpa dos problemas em entidades inimputáveis. Ou em deuses e santos. E com isso nos conformamos em conviver com o torto, com o incompetente, com o mentiroso, jamais cobrando as promessas feitas.

Quer mais? Ignorância. Desconhecemos nossos direitos, trememos diante de uma autoridade, não sabemos como são as leis e os processos que orientam a sociedade. Não sabemos estabelecer relações de causa e consequência. Ficamos desbundados diante de uma celebridade e assanhados diante de uma promessa, por mais absurda que seja. Achamos que porque apareceu na Globo é verdade. E assim vamos comprando gato por lebre.

Para nós, política é coisa de bandidos, desonestos e aproveitadores, não é para quem tem boas intenções. Queremos distância dela e, agindo assim, deixamos o trono vago para os oportunistas. E depois fazemos aquilo que mais sabemos: reclamamos.

Tem muito mais, mas vou resumir: tínhamos todos os sonhos do mundo, mas falhamos ao não transformar os sonhos em metas, ao não colocar em prática um plano de ação, ao não permanecer na luta. Quando nos formamos, tivemos que trabalhar, ganhar a vida… e ficamos ocupados demais com nossos sonhos individuais, cada um por si.

Os sonhos comuns ficaram para trás. E então algo deu errado.

Haverá aí uma lição?

Luciano Pires