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Terror sagrado

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Luciano Pires -

Bem, como no Brasil ainda não temos uma lei que defina claramente o que é terrorismo, vamos a quem tem. Diz o Capítulo VIII, Seção 802 do USA Patriot Act, o ato do Congresso norte americano transformado em lei por George Bush imediatamente após o atentado às torres gêmeas em 2001:

“Ato de terrorismo é qualquer atividade que (A) envolva um ato violento ou perigoso para a vida humana, que seja uma violação das leis criminais dos Estados Unidos, ou que seja uma violação criminal cometida sob a jurisdição dos Estados Unidos ou qualquer Estado; e (B) com a intenção aparente de (i) intimidar ou coagir a população civil; (ii) influenciar a política de um governo através da intimidação ou coerção; ou (iii) afetar a conduta de um governo utilizando assassinatos ou sequestros.”

Essa definição não dimensiona o tamanho do ato terrorista. Um indivíduo armado com uma pistola que atire contra uma instalação do governo, por exemplo, já está caracterizado como terrorista. Ataques de dimensões catastróficas são as exceções que ficam permanentemente gravadas na memória das pessoas, mas qualquer levantamento de atos terroristas mostrará que a maioria absoluta são pequenas ações que podem ser confundidas com crimes comuns. O que as diferencia são as motivações políticas de seus autores.

Motivações políticas. Mas aí surge outro elemento: a religião.

Diferente dos terroristas dos anos 70, 80 e 90, como os grupos que sequestravam aviões, roubavam bancos e atacaram durante as olimpíadas de 1972 em Munique, os terroristas islâmicos hoje à frente das ações mais impactantes não perseguem simplesmente objetivos políticos, mas sagrados. Aliás, não diferenciam um do outro. E isso muda completamente a equação.

Terroristas com motivação religiosa executam suas ações violentas como uma espécie de batalha espiritual. Seus atos bárbaros obedecem a uma ética, eles agem em nome do divino. Para eles, violência e mortes são apenas ferramentas para atingir uma transcendência moral e espiritual em direção à purificação da raça humana, à imortalidade, à uma união com seus deuses, sejam eles cristãos, islâmicos, hindus ou qualquer outra vertente religiosa.

Quem considera sagrado algum aspecto de sua vida, coloca nele maior prioridade, investe mais energia e esforços e obtém um propósito maior do que com atividades consideradas não sagradas. Definir que algo é sagrado, portanto, tem impactos emocionais e comportamentais significativos. Valores considerados sagrados têm precedência sobre o que seriam preocupações “mundanas”.

É nessa seara que está a “jihad”, termo árabe que significa “luta”, “esforço” ou empenho, conceito que tem dois significados. Primeiro o interno, do esforço pessoal, espiritual e introspectivo para, em nome de Alá, controlar seus impulsos, sua ira e perdoar os pecados. Depois o externo, guiado pelas palavras de Maomé que estimulam o uso de meios combativos para difundir a paz e a justiça da religião islâmica para quem não está sob sua influência.

A Jihad é, portanto, uma visão de mundo compartilhada por bilhões de pessoas de múltiplas nacionalidades que professam a fé no islamismo. As pacíficas entendem jihad como a busca por se tornar um ser humano melhor, as fundamentalistas como a justificativa para os banhos de sangue em nome de Alá.

Aos olhos dos fundamentalistas, aquilo que consideramos como atos de terror são necessidades espirituais, acima do amor e dos deveres para com a família, por exemplo. Nada deve desviar o foco dos desígnios de Deus, portanto o “terror sagrado” não admite negociações. É por isso que muitas medidas de contraterrorismo com ameaças e tentativas de negociação apenas ampliam o ódio dos fundamentalistas. Pedir que abram mão de seus valores sagrados em nome de poder político ou ganhos financeiros é entendido como tentação do diabo.

Estamos perplexos com a revelação de que jovens de várias nacionalidades saem de suas casas, especialmente na Europa, para se juntar ao Estado Islâmico, por exemplo, recrutados através de conexões familiares, grupos de jogadores on-line, salas de chat e clubes. Jovens que, sem perspectivas de futuro, estão sujeitos à santificar causas e terminar explodindo a si mesmos e a inocentes num restaurante ou clube em Paris.

Nada disso justifica os banhos de sangue que temos assistido, mas explica.

O terror sagrado não é simplesmente o velho terrorismo com motivações ou retórica diferente.

É infinitamente mais perigoso.