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Resignação. Refletindo sobre essa palavrinha tão presente no Brasil dos dias atuais, me lembrei de Mário Benedetti, que foi um dos maiores escritores e poetas uruguaios, autor de mais de 80 livros. Faleceu em 2009. Uma de suas novelas, A Trégua, é um tratado contra a mediocridade. Foi lançada em 1960 e tem um trecho que chamou a atenção:

“Ele me perguntou se eu achava que tudo estava melhor ou pior do que cinco anos atrás, quando ele foi embora. `Pior`, responderam minhas células por unanimidade. Mas depois tive que explicar. Ufa, que tarefa. Porque, na verdade, a corrupção sempre existiu, o acordo também, as negociatas, idem. O que está pior, então? Depois de muito espremer o cérebro, cheguei à conclusão de que o que está pior é a resignação. Os rebeldes passaram a semi-rebeldes, os semi-rebeldes a resignados.(…)`Não se pode fazer nada`, as pessoas dizem. Antes só quem queria conseguir algo ilícito é que subornava. Agora quem quer conseguir algo lícito também suborna. E isso significa relaxo total.”

Quando Benedetti escreveu em 1960 que “o que está pior é a resignação”, o mundo estava claramente dividido. Havia a esquerda e a direita, a guerra fria, Fidel acabara de derrubar Fulgêncio Batista em Cuba e o mundo, especialmente a juventude, estava focado no ideal romântico dos guerrilheiros cubanos. Benedetti escreveu em plenos anos de ebulição política e social. Se ele achava que as pessoas estavam resignadas naquela época, o que acharia hoje, quando tudo é balcão de troca? Quando vale tudo para obter ou manter o poder? Quando se tornou profética a frase do romancista britânico Somerset Maugham: “A coisa mais útil sobre um princípio é que ele pode ser sacrificado pela conveniência”?

Pois então. Mas o bicho pega mesmo é na continuação daquele texto do Benedetti. Cuidado, pode ser angustiante:

“Mas a resignação não é toda a verdade. No princípio foi a resignação; depois, o abandono do escrúpulo; mais tarde a co-participação. Foi um ex-resignado quem pronunciou a famosa frase: `Se os de cima levam o deles, eu também levo o meu`. Naturalmente, o ex-resignado tem uma desculpa para sua desonestidade: é a única forma de os outros não tirarem vantagem dele. Ele diz que se viu obrigado a entrar no jogo, porque caso contrário seu dinheiro valeria cada vez menos e seriam cada vez mais numerosos os caminhos corretos que se fechariam para ele. Continua mantendo um ódio vingativo e latente contra aqueles pioneiros que o obrigaram a seguir esse caminho. Talvez seja, no final das contas, o mais hipócrita, já que não faz nada para se safar. Talvez seja também o mais ladrão, porque sabe perfeitamente que ninguém morre de honestidade…”

Putz. No princípio foi a resignação; depois, o abandono do escrúpulo; mais tarde a co-participação… Sacou? Quem escolhe ser resignado está no caminho da co-participação na bandalheira. Ou de assumir o que disse o iluminado, visionário e genial Marx, o Groucho, como que complementando a frase de Somerset Maugham:

“Estes são meus princípios. Se você não gostar, tenho outros.”

No fim é sempre ela… a escolha.

Luciano Pires