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Precisamos reaprender a olhar
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Cafezinho 98 – Os poetas da corrupção
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Cafezinho 95 – Banco traseiro
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Sobre posse e acesso

Sobre posse e acesso

Luciano Pires -

Lancei um sistema de assinaturas para o Podcast Café Brasil, um modelo no qual o interessado paga mensalmente dez reais e baixa os mesmos quatro programas semanais que sempre recebeu gratuitamente.

– Luciano, a pessoa paga para receber o que pode ter de graça? Tá ficando louco?

Bem, a proposta é a seguinte: aquilo que você acha que agrega valor em sua vida merece ser remunerado. Se você obtém conteúdo, aprende, cresce, se diverte com os artigos daquele blog, os vídeos daquele youtuber, os posts daquele crítico ou os áudios daquele podcaster, por que não remunerar o trabalho dele/dela?

Como era de se esperar, a discussão foi grande, mas três meses depois de lançar a assinatura, temos hoje 400 pagantes que fazem parte da Confraria Café Brasil e que recebem, mensalmente, além dos 4 programas, alguns presentinhos: uma versão especial do programa, e-books, ingressos para eventos, arquivos exclusivos e mais coisinhas que vêm por aí. Uma forma de agregar ainda mais valor à assinatura.

Os comentários que esses pagantes fazem são fascinantes. Praticamente todos falam da gratidão pelos benefícios que o Podcast traz, da satisfação de contribuir, de se sentir parte de um processo e que eu nem deveria me preocupar em enviar presentinhos extras.

E eu acho o máximo. Aliás, faço o mesmo com meia dúzia de outros produtores de conteúdo com os quais colaboro religiosamente.

No meio da discussão, recebi um comentário do ouvinte Milton Braga:

– O problema dos podcasters é que seu produto não vem numa caixinha, nem é colocado numa vitrine de shopping. Se fosse, acredito que as pessoas estariam pegando empréstimo para comprá-lo. Não sabem elas que seu “produto” é muito mais importante e vai durar muito mais que uma bolsa de marca famosa que hoje a atriz da novela das 8 usa.

Pois é… O Milton fala de percepção de valor, de um tema que me fascina, a transição do nosso atual modelo de “posse” para “acesso”. Não discuto na hora de pagar dez reais numa lata de cerveja quente na balada, quinze reais para estacionar o carro, dez reais para o flanelinha, trezentos reais numa bermuda, dois mil reais num aparelho celular, mas não aceito pagar para ler um artigo, para ouvir um programa. Só dou valor àquilo que posso pegar, ver, guardar no armário. Só valorizo a posse.

O sujeito paga 50 reais por um DVD que ficará parado num canto, empoeirando, mas resiste pagar menos de 20 reais pela assinatura mensal da Netflix, que não ocupa espaço e lhe permite assistir filmes infinitamente… A caixinha de plástico, a embalagem, o CD em mãos, a sensação de que ele é só seu, essa é a percepção de posse que está mudando, especialmente em razão da tecnologia, e que alterará completamente nossos hábitos de consumo.

Passa a valer não a posse, mas o usufruto dos benefícios que o produto traz. Não quero ser dono da caixinha ou do disco de plástico, que gasta recursos e energia para ser produzido, ocupa espaço, gera embalagem que tenho que jogar fora… Quero é o prazer de assistir ao filme quando e onde quiser, apenas apertando um botão. Não preciso do filme, preciso do acesso a ele. Não preciso do automóvel, preciso ser levado de um lugar para outro.

É essa percepção da posse, que é milenar, que começa a mudar, e juntamente com ela, nossos hábitos de consumo. Aplicativos como o Netflix, serviços como o Uber  e assinaturas como as que eu propus para o Podcast estão quebrando resistências, mudando culturas e criando uma nova espécie de consumidores.

Os que aprenderam a valorizar o acesso, não a posse.