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Quando criança em Bauru, eu ia religiosamente às missas dominicais, participava das procissões e de eventos organizados pela paróquia, seguindo as orientações de minha mãe. Mas cresci, e aos 18 anos deixei de ser católico praticante e passei a ser crítico silencioso daquele universo religioso. As parábolas me pareciam infantis, os conceitos eram fantasiosos, o pedido para acreditar sem comprovar me parecia falho. Deixei de lado a prática religiosa e segui minha vida, mantendo a certeza de que os valores cristãos que fizeram parte de minha infância e juventude foram e são fundamentais. Não pratico os mitos e ritos, mas os respeito e nada tenho contra quem pratica.

Aí aconteceu uma coisa engraçada. Conheci padres, pastores e monges, alguns deles brilhantes, com cultura privilegiada, capazes de uma compreensão profunda sobre o ser humano e a sociedade. E eu olhava aquelas pessoas e pensava: “Como é que um cara tão estudado, tão inteligente, tão culto, acredita nessas coisas de religião e fé?”. Eu seguia Carlos Drummond de Andrade que dizia que “A fé dispensa o raciocínio”. Aquilo me incomodava, e um dia questionei um clérigo. A resposta foi instigante:

– Luciano, não acredito nessas coisas “apesar” de ter estudo. Acredito justamente “por ter” estudo.

Era demais para minha mente pragmática, mas aquela resposta me deixou em dúvida e com uma certeza: talvez eu chegue à prática religiosa quando – e se – alcançar um patamar de consciência capaz de compreender as coisas que transcendem a realidade. Quando eu for capaz de valorizar o universo espiritual em minha vida. Talvez.
Trago esta reflexão na esteira dos rolezinhos, aquelas reuniões de centenas ou milhares de jovens da periferia que combinam pela internet de se encontrar num Shopping Center também da periferia para “dar um rolê”. Os jovens que vão aos shoppings são os mesmos que sempre frequentaram aqueles locais, vizinhos do segurança, da vendedora, do atendente da lanchonete, da bilheteira do cinema, da dona Maria da limpeza e de quem está circulando por lá. O que extrapola é a dimensão do “rolezinho”. Centenas, milhares de jovens mobilizados em conjunto dentro de um ambiente são uma panela de pressão. Como uma torcida organizada, para um “rolezinho” descambar em correria, roubos e pancadaria, só é necessário um idiota, esteja do lado que estiver. Daí a necessidade de precauções. E também tenho a sensação de que esse movimento possa ser ferramenta de certos grupos aí…

Quando manifestei minha opinião, recebi as críticas costumeiras dos que veem no “rolezinho” uma luta de classes, elites tentando impedir que os pobres frequentem os shoppings, racismo e aquelas bobagens de sempre. Mas uma crítica foi especial. A pessoa dizia não entender como é que eu, um sujeito “lido e estudado” podia ter uma opinião tão errada a respeito de um assunto.

Lembrei do padre lá.

Não tenho “opiniões erradas” apesar de ter lido e estudado. As tenho exatamente por ter lido e estudado. Cheguei a elas depois de pesquisar, ler, refletir e tirar minhas conclusões. Leu bem? Minhas conclusões. Minhas. O “errado” para ele é o correto para mim.

Mas será que não posso estar errado? Claro que sim! Entretanto, acredito estar muito mais perto da verdade do que os que veem os “rolezinhos” como uma questão de fé.

Esses manipulam. Ou não raciocinam.

Luciano Pires