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Em 1946 o deputado Edmundo Barreto Pinto deixou-se fotografar para a revista O Cruzeiro vestindo um fraque e cuecas samba-canção. Prometeram que a foto seria publicada apenas da cintura para cima. Não foi. E o deputado perdeu o cargo por falta de decoro parlamentar.

Outra cueca, esta mais recente: o senador Eduardo Suplicy desfilou pelos corredores do Congresso usando uma cueca vermelha por cima do terno, numa brincadeira promovida pelo programa Pânico Na TV. A coisa pegou mal, o deputado pediu e a reportagem não foi ao ar no programa. Mas a foto apareceu em vários jornais e revistas. E como neste novo milênio estamos muito mais tolerantes, a coisa ficou por isso mesmo, sem maiores consequências.

Mas mostrando que a tolerância só vale para os homens, vimos o caso da Geysi que foi à universidade com um vestido curtíssimo. A moça foi cercada por centenas de estudantes, xingada e ameaçada. Vídeos mostrando o acontecido foram parar no Youtube, dali para os jornais, revistas e televisão e pronto. Geysi Arruda, a moça do microvestido, foi expulsa da universidade e depois readmitida e o Brasil parou para discutir o assunto. Sorte dela, que apareceu em dezenas de programas de televisão e revistas masculinas, fez uma repaginação, virou destaque da escola de samba Gaviões da Fiel e está curtindo o “ser celebridade” tão caro a estes novos tempos.

Cuecas e microvestidos ocupando o imaginário popular parecem banalidades, não é?  Não são. O lance das cuecas e do vestido curto não é a doença. É o sintoma.

A cueca de 1946 mostrou a doença da quebra de confiança, uma promessa não cumprida causando uma vítima, o deputado. A cueca de 2009 mostrou a doença do vale tudo para uns segundinhos de exposição na mídia. E o microvestido de 2009 exibiu a doença da intolerância que pensávamos já estar ultrapassada.

Mas quero mesmo é fazer umas perguntinhas marotas… Quero saber os porquês de cada um desses “escândalos”.

Em 1946, foi por causa do deputado que vestiu a cueca ou do jornalista que o enganou? Em 2009 foi por causa do senador que vestiu a cueca ou do pessoal do Pânico que o induziu? E no caso da universidade? Foi por causa da moça que usou o vestido curto ou da intolerância dos agressores?

Parece lógico, não é? Se o deputado e o senador não tivessem concordado em vestir as cuecas, nada teria acontecido. Se a Geysi não tivesse colocado o vestido provocante, nada teria acontecido. Portanto a culpa é deles.

Mas cuidado! Esse raciocínio é perigoso. Ele também serve para desculpar o MST que invade e depreda a fazenda cujas terras “são da união e foram invadidas pela Cutrale”. Serve para desculpar a torcida uniformizada que trucida o torcedor do time contrário que “tava provocano nóis”. Serve para inocentar o sujeito que rouba o celular que “tava largado no banco.”. Serve para aliviar a culpa do assassino conforme a qualificação da vítima. Serve para justificar o estupro da moça de minissaia. Serve para desculpar a mentira e a corrupção, pois “no governo anterior era até pior”.

Nestes tempos de novilíngua, de “mentiras simbólicas” e de gente ideologicamente estressada, cuidado com o julgamento dos outros.

Antes do “como”, preocupe-se em saber os porquês.

 

Luciano Pires