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Quero meu vermelho de volta.

Quero meu vermelho de volta.

Luciano Pires -

E São Paulo amanhece com alguns monumentos emporcalhados com tinta, entre eles o Monumento às Bandeiras, escultura de Victor Brecheret em frente ao Parque do Ibirapuera. Alguém despejou latas de tinta azul e amarela na base e um vistoso vermelho em cima. Serviço de estúpidos.

Recebi no celular a foto do monumento vandalizado enquanto estava na estrada. Era uma imagem de uma tela de TV, cheia de brilhos, onde só consegui ter certeza do vermelho.  E publiquei um post no Facebook (http://bit.ly/2dCeF4D) :

“Bom dia? Este é o Monumento às Bandeiras, em frente ao Parque do Ibirapuera. Amanheceu assim: lambuzado de tinta vermelha. Que doença é essa?”

Pronto! Vieram os comentários se queixando de que, cego para outras cores por meu ódio ao PT, só vi a cor vermelha. E também os comentários de quem viu naquele vermelho, um partido. Como se fizesse alguma diferença a cor com a qual os babacas emporcalharam o monumento! Mas para a maioria dos que comentaram meu post, mais importante que discutir o vandalismo é discutir a motivação ideológica dos pichadores. E, é claro, a minha, o daltônico político que só vê a cor vermelha.

O vermelho é a cor da energia, da paixão e da ação. É uma cor quente, associada à nossas necessidades físicas e vontade de viver. O vermelho energiza, excita as emoções e motiva para a ação, é a cor da sexualidade, estimula paixões, amor e sexo pelo lado positivo, e vingança e ódio pelo lado negativo. Mas esse é o vermelho do mundo físico, relacionado às sensações provocadas em nossos olhos pela propriedade dos objetos de refletir a luz. Rosas vermelhas, sol amarelo, céu azul, folhas verdes, nuvens brancas. O vermelho é uma cor linda, que adoro.

Mas há outro vermelho, o da cor política. Parece que a coisa vem da idade média, quando os navios em combate usavam uma flâmula longa e vermelha, significando a luta até a morte. Não é difícil imaginar que a inspiração veio do vermelho do sangue que corre em nossas veias, que ocupa nosso coração, que irriga nosso cérebro. Ao que consta, foi na revolução francesa, sempre ela, em 1789 que a bandeira vermelha passou a representar os ideais do que viriam a ser o socialismo e comunismo. E no Brasil, você sabe quem herdou o vermelho como cor política.

Voltando então ao que realmente interessa: ao substituir a cor que a reflexão das luzes produz em nossos olhos, pela cor política, a ação dos vândalos cai para segundo plano e passamos a discutir as motivações políticas. E aí, meu caro, cabe tudo. Não tem gente que defende como ação legítima botar fogo em orelhão e quebrar bancos da praça?

Pois é. Hoje em dia, quem sai com uma camisa vermelha porque gosta do vermelho, tem de tomar cuidado. Sua intenção de enviar vibrações de energia para as pessoas será interpretada como um manifesto político. E eu, que já tive calça vermelha, camisa vermelha, meia vermelha, gravata vermelha, não tenho mais. A coisa está tão louca que recentemente fiz um gráfico com um quadrilátero com dois lados, um vermelho, outro verde e fui questionado sobre a razão de justamente “aquele” lado ser vermelho. E se o vermelho estivesse do outro lado, eu seria questionado igual.

A reação ao meu post me deu certeza de que o PT e suas franjas não roubaram de nós apenas dinheiro, orgulho, esperança, empregos ou dignidade.

Roubaram até a cor vermelha.

Quero meu vermelho de volta.