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Por que eu?

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“… sim mas naquela época se falava em câncer gay, eu me lembro da propaganda onde aparecia AIDS e um carimbo: morte! Aí eu disse para ele:

– Eu faço o exame sim, eu sei quem eu sou.

Daí ele me olhou sério e disse assim:

– A senhora também pensa que AIDS tem alguma coisa ligada com moral e conduta?

Eu olhei para ele rindo:

– E não tem?

Ele disse:

– Não senhora.

Foi a primeira vez que alguém me disse que HIV ou AIDS não tinham relação nenhuma com moral e conduta. Mas eu achei graça daquilo tudo e ele me passou a requisição para o exame. Depois eu contei para o meu filho, dando risada e comentando que o médico me levou para outra sala, constrangido de falar na frente dele. E aí nós saímos rindo os dois. Naquela época eu não sabia de nada, de coisa nenhuma a respeito de HIV, que não fosse Cazuza. E eu fui fazer o exame no plano de saúde. Peguei no laboratório meu resultado, abri e lá estava escrito: reagente. E a gente se protege pra não sofrer…  Eu digo:

– Legal, reagente, meu organismo reagiu, não tenho nada.

Era o que eu queria. Saí caminhando. Era um dia lindo de sol e no meio do caminho eu disse:

– Só um pouquinho… mas se deu reagente é porque reagiu! E se reagiu é porque é positivo!

Aí eu parei, abri a bolsa, olhei de novo e as letras pequenas diziam: reagente = positivo.

Bom eu brinco que a sensação que eu tive é a de história em quadrinhos, eu passei a ter uma nuvem negra sobre minha cabeça, querendo entender como eu, que tinha tido três homens na minha vida, estava com HIV. Eu não era promíscua, eu não consegui entender isso… mas por que eu? Anos depois fui descobrir que essa é a pergunta que todos nós fazemos quando temos um diagnóstico positivo: por que eu? E aquela nuvem negra, aquela coisa, eu fiquei caminhando pelo meu bairro…

Aí fui para casa, peguei o telefone e liguei para o meu marido. Só consegui dizer:

– Carlos, eu estou com AIDS!

Eu nem sabia a diferença entre ter AIDS e HIV, na realidade eu estava só com HIV. Deu aquele silêncio do outro lado e ele só consegui dizer para mim:

– Tô indo para casa.

Aí meu gordo chega e eu esperando que ele me desse um abraço gostoso e dissesse: ‘vai passar’… Só que eu não contava com o desconhecimento que se tinha daquilo tudo e que ele também tinha medo. Isso eu gosto de falar, porque muita gente se separa por causa de uma situação dessas. A gente tem que deixar as coisas passarem. Ele entrou desesperado e disse:

– Eu sou filho único! A minha mãe não caminha, depende de mim para tudo! E agora eu vou morrer!

Na cabeça dele, ele estava infectado também. Ele olhou para mim e disse:

– Tu é uma assassina!

Pô ele sabia que eu não sabia de nada! Quando ele disse ‘tu é uma assassina’, minha filha saltou e começou a bater nele. Anos depois a gente ficou sabendo que ela quebrou três costelas dele. A gente nem imaginava nada daquilo, mas foi assim uma baixaria aquilo, um pavor…”

 

Tá pensando que é enredo de novela? Mexicana? Não. Essa é uma história real, contada por Bia Pacheco no LíderCast 50. Bia foi a primeira mulher a assumir publicamente que tinha o vírus da AIDS no Rio Grande do Sul, na década de 90. E sua história é um misto de emoções, tragédia e superação. Uma lição de vida que, nesta semana em que celebramos o Dia Mundial de Combate à Aids, convido você a ouvir clicando aqui: http://bit.ly/LiderCast50