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Pequenos Abnegados

Pequenos Abnegados

Luciano Pires -

Em meu texto anterior, falei dos milhares de pessoas que, praticamente sozinhas, desenvolvem projetos de inclusão social e de mudanças na sociedade. Pequenos abnegados que dedicam parte de sua vida para mudar o futuro dos menos afortunados. E falei também de milhares de entidades que desenvolvem projetos mais ou menos ambiciosos por todo canto.
Como palestrante, viajo este país de cabo a rabo e conheço uma realidade muito distante daquele Brasil inviável que a televisão despeja em nossas salas toda noite.
E terminei o texto dizendo que a grande pauta de discussão no Brasil deveria ser “Conectividade”. Conectividade!
Esse termo entrou na moda com a chegada dos computadores. Normalmente define-se conectividade como a capacidade de comunicação dos dispositivos de hardware ou software com outros hardwares ou softwares. Mas quero sair do mundo dos computadores para entrar no mundo dos sentidos e atitudes. No mundo de carne e osso, de sentimentos e percepções.
Lembram-se do “a união faz a força?”. Ouço esse ditado desde pequenininho e sempre o reconheci como uma receita para fazer acontecer. Sozinho, consigo muito pouco, mas se eu me juntar a outras pessoas na busca de um mesmo objetivo, fico mais forte e aumento minhas chances de chegar lá. Os “príncipes” conhecem muito bem esse jogo. Adotam a política do “dividir para conquistar”. Sabem que grupos ordenados e coordenados são perigosos. E fazem de tudo para que eles não se formem. Mas, espertamente, ajudam a formação dos grupos que são de seu interesse. É assim que o Brasil encontra-se hoje nas mãos de minorias barulhentas mas organizadas, que definem os rumos da maioria silenciosa e… desconectada. Conectividade!
Já pensou se aquela ONG da Bahia se juntar a outra ONG do Rio Grande do Sul? E se o grupo de trainees da Amcham se juntar ao comitê de jovens executivos da Fiesp? Que também se juntaria ao comitê equivalente de Santa Catarina, de Mato Grosso, do Rio Grande do Norte? E se o Fórum Criativo Brasileiro, lá de Aracaju, juntar-se àquele grupo que discute inovação em Joinville?
Mas infelizmente eles não se falam. E quando se falam, raramente conseguem combinar suas idéias e prioridades. Dificilmente conseguem superar os jogos políticos, o sentimento de “minha idéia” e a necessidade de disciplina coletiva. Não conseguem a tal “liga”. E voltam às suas casas onde, mais uma vez sozinhos, tentarão derrubar castelos.
E assim temos milhões de pequenos esforços honestos e válidos sendo devorados pelo sistema que destrói as tentativas de fazer acontecer dos pequenos abnegados. Canso de ver gente com brilho nos olhos, com energia e tesão, dizendo-se cansada. Canso de ver projetos deliciosos consumindo o tempo e os recursos de milhares de pessoas e obtendo um resultado que pouca mudança substancial traz ao país. Projetos que resolvem problemas de umas poucas pessoas, mas jamais atingem a raiz das questões. Para isso, há que se ter força. Poder. Capacidade de mobilização. Voz. Impacto. Um vetor econômico que revele ganhos se a situação mudar.
Mas como conseguir percepção de valor para as questões intangíveis? Isso é praticamente impossível de se obter quando você é apenas um pequeno abnegado – não é parente de autoridade, sobrinho do empresário, não tem trânsito na mídia e nem dinheiro no banco. Como são 99% dos pequenos abnegados.
Conectividade, meus caros. Só assim os milhões de pequenos abnegados se transformarão na grande maré de mudanças capaz de colocar este país nos trilhos.
Mas o desafio é grande demais. Exige generosidade. Senso de comunidade. Disciplina. Capacidade para trabalhar em grupo. Grandeza para aceitar idéias que vêm de outras pessoas. Honestidade de propósito. Ética…
Enfim, os atributos que fazem os grandes abnegados.