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PASSARINHOS 



Ilustração de Eldes -www.eldes.com

São três. Piando o dia todo, num ninho construído na janela do meu escritório. Acho que são sanhaços. “Preciso mostrar pras crianças!”.



Aí lembro que meu filho tem vinte e um anos, não vai se animar a correr pra ver os passarinhos. Mas a outra “criança”, minha filha, ainda tem quinze. Pode dar samba. Lá vou eu… Falo dos passarinhos, esperando uma reação de criança de seis anos, que arregala os olhos, corre pra ver e nos enche de perguntas. Mas ela está ocupada no MSN, trocando mensagens ininteligíveis com outros vinte e quatro amigos e amigas. Ao mesmo tempo.



Solta um grunhido. Parece ser uma expressão de “legal”. Nenhum olho arregalado. Nenhum pedido insistente de “me leva lá…”.



É… Houve um tempo em que eu cuidava ao contar as coisas, para que os pequenos pentelhos não grudassem em mim até que eu lhes mostrasse a novidade. Hoje não dão mais bola. Viraram adultos. Não têm tempo para baboseiras tipo “filhote-de-passarinho-na-janela-do-escritório”. Não há mais graça em contar-lhes as novidades e esperar uma reação. Dá saudade daquela época em que um prosaico besouro, uma borboleta, um cacho de abelhas, era assunto para a semana inteira. Hoje, não mais.



Pois sinto falta.



Sinto falta dos pequeninos detalhes prosaicos. Sinto falta daqueles mini seres curiosos para quem tudo é novidade, tudo é possível, tudo é normal. Como daquela vez em que eu e minha filha, que tinha quatro anos, fomos jogar veneno num formigueiro no jardim. Agachados olhávamos as centenas de saúvas carregando as folhas para dentro do buraco. Expliquei a ela:



– “Gabi, neste saco tem veneno que parece comida. A gente espalha em volta do formigueiro, as formigas pensam que é comida, levam lá pra dentro e morrem todas”.



Espalhei o veneno, sem reparar que estava úmido. Esperamos, esperamos e as formigas, nada. Exclamei:



– “Ué, mas elas não estão levando o veneno pra dentro”. E a Gabi, do alto da genialidade de seus quatro anos soltou a frase inesquecível:



– “Também, né. Você falou alto!”.



Emudeci até entender o que estava claro! Falei em voz alta que a comida era veneno e as formigas ouviram! E não são burras a ponto de comer veneno! Burro era eu!



Pois é disso que sinto falta. De surpreender e ser surpreendido. Mas não por um tsunami, dólares na cueca ou torres gêmeas desabando na televisão de meu quarto.



Sinto falta de ser surpreendido pela singeleza da frase desconcertante de uma criança.



Ou por três passarinhos na janela do escritório.