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Os suspeitos

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Luciano Pires -

Na TV Record, reportagem mostra bandidos mantendo dois jovens como reféns numa loja. Na imagem em quase close, os bandidos aparecem com uma pistola e uma faca, ameaçando matar as vítimas. A negociação dura mais de uma hora até que, ajudada por parentes dos bandidos, a polícia rende os vagab… ops! os infratores. E a repórter da Record informa:

– Os suspeitos estão algemados e são colocados no camburão.

“Suspeitos?”. O que será que os bandidos deveriam fazer para deixar de ser “suspeitos”?

Isso me lembrou de um texto publicado no www.sandrofortunato.com.br chamado MANIA DE SUPOSTO:

“Suposto(a) foi a palavra mágica que a imprensa resolveu adotar para minimizar – ao menos para si mesma no caso de processos – os males causados pelo débil jornalismo que vem sendo feito na última década e meia. O denuncismo (mais que uma mania, uma praga), a sede louca por apontar coisas erradas, fez esquecer um dos princípios básicos do jornalismo: apurar a veracidade de uma informação. E para não voltar a ter esse trabalho, a saída foi passar para o campo da suposição.

Se tudo é hipotético, o que está sendo feito é ficção. O suposto assassino…, a suposta propina…, o suposto caso…, o suposto uso irregular… Isso é fofoca disfarçada de jornalismo. Nada é apurado. Nada é checado. Nada é confirmado. Joga-se o ‘suposto’ no ar e, se não for verdade… quem disse que era? Era apenas suposição.

O emprego do termo não blinda a imagem de ninguém no caso de a suposição vir a se mostrar inverídica. Por outro lado, se é verdadeira, não tem credibilidade alguma, afinal, não passa de uma teoria sem comprovação.

Por supuesto, o suposto é mais uma forma de empobrecer o já lastimável jornalismo que vem sendo feito desde os anos 1990. Qual será a próxima degradação?”

O Sandro fala do uso do “suposto” como uma garantia por jornalistas com preguiça de apurar. Mas acho que é mais que isso. Até hoje tem gente que fala do “suposto” mensalão.

Aquela jornalista da Record foi muito mais longe. Diante da imagem dos bandidos, ali ao vivo, com a arma apontada para a cabeça das vítimas, ameaçando matá-las, chamou os vagab… ops! infratores, de “suspeitos”. O “suposto”, assim como o “suspeito”, se é que um dia foi ferramenta para proteger os preguiçosos de acusações de erro, hoje representa um dos problemas fundamentais de nossos dias: a incapacidade de chamar as coisas pelo nome que elas têm.

Suspeito que isso não tenha nada a ver com “garantia contra um erro futuro”. Nem com preguiça. Tem a ver com engenharia social, com manipulação ideológica, com a Janela de Overton.

Mas pensando bem, no fundo, no fundo, não suspeito.

Tenho certeza que tem a ver com burrice.

Luciano Pires