
E então a Marinalva, que me assistiu numa palestra, pergunta: “Luciano, por que é tão difícil uma pessoa com mais de quarenta anos de idade conseguir trabalho?”.
Vixe... Lidei com essa questão em cada fase de meu desenvolvimento profissional. Como jovem profissional, vi os “quarentões” sempre com muito respeito e admiração. Ficava extasiado com a capacidade daqueles grandes executivos de tomar decisões, comandar equipes, lidar com problemas complexos. Mas eu achava que tinha mais coragem que eles, que podia tudo, pois eu tinha 24 anos! Sozinho eu era capaz de mudar o mundo! Eu era o fedelho impertinente dando palpites em coisas que desconhecia. Com o tempo fui calibrando meu ímpeto, aprendendo com meus erros e sendo aceito pelos mais maduros. Afinal, se juventude é um problema, tem cura, não é? Foi um período de profundo aprendizado, que durou até meus 28 ou 30 anos.
Na maturidade percebi que não conseguiria mudar o mundo sozinho. Eu dependia de uma equipe excelente, que me permitisse combater os que não faziam e não deixavam fazer. Na maioria, “velhos ranzinzas que detinham o poder”. Percebi a importância de liderar equipes, motivando e desafiando, servindo de exemplo e orientando os fedelhos impertinentes para canalizar a energia na direção certa. E fui me aproximando dos quarenta anos de idade. E dos velhos ranzinzas. Foi um período exuberante de conquistas e, acima de tudo, diversão, que durou até os 45 anos.
Após essa idade os acomodados começam a envelhecer, no pior sentido da palavra. Calam-se e viram figuras quase decorativas, assistindo as besteiras sendo feitas e esperando sua hora chegar. Mas os inconformados ativos experimentam uma coisa louca: a bolsa escrotal perde a elasticidade. Ficam sem saco para ouvir absurdos, para aturar a repetição das besteiras, para lidar com idiotas, para dar murro em ponta de faca. Tornam-se contestadores, implicantes, chatos e negativos. E começam a incomodar o sistema com sua presença. Deixam de ser convocados para as reuniões e eventos, são vagarosamente colocados para escanteio como se tivesse passado seu prazo de validade, a maioria na plenitude da capacidade, mas cometendo o pecado mortal de não ter mais saco para a comédia corporativa. Velhos ranzinzas.
Se no reino animal é a degeneração física que torna os mais velhos obsoletos, quando ficam fracos demais para se defender e se alimentar, no reino humano são os estereótipos. “Os mais velhos são cheios de defeitos e manias; já não tem energia para o trabalho; é mais difícil comandar os mais velhos, pois tem opinião e contestam. Além disso, tem família, dores e compromissos que os mais novos não tem. Os mais velhos são mais caros; estão por fora das novas tecnologias e ondas do mercado; em geral são mais feios, menos gostosos, mais lerdos e... ranzinzas.”
No universo profissional dos medíocres, os jovens tem futuro enquanto os velhos só tem passado. É assim que o processo funciona, Marinalva.
Seria apenas triste, se não fosse burro.
Luciano Pires
