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Luciano Pires -

Lá vou eu me incomodar. Mas eu gosto…

Antes de escritor, palestrante, radialista ou consultor, sou um cartunista. Essa é minha raiz, é a base sobre a qual me formei. Cartunistas são críticos sociais, que têm um olhar treinado para a piada. Se você me perguntar qual é minha missão eu digo: é a busca sistemática, organizada e contínua pela piada. Há muito ampliei meu conceito de “cartum”, saindo do desenho para tratar um texto, um vídeo, um podcast e até mesmo uma palestra como um grande cartum. Sou um cartunista que também desenha.

Quando consigo que meu leitor, ouvinte ou espectador esboce um sorriso, abro uma avenida para seu coração. E planto lá uma isca intelectual.

Publiquei esta semana um post, que também considero um cartum, no Facebook. Tratava dos acontecimentos ocorridos no Congresso, quando Renan Calheiros mandou esvaziar as galerias. Diante do título de uma reportagem “Segurança dá gravata em senhora de 79 anos” e a foto do ocorrido, o cartunista montou a imagem mental de um ringue do MMA com o segurança deitado no chão dando um mata leão, aquela gravata fortíssima que faz o adversário desmaiar, na velhinha. Uma cena ridícula, absurda e exagerada. E por isso mesmo, um ótimo cartum.

Então comecei a burilar o post. Como usar a imagem do mata leão sem incorrer numa inverdade? Fui à procura do termo adequado e encontrei o “prepara”. “Segurança prepara mata leão em senhora de 79 anos.” É menos enfático, traz menos certezas, mas continua exagerado, levando a atitude truculenta do segurança para o campo do ridículo.

Próximo passo: pesquisar quem era aquela senhora. O nome dela é Ruth Gomes de Sá, e estava num grupo de oposição que protestava contra as manobras do governo para dar um nó na Lei de Diretrizes Orçamentárias. Essa descoberta me deu o gancho para a super provocação do post. Será que a OAB soltaria uma nota indignada? A ministra dos direitos humanos idem? O Coletivo Amplo Geriátrico das Amigas da LDO (a sigla é ótima) faria um evento em desagravo? Claro que não. Só se dona Ruth fosse ligada a algum movimento social das esquerdas. Não é assim que sempre acontece? O vitimismo seletivo?

E o post ficou assim:

“Segurança do Congresso prepara um mata-leão numa senhora de 79 anos que ontem protestava contra manobra governista. Ficou por isso mesmo. Agora imagine se essa senhora fosse da esquerda…”

Exagerado, ridículo, excessivo… um cartum.

Mas por que não apenas mostrar a foto e relatar o fato? Porque aí não seria um cartum, uma provocação. Seria apenas mais um post igual às centenas que você viu por aí.

Publiquei e esperei pelas reações, que é quando me divirto. O post teve até agora 2152 curtidas, 224 comentários, mais de 1700  compartilhamentos. Muita gente apenas liberou sua indignação, mas outros tantos pensaram, exatamente minha intenção. E logo chegaram os que leem o que escrevo, interpretam como querem ou podem, transferem para mim a conclusão que tiram e me atacam pela conclusão. O sujeito lê “segurança prepara um mata leão” e entende “segurança aplica um mata leão”. Cai o disjuntor e ele vem comentar que aquilo não é um mata leão. Outro vem questionar: como sei que a senhora não é de esquerda? Focados no acessório, deixam de lado o principal: a truculência e o vitimismo seletivo.

Bote na cabeça: não sou aquele desocupado que passa pelo Facebook pra dar uma especulada. Meus posts, assim como meus textos, podcasts e palestras, são parte da minha profissão. Antes de publicar, penso e repenso: como dar um nó na cabeça das pessoas? Como num cartum, não coloco nada por acaso. A ironia é pensada, o exagero é pensado, a ilustração é pensada, as reticências são pensadas. Tudo feito para incomodar, para provocar uma reação. Se você não achou graça, se foi contra ou a favor, não importa, desde que não fique indiferente… e pense!

Por isso tome cuidado. Quem lê e não pensa, corre o risco de fazer papel de bobo.

E aí diverte o cartunista.