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O valor da liberdade

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Luciano Pires -

Cena 1: no calor infernal de São Paulo, pifa o ar condicionado de meu carro. Sim, sou coxinha, elite branca, burguês que anda de carro com ar condicionado. Na oficina especializada pergunto quanto tempo leva para arrumar. A resposta, com uma imensa má vontade:

– Ah… um dia e meio só para achar o vazamento. E depois tem que arrumar. É difícil, tem carro que eu nem pego. Tem que deixar aí.

Levo noutro lugar:

– Xi… deve ser a rebimboca da parafuseta. Tem que trocar, o carro fica na oficina três dias, tem que arrancar o painel inteiro. Só de peça dá uns 2,5 mil.

Dei uma carga de gás e fui embora. Com o vazamento.

Cena 2: procuro um serviço de funilaria. Algum ogro abriu a porta do carro e bateu no meu para-lama traseiro, fazendo um dente. Um rápido exame e o comentário, com jeito cansado:

– Sei não, viu?  É chapa dupla, dá um trabalhão, tem que deixar aí para ver…

Tocodente.

Cena 3: em Porto Velho, vou palestrar no grande Teatro Municipal e descubro que nenhuma das exigências técnicas fora atendida. Não tinha o cabo para o laptop, a sala de projeção ficava no fim do mundo… Um horror. Vem o Andrei, responsável pelos equipamentos do teatro:

– Fique calmo que vamos dar um jeito!

E ele praticamente desmonta a estrutura de projeção, até conseguir ajeitar tudo de acordo. Fiquei pasmo. Raríssimas vezes encontrei gente com aquela disposição para fazer acontecer!

Cena 4: Enquanto o Andrei se desdobrava para desmontar o projetor, puxar cabos, etc, chega um sujeito da área de TI da prefeitura, mandado ao local para dar uma assistência. Chega de cara feia, má vontade, perguntando o que tinha pra fazer. Quando digo que estamos verificando, a resposta seca:

– Tem que ver aí, porque meu turno termina em 15 minutos.

Dispensei o sujeito.

Quatro situações nas quais eu tinha um problema para resolver. Em três delas, proficionais (sim! “profissionais” são outra coisa) deram a impressão de superestimar o problema (provavelmente para depois cobrar caro), chutaram prazos irreais ou deixaram claro que estavam ali a contragosto, de má vontade. O único que diante do problema optou por enxergar soluções sem pedir nada em troca, foi o Andrei. Com um baita sorriso no rosto.

E então, enquanto eu aguardava o momento da palestra, um sujeito me conta que coordena um grupo de presidiários que tem licença especial do juiz para trabalhar durante o dia, retornando para dormir no presídio. O Andrei é um deles, cumprindo pena por envolvimento com drogas.

Os três proficionais com emprego fixo, livres para ir e vir, demonstraram nenhum compromisso com a resolução de meus problemas. O presidiário não mediu esforços, não poupou energia e simpatia, assumiu a responsabilidade e deu um jeito de encontrar uma solução.

O natural não seria esperar o contrário?

Mandei um livro de presente para o Andrei. Imaginar que ele está lendo durante a noite, numa cela da prisão lá em Porto Velho, me causa certa angústia e uma certeza.

Só quem perde a liberdade sabe o valor que ela tem.