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O urgente e o importante

O urgente e o importante

Luciano Pires -

É impressionante! Vi as imagens do vandalismo no Rio de Janeiro, com um grupo de mascarados quebrando vitrines de lojas, destruindo agências bancárias, orelhões, bancas de jornal e placas e postes de sinalização no Leblon e Ipanema. São cenas chocantes, que me fizeram ferver o sangue. Especialmente quando aparecem destruindo… bicicletas. Você não viu? Acesse http://goo.gl/74JO5.

Em seguida vi uma entrevista coletiva da cúpula da Polícia Militar e Secretaria de Segurança do Rio. Num momento patético, o comandante quase se desculpou com os jornalistas pelo uso do gás lacrimogêneo. Ridículo. Fiz um post no Facebook a respeito. Minha posição: esses vândalos não são manifestantes, estão a serviço de alguma causa. E seja qual for essa causa, estão errados. Não há o que justifique aquela destruição.

Em dois minutos começaram a chegar os comentários dizendo coisas como “você viu as imagens na Globo. Tá explicado”; “esse ‘vandalismo’ foi provocado pela PM que massacrou tudo e todos e subitamente ‘se retirou’ … deixando a massa sem controle agir”; “antes de emitir qualquer opinião baseada em mídias comprometidas com interesses escusos, é bom ver o que acontece de verdade nos locais de manifesto.”; “quem é o maior vândalo? Esses que estão nas ruas ou os políticos que roubam?”.

As pessoas confundem o urgente com o importante e nem sequer compreendem que, assim, estão justificando a violência!

Urgente é o vandalismo, a violência. Os vândalos têm que ser parados, presos e condenados, não importa se são direita ou esquerda, pretos ou brancos, pobres ou ricos, flamenguistas ou vascaínos. O vandalismo é uma crise, é urgente pará-la!

Importante é saber quem são os vândalos e a serviço de que causa estão.

Sacou? Primeiro o urgente, parar a crise, e depois o importante, para evitar que ela se repita. O urgente não exclui o importante. Um não invalida o outro.

É curioso. O sujeito é inteligente, sensato e de repente inverte as prioridades e a cena do “manifestante” (está ente aspas, viu? É uma ironia) mascarado que agride um fotógrafo não tem importância, pois foi mostrada pela Rede Globo. O problema deixa de ser a agressão para ser a Globo. A cena dos animais destruindo uma banca de jornal não quer dizer nada, pois eles foram provocados pela polícia. Quem reclama dos vândalos é um manipulado pela mídia.

Esse raciocínio é igualzinho àquele que culpa a vítima pelo estupro, pois ela estava usando roupas provocantes. O que causa essa espécie de estupidez seletiva é a soma de deslumbramento com ignorância. O deslumbramento com alguma demonstração de resistência dos oprimidos anestesia o senso crítico, e a pessoa confunde seus filtros morais. O político rouba? Então justifica destruir a padaria do seu João. A polícia reprime? Então é justo revidar com um coquetel Molotov. A imprensa defende interesses? Então não acredite na imagem do sujeito jogando um tijolo na vitrine da loja. É manipulada.

Pois é… Mas por mais manipulada que a imagem seja, o resultado é a vitrine quebrada, a banca queimada e o fotógrafo agredido! É urgente parar isso!!

Existem limites que não podem ser ultrapassados, nem mesmo em nome de crimes que outros cometeram. Políticos roubam? Vamos infernizar a vida deles sem incendiar a cidade. Vamos fazer a cabeça de quem os elege para dar o troco. Vamos chamá-los de ladrões na cara deles. Vamos desmenti-los usando as mídias sociais. Mas não vamos roubar como eles! É preciso manter a capacidade de… putz. Quer saber?

Se você não é um estúpido seletivo, não precisa ler este texto. Mas se é um deles, jamais entenderá o que estou escrevendo.

To perdendo tempo.

Luciano Pires