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O surfista

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Luciano Pires -

Uma notícia me chamou a atenção hoje: de nada adiantou o protesto contra o Uber feito por dezenas de taxistas no Rio de Janeiro, que bloquearam diversos pontos da cidade recentemente, inclusive agindo com violência contra quem tentava romper as barricadas. Na semana seguinte, uma juíza decidiu que o aplicativo continuará funcionando até que a atividade seja regulamentada oficialmente pelo Poder Público do Estado.

Para a juíza, o fato de que os táxis, além de se beneficiarem da mesma tecnologia do Uber através de apps como Easy Taxi e 99, possuem a alternativa de conquistar clientes nas ruas. Um motorista do Uber não pode fazer o mesmo. “Trata-se da concorrência assimétrica, identificada nos setores de telecomunicações, energia e portos, que admite e estimula a concorrência entre os distintos regimes”, disse a juíza.

Enquanto isso as manifestações contra o Uber continuam por todo país. Aliás, em várias cidades do planeta.

Três anos atrás, se você dissesse “Uber”, “Waze” ou até mesmo “Netflix”, quase ninguém saberia do que você estava falando. Hoje, para algumas pessoas como eu, a vida sem esses aplicativos está se tornando impensável, tipo “como é que eu vivia sem isso?”.

Essas tecnologias disruptivas (que rompem, alteram, inovam) chegam para tomar conta por uma razão fundamental: facilitam as vidas dos usuários e criam valor de uma forma visível e imediata. E é impossível contê-las, mesmo com a força da lei. Essas tecnologias são como aquelas plantinhas que nascem em qualquer rachadura do concreto. Quando a vida se manifesta, é impossível pará-la.

Foi assim com os programas que baixam músicas pela internet: quando surgiram, a indústria fonográfica caiu matando com ajuda da justiça, mas era suspender um para surgirem quatro ou cinco no minuto seguinte. E a indústria não encontrou outra saída a não ser partir na direção que os sistemas disruptivos apontavam. Hoje os sistemas de venda de música online atropelaram todos os outros e os CDs estão se tornando peças de museus.

Ontem chamei um Uber e me surpreendi quando chegou um carro preto com placas vermelhas. Perguntei ao motorista, Vagner, o que era aquilo e ele me disse:

Eu sou Uber, sou Táxi Comum, sou 99, sou Easy Taxi, sou qualquer sistema de transporte que o senhor conhece. Tudo regularizado, com as licenças necessárias. Trabalho com qualquer um.

– Mas você tem taxímetro?

– Tenho e uso conforme o chamado que atendo. Comigo não tem tempo quente.

– Pô, mas você gastou dinheiro pra ter tudo isso, não é?

– É. Mas eu acredito que vou compensar com o volume de trabalho que eu consigo. Posso pegar até cliente na rua. E não corro risco de ser atacado pelos que não querem o Uber, afinal, sou um taxista regularizado.

Confesso que não entendi muito bem, não sei se um carro preto com placas vermelhas pode ter taxímetro, mas uma coisa ficou na minha mente desde ontem: no meio do tiroteio o Vagner fez sua escolha, em vez de optar por um lado ou outro, abraçou tudo aquilo que todos os lados têm de melhor.

Em vez de nadar contra a onda, o Vagner está surfando nela.

Isso é ser disruptivo.