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O que é Popular?

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Luciano Pires -

Estou viciado no Auditório Ibirapuera. Vira e mexe vou lá, num domingo pela manhã, numa sexta à noite ou em qualquer dia da semana que posso. Já assisti ali shows memoráveis de André Abujamra, Antonio Nóbrega, Tangos e Tragédias, Funk Como Le Gusta e muita gente mais. Um auditório maravilhoso, confortável, seguro, com acústica perfeita e frequentado por gente que sabe o que está fazendo lá. Quando o show é caro, custa 30 reais… Ou seja: consigo apreciar o que existe de mais fascinante na música brasileira, pagando bem barato.

Esta semana estive no SESC da Avenida Paulista. Assisti um maravilhoso show de jazz, lanchei numa “comedoria” deliciosa, e visitei uma lojinha com CDs inacreditáveis… Saí de lá alimentado, com seis CDs e com o espírito leve de quem se entrega à boa música. E gastei em torno de 80 reais, incluídos os seis CDs…

Então recebo este email da leitora Lívany Salles com um comentário interessante:

“Luciano, brasileiro sempre reclama que cultura é para intelectuais ou que cultura custa caro, como se fosse um objeto que pode ser vendido ou comprado. Parece até que as pessoas dão mais valor quando compram um ingresso caro para uma peça de teatro ou vão ao cinema nos finais de semana e feriados, gastando dinheiro com estacionamento, com comida e com o ingresso propriamente dito, que anda bem salgado, diga-se de passagem. Não estou dizendo para ninguém deixar de ir ao teatro ou ao cinema, pelo contrário. Apenas afirmo que existem opções para os dias de, digamos, vacas magras. E, ultimamente, como a grana anda hiper apertada, resolvi entrar na ‘onda’ dos eventos gratuitos. Descobri tantas opções que algumas até calham de ser no mesmo dia e horário. Ou seja, estou até escolhendo! Ontem fui numa palestra do programa Café Filosófico. Bom, a palestra foi fenomenal e saí com aquela sensação de ‘ah, se todos aproveitassem essas oportunidades’. Se realmente as pessoas dessem valor. Conclusã uma noite super agradável ao preço de duas passagens de ônibus e um chocolate quente que custou R$ 0,65. E eu vejo tanta gente reclamando que não sai porque não tem dinheiro. Ou, então, reclama que não tem opção de lazer. Que tudo o que é bom, é caro. Mas basta sair de casa para encontrar diversas oportunidades de apreciar bons programas sem gastar muito dinheiro.”

Pois é… Minhas experiências no Auditório Ibirapuera, no SESC e em tantos outros lugares, assim como o email da Lívany, me levam a uma daquelas reflexões: o que é “popular”?
As definições de dicionários dizem que popular é aquilo que é do povo comum a todos democrático. Portanto acessível. Pelo critério da acessibilidade ao artista, então “popular” é a Orquestra de Câmara da Ulbra lá de Porto Alegre, dirigida por meu amigo Tiago Flores, que cobra 10 ou 15 reais pelo ingresso, quando não toca de graça. “Popular” é a Biblioteca Municipal, que não cobra ingresso. “Popular” é o grupo de chorinho que toca todo sábado na Feira da Benedito Calixto, sem cobrar nada. “Popular” é a quantidade imensa de artistas independentes que vendem seus CDs como podem, por 5, 10 ou 15 reais. “Popular” são o SESC e o Auditório Ibirapuera.

Mas curiosamente nossa sociedade inverteu essa lógica: “populares” são a Ivete Sangalo. A Banda Calypso. Zezé di Camargo e Luciano. Roberto Carlos. Artistas competentes, batalhadores, mas a cujos shows é impossível ir sem gastar 80, 100 ou 200 reais.

Sacou o jogo? Neste nosso mundo midiático, quanto mais “popular”, mais caro. E inacessível.

Felizmente temos aquela velha arma nas mãos: a liberdade de escolha para optar pelos artistas dos auditórios Ibirapuera e Sescs.

Liberdade de escolha, sempre ela…

Pena que a maioria não usa.