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TRIVIUM: CAPÍTULO 3 – MORFOLOGIA CATEGOREMÁTICA (parte 2)
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O olhar não poluído

O olhar não poluído

Luciano Pires -

Fiquei impressionado muitos anos atrás ao viajar para o Rio de Janeiro e visitar um amigo carioca, que nasceu e viveu a vida toda na cidade maravilhosa. Fizemos os tradicionais passeios para turistas e fui surpreendido por ele quando, no alto do Corcovado, sob os braços do Cristo Redentor fez uma confissão:

– É a primeira vez que venho aqui.

O cara tinha mais de quarenta anos de idade e nunca tinha feito uma visita ao Cristo Redentor! Perguntei a razão e ele explicou que a loucura do dia a dia, os compromissos… mas eu entendi perfeitamente o que se passara. Para ele, o Cristo Redentor era invisível. O Pão de Açúcar idem. A floresta da Tijuca ibidem…

Meu amigo sofria do mal que muita gente sofre, o de não reparar nas coisas que são rotineiras, da incapacidade, pela proximidade, de enxergar coisas legais que apenas um olhar não treinado consegue. A rotina faz com que tudo vire parte da paisagem. Está tudo ali, tão fácil, tão à mão, tão perto, que a gente não vê. É preciso chegar um estrangeiro para nos acordar.

E num momento como o que vivemos hoje, especialmente aqui no Brasil, essa percepção ganha outra dimensão. A enxurrada de más notícias diárias, a percepção de que seremos enganados, roubados, vilipendiados, cria em nós uma couraça que não permite que nada positivo seja percebido, valorizado e curtido. Vamos nos acostumando ao inferno e não sentimos mais o cheiro do enxofre ou o calor das chamas. O otimista, é chamado de otário, deslumbrado ou coisas piores. Tudo que é feito na cidade tem um lado ruim que é mostrado, analisado, ridicularizado. E não há como negar: o ruim, o mau, está lá, existe! Não haveria mal algum em focar nele se houvesse um equilíbrio, mas parece impossível. Parece que tudo é só ruim, todos são só maus, e o futuro será ainda pior.

E então surge um momento de luz! E a gente para para repensar as coisas.

Escrevo essa reflexão impressionado com um documentário feito por uma garota húngara, a Tünde, que me proporcionou um desses momentos de iluminação.

Tünde chegou em São Paulo em 2012 e começou a contar em vídeo suas primeiras impressões sobre o Brasil, explicando assim seu desafio: “Brasil sempre era um sonho exótico para mim, fora de alcance. Um sonho mesmo da menininha imaginando aquele mundo desconhecido com povo lindo, feliz, palmeiras, saias curtas e coloridas. Um abrigo dos desafios da realidade, mas nunca um objetivo. Tão impossível. Agora esse sonho é o meu desafio de realidade.”

O documentário é dividido em três partes nas quais o olhar não poluído de Tünde nos revela uma São Paulo que nós, paulistas, há muito deixamos de enxergar. São detalhes aparentemente bobos, que aos olhos de uma estrangeira revelam belezas que não enxergamos mais. Some-se a narração com um sotaque delicioso e…pronto! É fascinante!

Assistir esse documentário, praticando o exercício de enxergar nosso dia a dia através de olhos não acostumados, deveria ser obrigatório para todo brasileiro.

Faz bem pra nossa autoestima. E mostra que existe esperança sim. Mas temos que sair da zona de conforto.

Experimente: http://bit.ly/1HMUdC2