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O naufrágio e o mensalão

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Luciano Pires -

O ano de 2012 está sendo especialmente didático. Começou com uma tragédia quando o navio italiano Costa Concordia bateu numa rocha junto à ilha italiana de Giglio no dia 13 de janeiro. A colisão abriu um imenso buraco no casco e o navio encheu de água e virou. O comandante, apontado como o responsável pelo acidente por fazer uma manobra imprudente, abandonou a embarcação logo após o impacto, deixando a tripulação e os mais de quatro mil passageiros para trás. 32 pessoas morreram. Na sequência todos os noticiários reproduziram o diálogo que o Gregorio Maria De Falco, Comandante da Capitania do Porto de Livorno, manteve por telefone com o Capitão do navio, Francesco Schettino, que estava dentro de um dos barcos, fugindo. Aos berros o Comandante Gregorio mandava o capitão retornar para o navio:

– Vada a bordo, cazzo!

O diálogo foi celebrado em todo mundo, especialmente pela forma crua e impactante da violenta dura que deixou o capitão fujão sem palavras. No dia seguinte havia um clamor nacional na Itália: “Comandante Gregorio para primeiro ministro!”. Gregorio Maria De Falco passou a ser tratado como um herói nacional.

Agora o Brasil. Nestes últimos dias ocorreu o momento mais importante do julgamento do Mensalão, com a condenação dos graúdos réus políticos: José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares. A figura principal do julgamento foi o Ministro Joaquim Benedito Barbosa Gomes, relator do processo, que trazia consigo o incômodo de ter sido indicado para o STF pelo ex-presidente Lula, maior interessado na absolvição dos réus.

Joaquim Barbosa cumpriu seu papel: foi duro, severo e combativo, deixando claro que houve corrupção. A maior parte da imprensa tentou em muitos momentos demonstrar que havia uma divisão no STF, com a turma do Joaquim de um lado e a turma do Lewandowski de outro, mas isso jamais houve. Os réus foram condenados respectivamente por 8 x 2, 9 x 1 e 10 x 0, e Joaquim Barbosa passou a ser aplaudido nos Shopping Centers e restaurantes. Por onde passa é celebrado como o mais novo herói nacional, o homem que bravamente mostrou ao país que corrupto tem que ser tratado como corrupto, não importa a patente.

Muito bem… Sabe o que é que o Comandante De Falco e o Ministro Joaquim Barbosa tem em comum? Apoiados em seus valores morais, ambos defenderam em público suas convicções, aquilo que acharam certo. Até no berro, se preciso. E a platéia caiu a seus pés.

O que ambos fizeram foi apenas cumprir com sua obrigação! Mas acontece que estamos tão perdidos, tão desesperadamente em busca de líderes, de modelos, de gente que não esteja moralmente de cabeça para baixo, que “apenas cumprir com a obrigação” tem mesmo que ser comemorado como uma grande vitória!

E se a obrigação for cumprida com convicção, temos heróis!

Mas De Falco e Joaquim rejeitam insistentemente o rótulo. Para eles, nada mais fizeram que cumprir sua obrigação, e estão certos. Merecem os parabéns por um trabalho bem feito, por servir de modelo de comportamento, por atender à expectativa da sociedade, por vencer suas batalhas.

Mas a guerra está só no começo.

Luciano Pires