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Luciano Pires -

Sempre que penso em mentiras, lembro de um personagem famoso da minha infância: o Pinóquio. Criado pelo italiano Carlo Collodi em 1883, o boneco mentiroso, cujo nariz crescia a cada mentira pronunciada, foi imortalizado por Walt Disney num desenho animado inesquecível.

Pois li uma coisa interessante relacionada a mentiras e crianças: o Institute of Child Study da Universidade de Toronto, no Canadá, realizou uma pesquisa com 1200 crianças com idades entre 2 e 16 anos para tentar entender como elas mentem. E a descoberta foi fascinante.

Com dois anos de idade, 20% das crianças mentem. Aos três anos, a taxa sobe para 50%, chegando a quase 90% aos quatro anos. Aos doze anos, praticamente 100% das crianças mentem. E então a taxa começa a cair, chegando a 70% aos dezesseis anos. A partir daí, os jovens adultos aprendem a usar aquelas mentirinhas quotidianas que servem para não magoar os sentimentos dos outros, sabe como é? Aquele “simpática” que a gente diz quando não quer chamar a moça de “feia”?
O mais interessante: os pesquisadores deduziram que a habilidade de mentir está ligada ao processo de lembrar, raciocinar, entender e julgar. Ao desenvolvimento cognitivo. Quanto mais sofisticada e plausível a mentira, mais a criança demonstra ter capacidade de desenvolver pensamentos complexos. E mais chances de sucesso tem na vida. É o Dr. Kang Lee, diretor do Instituto, que conclui:

– Toda criança mente. E as que tem um melhor desenvolvimento cognitivo mentem melhor pois conseguem esconder as pistas…

Escrevo a respeito da pesquisa do Dr. Lee na tentativa de entender o que anda acontecendo com o Brasil. Nunca antes na história deste país se mentiu como hoje. A mentira está institucionalizada, é dita em horário nobre nas televisões, na cara dura, como a do Pinóquio: de pau. E o que é estarrecedor, a mentira jamais é confrontada com a verdade. O sujeito (e a sujeita) chega na televisão, diz uma mentira descarada e fica tudo por isso mesmo. Houve um tempo em que jornalistas ridicularizavam o mentiroso. Hoje não. Mentir é parte do jogo e contestar a mentira é “ser grosso”, “jogo político”, “criar factóides” e “ser de direita”. E neste Brasil onde “nóis invertemo as coisa” os(as) mentirosos(as) são tratados com respeito, pompa e circunstância. É um tal de “senhor candidato” pra cá, “senhora candidata” pra lá que me deixa nervoso!
Pô, quando é que essa gente será tratada como “mentiroso de uma figa”?

Nas últimas semanas assistimos a verdadeiros descalabros, que culminaram (de novo!) com a quebra do sigilo fiscal de adversários políticos para uso como arma de desmoralização – em política isso quer dizer exterminação. O fato é gravíssimo e desde o início o que se vê são mentiras. Mentiras oficiais, ditas por autoridades e defendidas por quem deveria estar defendendo é a verdade. Isso é péssimo. É a moral jogada na sarjeta.

Será este o novo Brasil que “é de todos”? Meu é que não é. Esse aí, não.

A turma envolvida na mentirobras é composta de gente bem sucedida, não são manés fracassados. Ocupam altos cargos em empresas estatais, órgão públicos e partidos políticos. Vieram lá de baixo e hoje recebem salários e benefícios com os quais os trabalhadores comuns nem sonham. Essa gente, para quem a mentira é um método, não faz escolhas morais, mesmo porque nem percebe que essas escolhas precisam ser feitas. Para atingir seus objetivos, mentem. Mentem descaradamente. Chegam a mentir que é seu o dinheiro que na verdade é da gente…

Seguindo o raciocínio do Dr. Lee: são um sucesso, portanto devem ter mentido – e bem – desde que nasceram. Mas quer saber? Se o Dr. Lee está certo, essas pessoas não tiveram o melhor desenvolvimento cognitivo quando crianças, não.

Como Pinóquio e seu nariz, eles não conseguem esconder as pistas.

Luciano Pires