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Publiquei em minha página do Facebook uma divertida frase de Woody Allen: “O mundo divide-se em pessoas boas e más. As boas têm um sono tranquilo. As más divertem-se muito mais”. Alguns minutos depois entra um comentário de um leitor: “A gente dissemina essa ideologia por aí, como se fosse piada. Depois se surpreende quando lê notícias sobre corrupção, crimes. Será que não teríamos um ganho de despocotização se começássemos a questionar mais seriamente esses slogans a partir de suas consequências práticas, no mundo real, no Brasil do Real? O que você acha, Luciano?”

Em seguida outro leitor: “A ironia é um perigo. Se eu fosse presidente colocaria obrigatório os dizeres: ‘Atenção isto é uma Ironia. Na persistência dos sintomas, um médico deverá ser consultado’. E eu não estou sendo irônico… Em um país dominado por pocotós acho que devemos tomar sim, mais cuidado com o que dizemos e distribuímos, afinal, tem gente grande que acha que batatinha quando nasce, se esparrama pelo chão.”

Os dois leitores estavam me dizendo: “não escreva coisas que os pocotós possam interpretar mal.” Por causa de uma situação semelhante criei uma vinheta sonora em meu podcast Café Brasil e anunciei que a utilizaria sempre que usasse uma ironia. Seria um aviso tipo “isto é uma ironia” para que a pessoa tomasse cuidado com a interpretação do que eu acabara de dizer. E então dezenas de ouvintes caíram de pau: agindo assim eu os estaria tratando como idiotas, incapazes e ignorantes, nivelando-os aos pocotós. E eles tinham razão.

Tem gente que adota o que chamo de Mínimo Divisor Comum, uma versão do MDC, Máximo Divisor Comum que você aprendeu nas aulas de matemática. O Mínimo Divisor Comum funciona assim: qual é o máximo de simplificação a que posso chegar numa informação? Quanto posso eliminar de ironia, segundos sentidos, sujeitos ocultos, citações e informações que exijam alguma ginástica cerebral? Esse é o método utilizado pelos políticos ao se dirigir à população: a infantilização dos discursos, a redução das questões ao mínimo divisor comum, a absoluta falta de provocação ao pensamento crítico. É como Lula explicando o problema do aquecimento global porque o planeta é redondo ou José Serra explicando a gripe A porque os porquinhos espirram: a infantilização do debate, tratando os interlocutores como imbecis. Mais que isso, apontando para uma atitude: se seu interlocutor é um imbecil, seja também um imbecil.

“O mundo divide-se em pessoas boas e más. As boas têm um sono tranquilo. As más divertem-se muito mais.” Se você não sabe quem é Woody Allen, ou se sabe, mas não conhece a obra dele, não vai sacar a ironia. E vai querer uma explicação…

Entendeu? O Mínimo Divisor Comum é instrumento de mediocrização.

Tô fora.

Luciano Pires