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O Brasil da TV Globo, do Whatsapp e as manifestações do dia 26/05
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O Jornalista

O Jornalista

Luciano Pires -
Li outro dia que o volume de informações contido numa edição de um grande jornal é equivalente ao volume de informações que um indivíduo acumularia durante TODA a vida no século 17…é mole?

Exercendo meu papel de diretor numa grande empresa, lido diariamente com o desafio de filtrar o volume imenso de informações que recebo. Depois do advento do e-mail, essa tarefa tornou-se impossível. Tudo passou a ser muito rápido, o acesso à informação é irrestrito. Você tem o que quiser, na hora que quiser, na profundidade que quiser, no idioma que quiser…e até o que NÃO quiser…
Esse volume de informações é impossível de ser administrado. Não dá e ponto.

E como é que a gente faz? Não faz…
É característica do brasileiro aplicar muito pouco tempo na reflexão sobre as informações de que dispõe. Estudar, comparar, discutir…investir tempo na tentativa de projetar cenários futuros…não, isso não é coisa de brasileiro. E com tanta informação disponível, Deus me livre! Dói!

Mas meu ponto aqui é outro. O problema não é apenas lidar com tanta informação. É a forma como GERAMOS essa informação.

Nasci filho de jornalista e virei jornalista. No entanto, desde 1979 trabalho em Marketing, nunca tendo exercido a profissão de jornalista, a não ser publicando artigos aqui e ali, sem que isso tenha sido meu ganha-pão. Uma coisa, porém, não posso negar: tenho veia jornalística. Aquela capacidade de observar o detalhe, de exercer a curiosidade pensando com a cabeça dos outros…o que será que meus leitores querem realmente saber?
Atribuo principalmente a essa característica o sucesso que porventura eu tenha tido em minha carreira. A outra parte vem do fato de eu ter sempre jogado no gol, mas isso é outra história.

Tenho uma tese de que a veia jornalística é fundamental para o dia-a-dia de qualquer a atividade que exercemos.
Jornalista é aquele chato, intrometido, que sempre aparece nas piores horas pra botar mais lenha na fogueira. Aquele cara que vai contar pra todo mundo o lado ruim do que aconteceu.

Mas quando o jornalista é bom, ele não conta só o lado ruim. Nem conta só o que aconteceu. Ele conta porquê. Onde. Como. Quem. Quais as conseqüências.
Ele trabalha pensando no seu leitor, nas dúvidas que estarão passando pela cabeça de quem vai ler sua matéria.

Fico imaginando se nós, que gerenciamos e dirigimos empresas, tivéssemos um pouco desse sangue nas veias. A postura investigativa, a curiosidade, a capacidade de edição, de praticar o inter-relacionamento de informações que tem um (bom) jornalista. Talvez fossemos mais capazes de oferecer a nossos clientes algo mais consistente, que verdadeiramente agrega valor a nossos produtos e serviços: INFORMAÇÃO RELEVANTE.

Mas isso é sonho. É alarmante a incapacidade que a grande maioria das pessoas tem de não conseguir trabalhar as informações que passam adiante. Do jeito que veio, passa pra frente. Não existe preocupação em interpretar, adaptar, colocar a informação no nível do receptor.

Se não temos esse talento, por que não contamos em nossas equipes com gente com o talento jornalístico para tratar as informações antes de passá-las para o mercado?
Se não temos esse talento, por que só as escolas de comunicação têm a disciplina COMUNICAÇÃO em seus programas? Por que a habilidade de comunicação está colocada dentro da mesma cesta dos treinamentos “”comportamentais”” que são secundários diante dos treinamentos técnicos exigidos pela miopia gerencial do brasileiro?

Porque somos ignorantes. Porque achamos que nascemos sabendo tudo de comunicação. Afinal, não somos capazes de falar? Pois ao ignorar a importância da comunicação, ajudamos a transformar aquele mundo de informações que nos esmaga em algo ainda mais complexo e cabeludo.

Tenho convicção de que é isso que está por trás de alguns dos grandes problemas que o Brasil enfrenta historicamente: gente que não é do ramo lidando com temas delicados e comunicando-se com incompetência infinita.

Taí, por exemplo, a cruz que FHC, o maior administrador da oitava maior empresa do mundo, carrega em seu segundo mandato: cheio de realizações boas, de números e tendências positivos, de conquistas importantes para o futuro, mas um desastre em comunicação. Informações truncadas, faltantes, manipuladas, ininteligíveis, em excesso… tudo errado. Informação que o cliente, o povo, não consegue entender, não consegue encontrar.
Resultado: pau no Presidente. Crise. Apagão.

Ah, se nós fossemos menos engenheiros. Menos advogados. Menos médicos. Menos administradores. Menos contadores. Menos matemáticos. Menos professores. Menos políticos.

Se nós fossemos mais jornalistas.

Os leitores agradeceriam.